sábado, 4 de maio de 2013

REVISTA CARAS E SUA VISÃO DE "CIDADÃO DO MUNDO"


Por Alexandre Figueiredo

A edição mais recente da revista Caras, franquia da publicação argentina feita pela Editora Abril, destaca em sua capa o cantor Michel Teló, que havia sido premiado recentemente no Grammy Latino nas categorias Melhor Música e Melhor Música Pop com o sucesso "Ai Se Eu Te Pego". Caras trata o cantor como se ele tivesse se tornado um "cidadão do mundo", só faltando defender algum prêmio Nobel a ele.

"Fiz o mundo inteiro cantar em português", exagera Teló, superestimando o sucesso no exterior, tentando comparar o sucesso da música chinfrim - de autoria de três garotas - à música "Garota de Ipanema", clássico da Bossa Nova de Tom Jobim e Vinícius de Moraes.

Teló havia concorrido também a quatro categorias do Grammy Latino: Novo Artista, Artista em Redes Sociais, Artista Pop, Música Digital e Música em Rádio. No evento, Teló se apresentou cantando em dueto com o colombiano Carlos Vives.

É bom deixar claro que o Grammy é uma premiação da música comercial e levar troféus desse evento não é garantia de qualidade cultural nem valor artístico. É um prêmio vinculado à indústria fonográfica e ao hit-parade que ele trabalha, e tem muito mais a ver com vendas do que com produção de conhecimentos, expressão artística e valores sócio-culturais.

O sucesso de Michel Teló também não deve ser visto como "façanha mundial". Apesar da relativa aparição em eventos e ambientes de elite - como havia informado meu amigo Leonardo Ivo, de Fatos Gerais - , o sucesso de Teló nem de longe pode ser comparado com qualquer projeção respeitável de artistas brasileiros no exterior.

Em primeiro lugar, porque Michel Teló se projetou não como um grande artista de música brasileira, mas como um intérprete de dance music de segunda categoria, desses que são lançados aos montes na Flórida ou na Itália. Segundo, porque os espaços de elite que tocaram seu sucesso se situavam em países em crise sócio-cultural como Itália, Portugal e uma Espanha em grave crise de desemprego.

No passado, até mesmo artistas hoje esquecidos como os Índios Tabajaras (que tocavam música regional, boleros e canções eruditas) e Trio Irakitan (que tocavam sambas, toadas, boleros e baiões) tiveram uma projeção no exterior mais significativa. E mesmo Cauby Peixoto, numa brevíssima fase rock, havia tentado conquistar os EUA sob o codinome Ron Coby, aparecendo até no filme Jamboree (1957).

João Gilberto, Tom e Vinícius, nem se fala, são nomes respeitadíssimos pelos estrangeiros até hoje. E Dick Farney tentou também chegar lá, com alguma projeção. Mas se até o Fellini dos jornalistas Cadão Volpato e Thomas Pappon conquistaram o saudoso radialista da BBC, John Peel, então para que se preocupar com um breganejo tratado pelos europeus e estadunidenses como mais um ídolo de pop dançante?

Mas, para a revista Caras, Michel Teló já virou "cidadão do mundo". Ele foi o último queridinho das "esquerdas médias", sedentar em defender a breguice dominante mas capazes também de entregar as chaves do Brasil para Tio Sam através do Centro Knight para o Jornalismo das Américas.

Todavia, a música "Ai Se Eu Te Pego", de tão ruim, soa muito velha e mofada. Além disso, o outro sucesso de Teló, "Humilde Residência", tem arranjo calcado no sambrega e Teló, cantando, mais parece o Thiaguinho. O que prova que, se sambregas e breganejos são todos iguais, não existe "diversidade cultural" nessa pseudo-cultura "popular" empurrada pela grande mídia.

E, antes de mais nada, a revista Caras não entende de cultura popular brasileira, seja a matriz, seja a franquia do Grupo Abril. As especialidades de caras são ternos e gravatas, vestidos de grife, vinhos, mobília de luxo, mansões, joias e outros valores das elites dominantes. Portanto, em Caras, Michel Teló está em casa. Só mesmo as elites alienadas levam ele a sério.

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