sexta-feira, 10 de maio de 2013

PERDEMOS A INOCÊNCIA?

LOBÃO EM 1984 - Um dos símbolos da modernidade no rock brasileiro.

Por Alexandre Figueiredo

Lendo o livro Quem Tem Um Sonho Não Dança, de Guilherme Bryan, que comprei há algumas semanas num sebo, fico imaginando o quanto éramos inocentes na época, e o quanto hoje se criaram trincheiras ideológicas que mancharam muitos dos nossos "heróis" e "possíveis heróis" dos anos 80 e parte dos 90.

Dos anos 60 e 70, nossos símbolos de modernidade cultural eram Arnaldo Jabor, Ferreira Gullar e Fernando Gabeira. Nos anos 80, então, uma geração de artistas, intelectuais e celebridades que simbolizavam a mais atraente modernidade sócio-cultural de nosso país.

E não falamos da comportada Regina Duarte, embora até ela estivesse sintonizada com o feminismo antes daquele tal "medo". Ou nem da norte-americana naturalizada Kate Lyra, que era toda bossa casada com o bossanovista Carlinhos Lyra (e geraram a belíssima filha Kay Lyra, hoje cantora), cujo personagem cômico dizia que "brasileiro é tão bonzinho" muitos anos antes dela ser "boazinha" com as funqueiras.

Notem-se os nomes: Paulo e Chico Caruso, Pedro Bial, Patrícia Pillar, Hermano Vianna, Regina Casé, Marcelo Tas, Marcelo Madureira, Paula Toller, Tom Leão, Fernanda Abreu, Monika Venerabile, e, principalmente, Lobão. E de carona, nos anos 90, nomes como Pedro Alexandre Sanches e Sônia Francine pareciam ter nas cartas da manga os segredos para a melhoria sócio-cultural do Brasil.

Todos eram admiráveis nas suas diversas atividades. Pareciam todos libertários, numa época em que até nomes como Gilberto Dimenstein e Gustavo Franco, em que pese todo seu yuppismo, pareciam simpáticos, e que até Bóris Casoy parecia "transgressor" diante de um paralítico Jornal Nacional, por ter popularizado no Brasil a figura do "homem-âncora" brasileiro.

Éramos mais utópicos. Em nossos corações psicodélicos, gostávamos de "rock'n'roll meio nonsense" sem percebermos que radialistas pop em "rádios de rock" estragariam fatalmente a cultura roqueira. Para muitos de nós, uma 89 FM que escondia proprietários malufistas parecia uma rádio igual à histórica Fluminense FM, sem percebermos que a "fase boa" da 89 FM (1985-1987) acabou para sempre, por mais que muitos esperem vê-la ressuscitada até hoje.

Éramos inocentes para querer "acabar com a inocência e o complexo de decência no meio do salão". Na época, o funk de James Brown era traduzido no Brasil por um funk eletrônico meio bobo, mas que parecia bem intencionado, longe do lixo que se tornou desde 1990. E as nossas musas eram Luíza Brunet, Magda Cotrofe e Angelina Muniz, sofisticadas, bacanas e fascinantes.

Naqueles tempos não tínhamos medo de dizer que o brega era uma piada, caçoávamos dos bregas sem maldade, e não nos preocupávamos em colocá-los no primeiro time da MPB, que aliás andava muito acomodada. Se não gostávamos da melosa "emepebê" de letrinhas de amor mal-resolvido e inócuas exaltações da natureza, não seriam os cafonas que iriam nos salvar dessa morosidade toda.

Nós não éramos fantoche da grande mídia. Mas também a grande mídia sabia entender nossas vontades. Os anos 80 foram a última década em que as rádios estavam sintonizadas com os ouvintes, a imprensa falava pelo interesse público e a política procurava um mínimo de legalidade e exercício democrático, por mais que houvesse corrupção por debaixo dos panos.

OS TEMPOS DE HOJE

Hoje tudo descarrilou. Da classe acadêmica ao Poder Judiciário, todos os paradigmas da modernidade lançada pela redemocratização, e que abria os ares do Brasil ainda nos últimos anos da ditadura militar - sobretudo ente 1977 e 1985 - , foram derrubados com a mudança de postura de muitas personalidades, mergulhadas num pragmatismo viciado e decepcionante.

Os acadêmicos e a classe intelectual, sobretudo os cientistas sociais e críticos culturais, foram assinar embaixo a favor da degradação sócio-cultural do nosso país, glamourizada por argumentos "relativizantes" em monografias e documentários, reportagens e livros, preferindo que o povo pobre mergulhe na cafonice viciada e no consumismo do que é obsoleto, como se isso fosse "mais criativo".

A grande imprensa que antes se considerava a serviço da sociedade passou a se julgar dona da opinião pública, deixando de lado um profissionalismo conservador mas decente e honesto para mergulhar num reacionarismo com matizes sensacionalistas e eventualmente anti-profissional e ética, causando o êxodo de jornalistas que queriam um jornalismo mais verdadeiro.

O aumento de corrupção política, o reacionarismo e as baixarias midiáticos, o reacionarismo inesperado dos internautas que derrubaram o mito de que na Internet só haveria socialistas se comunicando, tudo isso nos pegou de surpresa, depois que entramos na "idade das trevas" de uma mídia com poderes quase absolutos na década de 90.

Perdemos até mesmo a confiança pelo Judiciário que, dependendo das conveniências políticas, é capaz de contradizer a lei e o interesse público para atender a interesses envolvidos em decisões governamentais nada democráticas e até autoritárias.

Somos tomados por uma intelectualidade cultural que não quer a melhoria cultural das classes populares mas a preservação de toda mediocridade, apenas para que ela seja "assistida", de forma oportunista e paternalista, por celebridades, intelectuais e acadêmicos "influentes" supostamente conhecedores do patrimônio cultural brasileiro.

É nesse contexto que pessoas como Lobão, Marcelo Madureira e Sônia Francine mostram seu reacionarismo. E que faz a gente se decepcionar com a reviravolta de muitos antigos heróis, corrompidos ao deixarem o idealismo criativo para trás para atender a interesses imediatistas.

Mesmo um Pedro Alexandre Sanches defendendo a breguice cultural ou uma Monika Venerabile virando caricatura de si mesma numa Rádio Cidade que, outrora simpaticamente pop, virou erroneamente roqueira e ninho e reduto da juventude temperamental neo-con da Barra da Tijuca, também se inserem nesse contexto em que os antigos ícones da modernização cultural se tornam antiquados de um modo ou de outro.

É como se o Eden cultural brasileiro dos anos 70 e 80, de repente, virasse uma Torre de Babel sócio-cultural em que muitos dos antigos idealistas se acomodam nos corredores da grande mídia. Seja defendendo a "liberdade de expressão" dos barões da grande imprensa, seja a "diversidade cultural" dos chefões do entretenimento.

E tudo isso porque os idealistas de outrora encontraram, no caminho, pessoas de confiabilidade duvidosa, que lhes ofereceram vantagens fáceis, gente como Paulo César Araújo, Diogo Mainardi, Ali Kamel, Armínio Fraga, Carlos Alberto Di Franco e tantos outros que transformaram antigos esquerdistas em neoliberais doentios, antigos modernistas em arautos da degradação sócio-cultural brasileira.

Com isso, perde a sociedade que depositou confiança nos antigos idealistas que hoje povoam a galeria neo-con que transformou em coisa do passado a memória das grandes façanhas de músicos, jornalistas, intelectuais, atores, cineastas, diretores teatrais, poetas etc. Gente traída pelas circunstâncias e que, pelo que se viu, pouco aprenderam com as lições da ditadura militar.

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