segunda-feira, 20 de maio de 2013

VIRADA CULTURAL, DIRIGISMO INTELECTUAL E O BREGA DOS ANOS 90


Por Alexandre Figueiredo

Festivais musicais ecléticos costumam ser um balaio de gatos que vai de nomes comerciais explícitos e medíocres até outros, também comerciais, porém mais decentes, e outros mais alternativos e não-comerciais, uns excelentes, outros maçantes. Isso é compreensível, porque a natureza dos eventos é oferecer diversas opções para vários tipos de públicos.

O problema é quando o julgamento de intelectuais e celebridades "bacanas" passam a "recomendar" a mediocridade musical, a pretexto de ser "popular", como "as mais recomendáveis" para um evento do porte da Virada Cultural de São Paulo.

A edição deste ano inclui, entre várias atrações, as cantoras Gal Costa, que retoma a fase clássica de 1967-1971 divulgando o mais recente disco com músicas de Caetano Veloso, e Fafá de Belém, além de nomes como A Banca (grupo formado por remanescentes do Charlie Brown Jr.), e atrações popularescas como Odair José, Raça Negra e MC's do "funk" paulistano ("funk carioca" paulista?). Há também Wanderleia, Walter Franco, Funkadelic e outras atrações mais cultuadas.

Vendo o portal Terra e a Carta Capital, nota-se a ênfase que o jornalista do texto do primeiro, sem crédito de assinatura, e boa parte dos consultados pela revista, têm em relação a atrações brega-popularescas, já que as elites entendem essa "cultura de massa" que tanto agrada os barões da grande mídia e do mercado como foco de "rebeldia" e "superação do preconceito".

O Terra "recomenda" praticamente o brega dos anos 90, além de Odair José, o "Pat Boone brasileiro" (denominação exclusivamente deste blogue) e do "performático" do tecnobrega, Felipe Cordeiro, do Kitsch Pop Cult.

A ênfase no brega dos anos 90 está no Kaoma (grupo criado por um empresário francês mas hoje empresariado por um brasileiro detentor do nome), em Luís Caldas e no Raça Negra, nomes que representavam a mediocridade musical brasileira mas que hoje são tidos como "geniais" por conta de um saudosismo ao mesmo tempo demagógico e cabecista.

Já entre os entrevistados de Carta Capital, a ênfase está no "funk carioca" paulista (vá entender...), nota-se a presença de nomes como Eduardo Nunomura (portal Farofafá) e Alê Youssef (jornalista, político, líder do Coletivo Fora do Eixo e que desviou a bela Leandra Leal para o caminho duvidoso do gororobismo cultural), gente que faz parte daquele grupo de intelectuais, artistas e ativistas brasileiros que recebem mesada do magnata George Soros.

Youssef se lembrou de outro ídolo do sambrega, Leandro Lehart, ex-Art Popular, cantor que, ao lado do Raça Negra, virou queridinho da intelectualidade etnocêntrica. O namorado de Leandra Leal ainda recomendou Kaoma e os palcos de tecnobrega e "funk", este último também defendido por Nunomura, que veio com um discurso cabecista-militante para defender os funqueiros:

"Minha maior curiosidade será, então, acompanhar a reação do público na pista Alfredo Issa. Os principais nomes do funk paulista passarão por esse espaço, que não foi considerado "palco" pela organização do evento. MCs Dedê, Backdi, Bio G3, Nego Blue, Boy do Charme e Menor do Chapa, entre outros funkeiros, são responsáveis pelas maiores audiências do YouTube. Estão também nas danceterias ricas da cidade, onde não há repressão, e nas esquinas das periferias, onde um forte movimento de repressão policial procura criminalizá-los. No espaço midiático, em geral, é essa a versão que prevalece - o funk é baixa cultura, não vale nada. É uma relação de amor e ódio na sociedade, que desta vez ganha a força e a legitimação da Prefeitura", disse.

Até que ponto essa pregação intelectual é "válida" para estabelecer o que deve ser o "gosto vanguardista" da juventude atual é algo que rende um debate que não cabe neste texto, e deixo para as rodas universitárias. Mas, ver que a turma dos "bacanas" do Brasil está se rendendo à breguice mais escancarada é assustador. Ver que "vanguarda", no Brasil, é Raça Negra, Leandro Lehart e "funk carioca" é o cúmulo do ridículo pretensiosista.

Enquanto isso, lá fora, uma atriz do canal Disney, Debby Ryan - cuja aparência é uma síntese de Raquel Welch com Brigitte Bardot das fases começo dos anos 1960 - , sorri feliz da vida pesquisando discos de The Doors e Velvet Underground.

Fico imaginando se essas "recomendações" são o verdadeiro dirigismo intelectual que a intelectualidade etnocêntrica tentou atribuir a nós, que reprovamos a mediocrização cultural. Fazendo tais "recomendações", a pretexto de indicarem o que é "vanguarda" na música brasileira, esses "bacanas" não fazem outra coisa senão dirigismo. E vários deles bem remunerados por instituições "filantrópicas" a serviço do capitalismo internacional que patrocina a breguice brasileira junto aos barões da mídia.

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