quinta-feira, 9 de maio de 2013

ÔNIBUS NO RIO: VIROU BAGUNÇA

IMAGENS DA ABERTURA DA CHANCHADA 'VIROU BAGUNÇA, COM O TRIO IRAKITAN E UM ÔNIBUS DA REAL AUTO ÔNIBUS.

Por Alexandre Figueiredo

Há 52 anos, fazia sucesso a chanchada Virou Bagunça, de Watson Macedo, protagonizada pelo então popularíssimo conjunto Trio Irakitan, famoso pelo seu repertório eclético. Na abertura, aparecem vários ônibus e lotações, entre eles, curiosamente, um ônibus da então Lotação Real Ltda,, empresa que corresponde à atual (e atualmente fardada) Real Auto Ônibus.

Curiosamente, o sistema de ônibus carioca "voltou" a esses piores tempos de 1960-1961. Mas talvez os tempos hoje sejam bem piores. E a Real Auto Ônibus se insere nesse contexto de ônibus circulando com a farda da Prefeitura do Rio de Janeiro (a tal "pintura padronizada"), com lataria amassada, documentação vencida e causando muitos acidentes ou enguiçando pelo caminho.

Um ônibus da Real, semi-novo, já havia causado um acidente com uma vítima fatal, entre dezenas que se acumulam nos acidentes diários que os ônibus causam, depois que o "novo sistema" foi implantado em 2010, com uma metodologia militar - que contagia até a fala do atual secretário de Transportes carioca, Carlos Roberto Osório - e uma antiquada visão de mobilidade urbana.

Agora o sistema, além de já verificar os mesmos estragos da Cidade Maravilhosa se repetindo em Niterói - já sofrendo com ônibus amassados, enguiçados e acidentados - , está sendo "experimentado" em Nova Friburgo e São Gonçalo, já se preparando para sua lista de mortos e feridos em futuros acidentes.

Tudo com ônibus fardados, embora as "padronizações" recentes tentem algum "paliativo" de exibir o nome da empresa na janela ou, com o logotipo bem pequenininho ofuscado pelo logotipo de cada prefeitura, insuficiente para indicar alguma identificação imediata. É como se, por exemplo, um homem andasse encapuzado e circulasse pelas ruas com o crachá com o seu nome e registro civil.

Virou bagunça, num país em que o Trio Irakitan parece antigo, enquanto o "povão" se ilude com os "misteriosos" MC Federado e Os Lelekes. E tudo é feito visando atrair o turismo para a Copa do Mundo e as Olimpíadas, com empresas de ônibus mascarando suas identidades em nome de uma mal disfarçada propaganda política, disfarçada pelo pretexto de "consórcios" e pelo logotipo de cada prefeitura.

A corrupção já começa a se mostrar por debaixo dessa "simpática" e "inocente" reordenação do sistema de ônibus, com licitações duvidosas, feitas à revelia do público, coroadas com pintura padronizada que mascara as identidades das empresas.

Com isso, em vez dos bondes "mata-paulistas", temos BRTs "mata-cariocas". Os ônibus convencionais se transformaram em "lotações" com uma mesma pintura para cada grupo de regiões, com direito à própria atualização ao pé-da-letra dos lotações, através dos "micrões".

E o reacionarismo lançado a partir da gestão de Eduardo Paes, no Rio de Janeiro, seria de espantar o antigo udenista Carlos Lacerda, se ele estivesse vivo. Lacerda, com todo o reacionarismo político que representou, fez uma acertada reformulação do sistema de ônibus, mas não cometeu o erro de adotar a pintura padronizada para diversas empresas, se limitando em criar uma estatal (CTC) para concorrer com as particulares.

De bandeja, veio também a dupla função de motorista dirigir e cobrar passagens, as pressões para motoristas cumprirem horário, dirigindo os ônibus às pressas para combinar cumprimento de horário com pistas congestionadas, correndo demais nas ruas e avenidas de menor movimento. Daí os acidentes. Daí as vítimas.

Enquanto isso, o secretário de Transportes Carlos Roberto Osório tenta falar grosso, quer aumentar seu poder sobre o sistema de ônibus, se acha o dono das frotas por causa da tal "pintura padronizada", e quer exigir a eficiência dos outros. Porque a SMTR (Secretaria Municipal de Transportes Rodoviários) não é eficiente, é pura e simplesmente prepotente, diante da fisiológica e corporativista Rio Ônibus.

Toda essa tragicomédia foi feita para a Copa e as Olimpíadas. Vai confundir os turistas, depois de prejudicar os cariocas. E trará mau exemplo para Niterói, Nova Friburgo, São Gonçalo e outras cidades que viverão a mesma experiência trágica carioca. E ainda querem perpetuar essa tragédia por pelo menos 20 anos.

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