segunda-feira, 27 de maio de 2013

PENSE EM HERZOG ANTES DE ELOGIAR O "ESPÍRITO DEMOCRÁTICO" DE RUY MESQUITA


COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: A grande mídia conservadora e seus barões se julgam "democráticos", mas escondem seu passado golpista. E escondem sem muita sutileza, na medida em que entram em surtos reacionários de vez em quando. Mas quando algum figurão do meio morre, criam-se discursos melífluos sobre a "corajosa" personalidade do finado.

Pense em Herzog antes de elogiar o ‘espírito democrático’ de Ruy Mesquita

Por Paulo Nogueira - Diário do Centro do Mundo

Uma homenagem aos brasileiros que não tiveram protetores na hora do pesadelo.

Li muitas coisas sobre a morte de Ruy Mesquita. A maior parte do que li poderia muito bem não ter lido, essa é a verdade – lugares comuns lacrimosos e sentimentais pouco vinculados à realidade.

De minhas leituras o que mais me incomodou foi o elogio ao “grande democrata” que “salvou seus jornalistas perseguidos”. (Aqui, cabe uma comparação com Roberto Marinho, que se gabava de cuidar, ele mesmo, de “seus comunistas”.)

Bem, é uma colocação amplamente absurda, e ofensiva para aqueles que não estavam sob o guarda-chuva de golpistas como Mesquita e Marinho.

Vamos ao caso célebre, o do jornalista Vladimir Herzog, da TV Cultura, torturado e morto por uma ditadura que provavelmente jamais se instalasse não fosse o trabalho de sabotagem antidemocrática feita por Ruy Mesquita e congêneres.

Fosse genuinamente democrático, Mesquita não tramaria, com seu jornal, contra um governo eleito nas urnas.

Ser democrático é, acima de tudo, respeitar as urnas.

No livro Dossiê Geisel, que traz documentos pessoais dos anos do poder de Geisel, você pode ver o verdadeiro Ruy Mesquita.

Numa carta ao então ministro da Justiça, Armando Falcão, Mesquita fazia o elogio do general Castelo Branco, como se se tratasse de um De Gaulle e não do general ultraconservador que deu início a um pesadelo que duraria mais de duas décadas.

Nela, Mesquita mostrava outra traço forte seu e da família: o racismo arrogante. Ele se queixava a Falcão de que o Brasil, pós-Castelo, corria o risco de virar uma “Uganda”, ou uma “republiqueta hispano-americana”.

Canonizá-lo por haver dado uma mão a um ou outro jornalista do Estadão em apuros é um erro extraordinário.

A ditadura que perseguiu, torturou e matou tanta gente foi possível graças ao trabalho de boicotagem da democracia de pessoas como Ruy Mesquita. (A família Mesquita já tinha as mãos sujas no suicídio de Getúlio Vargas, aliás.)

Antes de louvar Ruy Mesquita, ou Roberto Marinho, por ter ajudado este ou aquele, pense em tantas outras pessoas que ficaram expostas à brutalidade que os barões da imprensa tanto contribuíram para que se tornasse realidade entre os brasileiros.

Pense em Herzog, por exemplo.

Na cela em que ele apareceu enforcado, depois de ser barbaramente torturado, ele estava sozinho, absolutamente sozinho – como tantos outros brasileiros que não tinham o telefone de Ruy Mesquita para ligar na hora do pesadelo.

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