segunda-feira, 10 de junho de 2013

A INTELECTUALIDADE DOMINANTE E SEU "SOCIALISMO DE MERCADO"

EM OUTROS TEMPOS, A CAUSA PROGRESSISTA DA REVOLUÇÃO FRANCESA ERA PARCIALMENTE DEFENDIDA POR NEOCONS QUE DEIXARAM SUA MÁSCARA CAIR. E HOJE?

Por Alexandre Figueiredo

A intelectualidade dominante de hoje corresponde a um equivalente atualizado e adaptado a diferentes contextos das elites parcialmente progressistas que predominavam na opinião pública do Brasil do final do século XVIII e do decorrer do século XIX.

Em tese, naquela época, essas pessoas se julgavam "sincera e firmemente solidários" aos ideais iluministas da Revolução Francesa de 1789, um dos primeiros movimentos de superação das injustiças sociais da era moderna. Mas, na prática, defendiam ainda valores ligados à condição de colônia do Brasil e ao regime escravagista vigente em nossa economia.

Atualmente, o que se nota é uma intelectualidade que se diz "sinceramente de esquerda" e jura ser "contra o mercado e a grande mídia", mas guarda e expressa valores que haviam aprendido nos anos 90 através da Folha de São Paulo e de Fernando Henrique Cardoso. Gente que, no fundo, acredita no "socialismo de mercado" que não ameacasse o status quo das desigualdades sócio-culturais.

As ideias veiculadas pelos cientistas sociais e jornalistas musicais que defendem mais a "cultura de massa" brega-popularesca do que pedir melhorias culturais para as classes populares são muito típicas desse neoliberalismo enrustido. Alegam esses intelectuais que as melhorias sócio-culturais iriam "macular" a "pureza" e a "inocência" atribuídas à imagem caricata de povo pobre difundida pela mídia.

Essa caricatura de "cultura popular" é defendida pela intelectualidade dominante, através de seu poderoso arsenal discursivo (que inclui até mesmo documentários e monografias), sob o pretexto de que ela "gera empregos", "é o que o povo sabe fazer" e "é o que o povo gosta". Uma visão carregada de preconceitos, vindos de gente que se julga "sem preconceitos".

Eles só admitem "melhorias" na cultura popular se houver algum controle em suas mãos e não represente ruptura com o "estabelecido" pela grande mídia e pelo mercado. Só que isso é mais um processo de continuidade na domesticação das classes populares e torna pior o que já é ruim, através de uma higienização feita na já bastante higienizada "cultura" brega.

A ideologia brega é carregada de preconceitos que as elites, "positivamente", defendem sob o pretexto de "ruptura" desses mesmos preconceitos. Ela envolve baixa expressão artística, através de referenciais absorvidos não de forma espontânea por raízes sócio-comunitárias, mas pela imposição do poder midiático local, que lança uma série de referências fragmentadas assimiladas de forma acrítica pelo "povão".

O "cenário" da "cultura" brega, "maravilhosamente" descrito pela intelectualidade badalada de hoje, envolve condições nada humanas para os indivíduos das classes populares, o que dá o tom da visão etnocêntrica que historiadores, antropólogos, sociólogos e críticos culturais "divinizados" pela opinião pública média expressam por detrás de seus textos persuasivos.

As jovens mulheres são condenadas permanentemente à prostituição. Os homens adultos, ao "recreio" passivo do alcoolismo. Os trabalhadores são condenados ao subemprego, com o comércio de material obsoleto ou de produtos contrabandeados, e as crianças são expostas à pornografia travestida de "alegria inocente" através dos grupos com dançarinas calipígias ou das "popozudas" de plantão.

Esse é o "paraíso" que os intelectuais querem das classes populares, adotando argumentações sofisticadas, inserindo nas classes populares referências que os pobres não conhecem, nunca ouviram falar ou, quando muito, só conhecem de forma tão vaga que chegam a confundir nomes e ideias.

Por exemplo, se falam do tecnobrega, vão logo citando de Oswald de Andrade a Mary Quant, sem que o "povão" que consome o gênero tenha ideia de quem eles são ou foram. Se é o "funk carioca", citam de Antônio Conselheiro a Johnny Rotten, sob o mesmo desconhecimento popular. E, no brega de Waldick Soriano e Odair José, houve quem citasse Honoré de Balzac (!) e Charles Baldelaire (?!).

São visões do "bom etnocentrismo" dos intelectuais dominantes. Um etnocentrismo que condena o "etnocentrismo" dos outros, um elitismo que condena o "elitismo" de outrem. E por aí vai, promovendo o "bom mocismo" da intelectualidade que crê no jabaculê como o futuro do folclore brasileiro, e no sensacionalismo, na pieguice e no grotesco as mais caras expressões das classes populares.

Portanto, o "iluminismo" dos intelectuais "esquerdistas" que defendem o "estabelecido" da "cultura" brega-popularesca não é menos escravagista do que o de seus equivalentes do século retrasado. Eles preferem que o povo pobre fique preso na sua inferioridade social, porque ela é, numa abordagem caricaturalmente relativista, numa visão distorcida do "outro", vista como "superioridade".

Contestar essa "superioridade" é adotar a mesma visão abolicionista que havia no século XIX mas que não era bem digerida pela opinião pública média. A desculpa dada na época era que contestar a escravidão é contestar a validade de uma atividade econômica "viável" e socialmente aceita na época. A alegação é que, soltos, os escravos iriam transformar as ruas brasileiras em cenários de guerra civil.

Hoje, os intelectuais que defendem a escravidão do brega afirmam que contestá-lo é contestar uma atividade que "gera empregos" e que "é o que o povo faz e os deixa felizes". E alegam que é melhor as classes populares dançarem o "funk carioca", o "sertanejo", "forró eletrônico" etc do que "incomodar" a sociedade fazendo passeatas pela reforma agrária e pela regulação da mídia.

Ou seja, trata-se de uma intelectualidade que quer fazer tudo para ser considerada "progressista", tentando usar até mesmo a mídia esquerdista para expor seus conceitos neoliberais. Acham que vão salvar a cultura popular defendendo o que tão somente enriquece as elites empresariais e os barões da grande mídia.

O povo parece "feliz", reduzido à sua própria caricatura, mas não tem a menor ideia de que está sendo escravizado pela mídia. Isso não é superioridade cultural. E, sob o manto das desigualdades sócio-culturais consentidas, a intelectualidade, promovendo a paz forçada da mediocridade consentida, se isola sossegada consumindo o patrimônio cultural que ela usurpou das classes populares.

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