quinta-feira, 30 de maio de 2013

PARA ELITE INTELECTUAL, PIMENTA NOS OLHOS DO POVO É "REFRESCO"


Por Alexandre Figueiredo

Poucos percebem, mas a intelectualidade cultural dominante, aquela que jura estar desprovida de preconceitos, possui preconceitos piores do que aqueles que julga ter rompido. Afinal, essa intelectualidade, com seus cientistas sociais e críticos culturais atrelados à grande mídia, adotam uma postura paternalista e elitista a respeito da cultura popular.

Eles se tornaram senhores do antigo patrimônio cultural das classes pobres, de tal forma que o povo pobre, para eles, não pode ter a responsabilidade de assumir o patrimônio de seus ancestrais. O que o povo pobre tem que fazer agora é a tal "cultura de massa" difundida pela grande mídia e pelo grande mercado.

Qualquer semelhança com o conto "O amigo dedicado" de Oscar Wilde não é coincidência. Afinal, a história do conto do famoso escritor irlandês conta o drama de um pobre jardineiro que possui uma rica coleção de flores cobiçada por um moleiro rico e ganancioso, que em troca das flores lhe dá um carrinho de mão quebrado para o jardineiro.

Compare isso com o fato de que o povo brasileiro possui um rico patrimônio cultural que é usurpado pelas elites de "especialistas" que, em troca, reservam para o povo a degradação sócio-cultural trazida pelo poderio midiático. Juntos, barões da mídia e chefões do mercado promovem a decadência cultural do povo pobre, sob o apoio explícito da intelectualidade cultural hoje influente.

Se você, caro leitor, imagina que estamos falando de Paulo César Araújo, Hermano Vianna, Ronaldo Lemos e outros, acertou. São esses mesmos intelectuais "tarimbados" e "intocáveis" que promovem a degradação cultural, eles tão vistos como "sagrados" por muita gente.

Muitos se assustam quando alguém resolve pôr em xeque a reputação de um Paulo César Araújo (ou Paulo César de Araújo, para ajudar na busca na rede), visto como "coitadinho", "vítima de Roberto Carlos", "guru da cultura brasileira" etc, mas a verdade é que ele não difere muito em defeitos em relação a um ministro do Supremo Tribunal Federal que hoje vive de mãos dadas com os barões da mídia.

Não existe diferença entre um Carlos Ayres Britto prefaciando livro de Merval Pereira e PC Araújo feliz da vida falando para as Organizações Globo. Será preciso um Altas Horas juntando o historiador dos bregas e o jurista da grande mídia para que as esquerdas médias vejam o erro que estão fazendo na defesa da "cultura de massa" e seus ideólogos?

Pois é essa intelectualidade "sagrada", não só Araújo como outros tantos que façam a mesma coisa, que promovem a decadência cultural e adotam sua visão etnocêntrica achando que essa decadência é "sinal da felicidade criativa e emancipada da população pobre", lançando mão de todo tipo de choradeira para que suas teses sejam apoiadas pela sociedade.

E para quem não consegue entender por que criticamos essa intelectualidade "tão querida", tão "solidária" com as classes populares, capaz de diluir seu discurso neoliberal nas páginas e arquivos htm das mídias progressistas (sobretudo as revistas Caros Amigos e Fórum) mesmo não representando ameaça à velha grande mídia, uma explicação simples merece ser feita.

Em primeiro lugar, essa intelectualidade põe na prática o famoso ditado popular que diz que "pimenta nos olhos dos outros é refresco". Ou seja, para esses intelectuais dotados de visibilidade e alta reputação, pimenta nos olhos do povo é "refresco". Para esses pensadores "sem preconceitos" mas muito preconceituosos, o povo deve ser "melhor" naquilo que ele tem de pior.

Isso notamos quando seus pensadores atribuem como "valores positivos" os defeitos, debilidades e retrocessos quando eles ocorrem nas classes populares. Se são valores machistas que envolvem a coisificação da mulher etc, eles são vistos como "feminismo". A degradação feminina só é reconhecida da classe média alta para cima, o machismo só é grave dentro dos ambientes limpinhos da "boa sociedade".

"VOCÊ FALA MAL SÓ PORQUE ELE É POBRE", DIZ O INTELECTUAL DA MODA

Vendo as ruas cheias de lixo, as casas mal construídas das favelas, a precária educação e os baixos salários das classes trabalhadoras, a intelectualidade etnocêntrica, numa falsa bondade, acha isso "maravilhoso". A "cultura de massa" baseada na hegemonia do "mau gosto" é então defendida como uma forma de "aliviar" o sofrimento do povo pobre, evitando focos de revolta e protesto.

