quarta-feira, 29 de maio de 2013

ROBERTO CIVITA, A CRISE DA ABRIL (SOBRETUDO DA VEJA)


Por Alexandre Figueiredo

Roberto Civita, o empresário do Grupo Abril, morreu diante de um contexto de crise de sua empresa. Além do escândalo do envolvimento de seu jornalista de Brasília, Policarpo Júnior, no esquema do bicheiro Carlinhos Cachoeira, a Veja sofre a mais aguda crise de reputação e o Grupo Abril já ter decidido por um plano de demissões para até setembro.

Para a blogosfera progressista, é chover no molhado falar sobre a decadência de Veja, pois a sua linha editorial rabugenta diz tudo. E o que se vê, a cada fim de semana, são pilhas e pilhas de exemplares de Veja, encalhados nas bancas de todo o país, como uma reação ao jornalismo reacionário e pedante - nas matérias de comportamento e saúde - da publicação que faz 45 anos com a moral baixa.

Afinal, Veja não é a sombra do que havia sido na sua origem. Quando surgiu, depois de várias edições experimentais, em 11 de setembro de 1968, com capa apresentando uma reportagem sobre o comunismo, Veja até era mais moderada que a revista Realidade, de linha editorial mais arrojada, inspirada no New Journalism e com alguns matizes progressistas, mas seu jornalismo era mais honesto e eficiente.

Mino Carta foi um dos responsáveis por essa fase inicial, pondo na prática o receituário que Roberto Civita trouxe dos EUA através da narrativa literária das reportagens feita por gente como Tom Wolfe, Gay Talese, Norman Mailer e outros. Veja pode até ter sido, desde a origem, levemente conservadora, mas tinha profissionalismo e respeitava o leitor com sua linha editorial honesta e adequada ao interesse público.

Sabemos o caminho que Veja sucumbiu. Nos anos 80 já era um pouco reacionária, explorando de forma sensacionalista óbitos de gente como a cantora Elis Regina, ou através de posturas como desejar a extinção do rádio AM, pedra no sapato dos barões da grande mídia. Mas tinha um jornalismo ainda honesto e profissional, que ainda dava prestígio à revista.

E aí, dos anos 90 para cá, sabemos do resto da história, e que faz com que Veja tivesse uma baixa reputação e Mino Carta reagisse de forma enérgica contra sua antiga revista, já que hoje ele é responsável por Carta Capital, que segue uma linha bem mais arejada até mesmo em relação aos primórdios de Veja. Porque Veja nunca foi uma revista progressista, e Carta Capital é.

Mas a decadência do Grupo Abril se dá não só com a Veja. A Playboy, franquia da publicação norte-americana, tem dificuldades de investir em musas de verdade, preferindo sub-celebridades, moças de terceiro escalão no rol da fama e da beleza, longe dos tempos em que suas edições brindavam os leitores com musas do quilate de Luíza Brunet, Angelina Muniz e até a "comportada" Lídia Brondi.

A revista Caras também foi afetada pela crise. A publicação de origem argentina teve sua franquia brasileira ancorada em atores de televisão, empresários e executivos, como uma versão ampliada do colunismo social da grande imprensa. Até tentou ser pop, afastando de vez os "fantasmas" de Jacinto de Thormes (sobretudo pouco depois da morte de seu criador, Maneco Müller), mas ultimamente Caras bregalizou de vez.

A revista Bizz, que marcou o jornalismo musical nos anos 80, tentou um breve retorno entre 2004 e 2006, mas a revista estava muito desacreditada na medida que se desmoralizou nos anos 90, seja na fase André Forastieri, seja com o nome Showbizz, e o bom retorno em 2004 foi abortado dois anos depois quando o revival oitentista quase dava lugar ao revival noventista, com Forastieri e companhia invadindo a festa...

A MTV não é sequer a metade do que foi no Brasil dos anos 90, quando o tardio surgimento da franquia da emissora norte-americana no Brasil concretizava cobranças que músicos e imprensa faziam na década anterior.

É certo que houve exageros, como na fase "edifício-garagem" de 1993-1994 enfatizando demais as novas bandas de rock, ou na fase brega-popularesca de 1997-1999. No entanto, nada se compara à fase recente, com a emissora perdida como caricatura de si mesma, refém da fórmula fácil de reality shows e programas de entretenimento banais, enquanto quase não mostra videoclipes, que fez a MTV não fazer mais juz a seu nome, sendo uma Music Television sem música.

A situação da MTV é tão séria que o humorista Marcelo Adnet, lançado pela emissora, a via inicialmente como sua casa e chegou mesmo a resistir aos convites da Rede Globo, até que, vendo a crise recente, mudou de posição e aceitou ser contratado pela emissora carioca. Sua esposa, a também humorista Dani Calabresa, também saiu da MTV, mas foi para a TV Bandeirantes.

A crise da Abril também se dá quando o grupo resiste à Internet, vendo-a como uma tecnologia ameaçadora e não complementar. Presa à sua lógica "graficista", o Grupo Abril só escaneou publicações antigas da revista Veja, sem fazer o mesmo com outras revistas como Cláudia e Nova (esta uma franquia da norte-americana Cosmopolitan) - enquanto a Playboy é parcialmente escaneada livremente por internautas.

A Abril se dedica ultimamente ao projeto Abril Educação e é dona de cursos particulares de ensino médio e superior, potenciais "fábricas" de jornalistas da Veja e de outros veículos da grande mídia conservadora. Mas esse setor torna-se muito estranho e pouco eficiente, além da participação acionária da Abril em editoras de livros didáticos, porque não é um setor de ponta para um grupo como a Abril participar.

Os futuros demissionários do Grupo Abril são estimados em cerca de mil. Podem ser mais. A revista Veja encalha a cada semana, com sua crise de reputação. Talvez esse inferno astral do Grupo Abril tenha agravado a doença de Roberto Civita, cujo câncer foi ignorado pela grande mídia na medida do possível.

A omissão da doença foi tanta que, sarcasticamente, o humorista Sr. Cloaca ironizou a (não) cobertura da doença de Civita - juntamente com a choradeira do PIG com sua morte - e disse, no Cloaca News: "Criador da revista Veja morre, mas passa bem".

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