terça-feira, 14 de maio de 2013

O "ROCK" COMO FORMA DE RECUPERAR O TUCANATO


Por Alexandre Figueiredo

O fato da suposta "rádio rock" 89 FM ter voltado ao ar no final de dezembro de 2012, pouco antes da posse do petista Fernando Haddad na Prefeitura de São Paulo, é sem dúvida alguma um sinal de que o demotucanato político precisava de uma fachada de "cultura jovem" e rebeldia através de seu aparelho midiático, para tentar renovar sua base de apoio.

Sem querer defender a administração petista, que inclui malufistas históricos, é certo que o PSDB tenta, através da "rádio rock", que também é associada a um mercado de eventos internacionais vinculados também à grande mídia (sobretudo as Organizações Globo), criar uma juventude que, pelo menos, seja herdeira e seguidora dos princípios e líderes demotucanos, mesmo se um dia o PSDB for extinto.

A fachada de "cultura rock", que evoca um aparato de "rebeldia" que atrai, feito seita evangélica, muitos jovens, é certeira para a atual UOL 89 FM, embora o reacionarismo dos produtores e ouvintes seja conhecido na Internet e vivemos num tempo em que até o roqueiro Lobão virou um neocon para Reinaldo Azevedo nenhum botar defeito.

Até mesmo a ênfase um tanto tendenciosa ao punk hardcore pela rádio, numa abordagem que reduz essa vertente agressiva do punk rock a uma inócua raivinha juvenil, soa bastante estranha, por esconder um processo de despolitização que, na melhor das hipóteses, faz os jovens brasileiros trocarem o ativismo de Jello Biafra pelo reacionarismo do falecido guitarrista dos Ramones, Johnny Ramone.

Pouco importa se os roqueirinhos neocon brasileiros digam que "odeiam" José Serra ou George W. Bush ou mesmo mandem o imperialismo dos EUA "sifu". São raivinhas sem sentido, feitas só para impressionar. Por trás disso, há um silencioso respeito a Roberto Campos, à CIA e aos valores ditados pela grande mídia. Não é à toa que a tal "rádio rock" adota as mesmas gírias de Luciano Huck. Tudo a ver.

Afinal, é uma forma de transformar a juventude brasileira numa multidão asséptica, que adota as mesmas gírias, o mesmo fanatismo futebolístico, a mesma "apolitização" e o mesmo pedantismo de funqueiros, breganejos e clubbers que a dita "nação roqueira" diz "abominar". Uma aversão de mentirinha, uma rebeldia formal contra o "sistema" que, na prática, representa a subordinação a esse mesmo "sistema".

O horizonte "roqueiro" da UOL 89 FM é o mesmo horizonte não só de Lobão e de Johnny Ramone, mas de um Elvis Presley saudando Richard Nixon ou um Ted Nugent saudando as campanhas armamentistas do também falecido Charlton Heston na National Rifle Association.

O quadro acionário da 89 não faz mentir, pois os atuais donos da 89 incluem um antigo político da ditadura militar, José Camargo, lançado no seio do malufismo e hoje vinculado ao DEM que continua de mãos dadas com o PSDB. E ao qual se somou a participação societária de Otávio Frias Filho, o conhecido chefão da Folha de São Paulo, que como a 89 parecia "supermoderna" naqueles tempos midiocêntricos dos anos 90.

RÁDIO CIDADE VIROU REDUTO DE "ROQUEIROS" DE EXTREMA-DIREITA

E no Rio de Janeiro antes marcado, nos anos 80, pela veia progressista da Fluminense FM (cujo antigo dono, o falecido Alberto Francisco Torres, era historicamente ligado a Juscelino Kubitschek), a "conversão" da Rádio Cidade ao rock nos anos 90 e 2000 revelou um ultrarreacionarismo doentio, que eu pude notar quando identifiquei adeptos da rádio na comunidade "Eu Odeio Acordar Cedo" no Orkut.

Eram jovens de extrema-direita, que quase destruíram meu perfil na rede social. Tive que desfazê-lo eu mesmo antes que invadissem minha conta. Eram jovens supostamente rebeldes que pregavam o fechamento do Congresso Nacional e o fim do Legislativo como formas de "recuperação sócio-política" do país, o mesmo discurso difundido pelo Comando de Caça aos Comunistas na década de 1960.

Consta-se que um bando de radialistas tentou empastelar tanto a Fluminense quanto a Cidade, esta uma simpática e despretensiosa rádio pop que virou uma caricatura grotesca e neocon de rádio de rock. Com uma programação que priorizava bandas de poser metal e rock barulhento mais comercial, além do chamado "rock engraçadinho" brasileiro, a Cidade tentou criar um perfil conservador do jovem "roqueiro".

Era um cara que odiava ler livros, só via filmes de pancadaria e aventura no cinema, falava gírias clubber e era fanático por futebol, fingia que odiava o imperialismo e que admirava Che Guevara (muito fácil: ele está morto), enquanto adotava um direitismo político de fazer os milicos do golpe de 1964 ficarem boquiabertos.

O reacionarismo da "nação roqueira" da Cidade era tal que no resto do Sistema Jornal do Brasil havia estranheza. A Rádio Cidade parecia um gueto de "rebeldes neocon" que não se misturava com o profissionalismo do famoso periódico hoje limitado à Internet. A equipe do caderno B do Jornal do Brasil não escondia sua preferência à antiga Fluminense FM do que à ultrarreaça "Cidade FM A Radio Rock".

DOIS TIPOS DE ROCK

Há dois tipos de "cultura rock" existentes: um mais progressista, associado à criação artística, à expressão social não necesariamente politizada, mas sempre questionando as injustiças diversas e pregando a libertação humana, e outro mais reacionário, como forma de dominação mercadológica da juventude.

Não há muita clareza em definir precisamente quem é progressista ou não, e no meio do caminho mesmo pessoas originárias do underground, como a ex-baterista do Velvet Underground, Maureen "Mo" Tucker, tornam-se reacionárias, já que ela tornou-se simpatizante do ultrarreacionário Tea Party.

No Brasil marcado pelo pretensiosismo, em que cerca de 70% dos neoliberais se autoproclamam "de esquerda" mesmo exibindo um direitismo nas ideias e procedimentos, isso se torna bem menos claro ainda. É bom até um senso de desconfiômetro, porque não é falando palavrão ou criticando apenas direitistas da moda que se faz um esquerdista verdadeiro.

Além disso, de "progressistas de esquerda" o inferno neoliberal está cheio. A fachada de rebeldia não é garantia de modernidade ideológica, vide o caso de Lobão. E os "roqueiros" da UOL 89 FM preferem ver como "rebeldia" atitudes inócuas como cantar sucesso dos Mamonas Assassinas em culto evangélico.

Essa juventude é perfeita para que José Serra, Geraldo Alckmin e Otávio Frias Filho recuperem sua base de apoio. Não é por acaso que a família Frias optou por investir na 89, cuja venda a uma seita religiosa estava quase acertada. E usou o nome UOL, não "Folha de São Paulo", porque o jornal está "meio queimado" entre a juventude, além de se apoiar no pretexto das ditas "novas mídias digitais".

Mas o ultraconservadorismo e o ultrarreacionarismo se mostram, cedo ou tarde. A UOL 89 FM tenta disfarçar o direitismo ideológico, mas ele sempre aparece, se não de forma declarada, ao menos através de sua programação convencional - uma espécie de versão junkie da Jovem Pan 2 - e no reacionarismo extremo de seus ouvintes, espécie de "versões hardcore" de Reinaldo Azevedo.

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