Sim, as esquerdas médias ficam babando lendo textos e entrevistas de Paulo César Araújo e companhia, sem saber do perigo que sofrem, porque esses intelectuais representam uma visão elitista e paternalista graves, uma visão um tanto hipócrita e demagógica sobre o que eles acham que deve ser a cultura popular.

Para esses intelectuais, é bonito ver o povo pobre se manifestando docilmente através da imbecilização sucessivamente expressa nos "tchans", "créus", "tchererês" e "leleks" imposta pela grande mídia, porque é "o que o povo gosta e sabe fazer".

No entanto, é essa mesma intelectualidade que fica horrorizada quando vê trabalhadores rurais se manifestando pela reforma agrária, populações das favelas fazendo passeatas contra a impunidade ou pedindo melhorias na comunidade, ou alguém mais pobre pedindo pela regulação da mídia no Brasil.

Dá para perceber que certos intelectuais, seja um Paulo César de Araújo, seja um Rosenthal Calmon Alves - o "bom velhinho" que está por trás do projeto imperialista Jornalismo nas Américas do Centro Knight da Universidade do Texas (Estado norte-americano famoso por sua população conservadora) - evitam assumir algumas posturas ideológicas pessoais.

Afinal, se eles forem assumir algumas posturas a respeito de certos fatos e fenômenos sociais, o que sairia desses intelectuais supostamente progressistas seria algo digno de um Fernando Henrique Cardoso em momentos de fúria ou um Marcelo Madureira desgostoso com as transformações da sociedade. Mesmo assim, Rosenthal já sinalizou isso ao atacar "cordialmente" Julian Assange e ao elogiar Yoani Sanchez.

Mas aí existe um jeitinho dessa intelectualidade disfarçar seu elitismo. Eles sempre tiram o corpo fora nas discussões mais delicadas. Quando o assunto é regulação da mídia, eles se mantém em silêncio. Quando perguntados sobre a mesma, eles até se dizem a favor, sem dizer claramente por quê, mas na hora do aperto, eles acabam mesmo demonstrando serem contra a regulação democrática da mídia.

E quando se trata de degradação social, eles apelam para a choradeira para justificar a ocorrência dessa decadência nas classes pobres. "Você fala mal de fulano porque ele é pobre", apelam, histericamente, esses intelectuais, que usam a pobreza como pretexto para justificar certas barbaridades que se tornam fenômenos da mídia.

Eles fazem isso para tentar intimidar o debate. Sobretudo no "funk carioca", quando se fala sobretudo da exploração da mulher como objeto sexual dos machistas. Primeiro, atribuem um falso feminismo para as mulheres funqueiras, só porque elas falam mal de certos homens ou vão se divertir à noite desacompanhadas de algum homem, como se isso dissesse alguma coisa sobre emancipação feminina.

Segundo, na hipótese do primeiro argumento ser visto como sem fundamento, eles vão logo dizendo "Para você, o problema não está no machismo, mas porque ela é pobre". Sempre a "pobreza" como escudo. Para esses intelectuais, só seremos "cidadãos" quando restringirmos à crítica ao machismo a, por exemplo, um comercial de uma dona-de-casa dançando balé com uma garrafa de detergente na mão.

Por trás desse discurso às vezes falsamente generoso, em outras cinicamente reacionário, há toda uma postura reacionária que éramos para nos atentar. Afinal, o Brasil que Paulo César Araújo tanto exalta é o Brasil da miséria, da prostituição, do subemprego, do alcoolismo, o Brasil da glamourização da pobreza, da apologia à miséria, da manutenção do povo pobre no seu estágio inferior. Isso é "superioridade"? Não.

São intelectuais assim que travam a necessidade de evolução social, de progresso do povo pobre. Dizem apoiar o povo pobre "naquilo que ele é", ficando felizes quando o povo pobre se situa na sua posição de coitadinho ingênuo e imbecilizado, culturalmente precarizado.

Mas quando o povo pobre passa a exigir mudanças sociais, a intelectualidade se enfurece, deixando passar seus piores preconceitos e seu reacionarismo. Mas, por enquanto, essa intelectualidade que defende o brega, o "funk" e outras decadências, precisa engolir seco no seu reacionarismo, até porque essa intelectualidade tenta atrair para si o apoio das esquerdas.

Nessas horas, os "urubólogos" viram "canariólogos" enquanto o povo pobre se "refresca" com a pimenta midiática de valores sociais decadentes. E não podemos criticar essa "baixa cultura". Para a intelectualidade dominante, a pobreza não é para ser resolvida, mas para ser apenas apreciada.

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