domingo, 12 de maio de 2013

SOU UM ESQUERDISTA SEM PARTIDO


Por Alexandre Figueiredo

Alguns amigos meus me cobram para que eu não adotasse uma postura esquerdista, acreditando que eu estou condescendente com os erros e equívocos tomados em nome do corporativismo do PT e partidos similares.

Essas pressões não ocorrem apenas comigo. Em muitos casos, as circunstâncias fazem com que antigos esquerdistas, achando que estão adotando posições mais autocríticas e imparciais, estão migrando para a direita de forma bastante sutil, mas depois mostram um conservadorismo bastante doentio que acaba assustando até aqueles que se situam "em cima do muro".

Podemos citar um caso fictício de um direitista que, querendo conquistar dissidentes da esquerda, oferece uma caixa de bombons. Tentando pegar carona na indignação desses dissidentes com o rumo das esquerdas, o direitista finge-se solidário e lhes oferece a caixa de bombons de presente. "Você sabe: um bombom não é de esquerda nem de direita, sabe?".

É um caminho perigoso. Evidentemente as esquerdas possuem focos de corrupção, erros de estratégia, posições coerentes eventuais, procedimentos exagerados, métodos antiquados, militância autoritária, burocracia retrógrada etc. Mas superestimar o lado negativo das esquerdas é muito perigoso, porque pode descambar para uma intolerância sócio-política que fatalmente pode levar ao direitismo.

De repente, se condena, por si só, os movimentos sindicais, estudantis, os governos esquerdistas, as organizações comunitárias, por causa do pretexto da corrupção. E as críticas ao PT, levadas a um ódio intransigente, criam muito mais uma esquerdofobia do que uma crítica real e objetiva dos erros que as esquerdas estão levando.

Deseja-se derrubar o PT por derrubar. O ex-presidente Lula cometeu muitos erros, agiu muitas vezes por mero pragmatismo eleitoreiro e governista, mas daí a chamá-lo de "mafioso", "chefe da gangue" são outros tantos. A esquerdofobia também festeja quando o STF condena acusados de envolvimento no esquema do mensalão sem que as investigações ficassem completas ou as provas devidamente identificadas e divulgadas.

Daí a postura de pessoas que, aparentemente imparciais, adotam essa postura tomada pela raiva simples, pela indignação cega, pelo desespero e pelo pânico. No começo, "não são" de esquerda nem de direita, mas com o tempo viram neocons histéricos e desesperados. O "medo" de Regina Duarte e a "polêmica" de Lobão começaram dessa forma. Arnaldo Jabor e Marcelo Madureira também.

Sou um esquerdista, porque vejo nas ideias de esquerda algo que me identifica pessoalmente desde o final de minha adolescência. Mas se eu seguisse carreira política, eu teria que criar um outro partido, porque nenhum partido de esquerda se encaixaria nos meus propósitos. Não sou petista, nem psolista etc, e até mesmo ser comunista, para mim, é uma postura ainda exagerada. Sou socialista, mas sem partido.

Eu mesmo faço críticas a erros e equívocos cometidos pelas esquerdas. Há uma certa complacência com as esquerdas médias, na medida em que estas são complacentes a valores ligados a um direitismo flexível no âmbito político, institucional e cultural. Além disso, não estou aqui agindo em defesa total de Lula e Dilma Rousseff, pois quando eles erram, merecem ser criticados e reprovados por isso.

O que eu não posso fazer é abandonar o esquerdismo a pretexto de que ocorre corrupção lá, e chegar ao ponto de acreditar em Reinaldo Azevedo quando este escreve contra o PT, ou aderir ao Instituto Millenium por conta de um antipetismo doentio e cego. Hábitos "imparciais" como este criam um conservadorismo que nenhuma "imparcialidade" ou "isenção" político-ideológica pode justificar.

Daqui a pouco, a "imparcialidade" que condena movimentos sindicais, estudantis, políticos de esquerda pode sucumbir a uma condenação total aos movimentos sociais, que "não" poderão ser organizados porque isso é corrupção. Daí para defender a privatização de tudo, a desnacionalização de tudo e a subordinação do Brasil aos EUA é um pulo.

Portanto, prefiro permanecer na esquerda, sem aderir a interesses corporativistas. Elogiar e criticar os procedimentos das esquerdas, reprovar suas omissões e erros, mas reconhecer o mérito das esquerdas quando elas acertam. Sem me vincular a interesses partidários ou corporativistas.

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