quarta-feira, 15 de maio de 2013

O "PAPO-CABEÇA" DE HOJE NÃO CANSA?


Por Alexandre Figueiredo

São muitas as saudades dos tempos em que as vanguardas culturais viam no brega uma grande piada. Assimilava-se elementos bregas como uma forma cômica de fortalecer o caráter lúdico da arte, numa atitude com um quê de teatral e circense, num astral que envolve recreio e farra.

Nos últimos anos, porém, levou-se o brega e seus derivados a sério demais. A música brega, em todas as suas vertentes, incluindo o "funk carioca", virou um universo de palhaços dos quais a gente não pode rir. A desculpa mais comum é que eles estão "batalhando" por aquilo que entendem como "um lugar ao Sol da MPB".

Junta-se a isso a alegação de que "tudo é MPB". Até peido de mulher-fruta é "verdadeira MPB", "MPB com P maiúsculo", como denomina cinicamente a intelectualidade etnocêntrica. E toda a campanha retórica para promover a música brega, de Waldick Soriano a MC Federado e Os Lelekes, passando por É O Tchan, Leandro Lehart, Zezé di Camargo & Luciano, Banda Calypso etc, é bastante conhecida.

Só que esse arsenal discursivo, que envolve reportagens, resenhas, artigos, documentários, monografias e o que vier de formas textuais, está tomado de um "cabecismo" muito maçante e choroso, sempre definindo os ídolos "populares" como supostos injustiçados, numa choradeira discursiva que estaria cansando, mas que insiste em ser veiculada sob aplausos submissos das plateias associadas.

MASTURBAÇÃO INTELECTUAL

O "funk carioca" é sintomático. A choradeira em torno do gênero, que promove seus ídolos como supostas "vítimas de preconceito", é tomada de uma verdadeira masturbação intelectual, que associa o "funk" a referenciais que nada têm a ver com o gênero, mas que provém de pretensas comparações casuais vindas da imaginação fértil de nossa intelligentzia.

São julgamentos de valor intelectualoides que, sendo eles "positivos", não são vistos como julgamentos de valor. Como sua finalidade é encomiástica (ou seja, elogiosa), o julgamento de valor da intelectualidade é visto como "visão objetiva", por mais delirantes que sejam as comparações e as alusões.

O que o "funk carioca" tem a ver com punk rock, com o movimento Pop Art, com a Revolta de Canudos, com a Semana de Arte Moderna, com Woodstock, Revolução Cubana, Contracultura etc? Nada. É apenas um ritmo dançante feito para mera diversão de jovens suburbanos e acabou. Culturalmente, é tão oco quanto o twist e o hully-gully, ritmos que marcaram a juventude no começo dos anos 60.

Só que, quando veio a Contracultura, ninguém foi dizer que o twist era um movimento de protesto juvenil, e olha que naqueles anos em que Chubby Checker fazia sucesso, havia uma forte movimentação estudantil e um forte ativismo negro, impulsionado sobretudo pelos movimentos de independência política nos países africanos. Havia a "primavera africana" em 1960 e 1961. "1968" também começou nesses anos.

Mas ninguém atribuiu o twist a esse cenário, e olha que ele surgiu de uma dança africana. Da mesma forma, ninguém passou a Contracultura tentando associar a elas cantores como Pat Boone, Ricky Nelson e Bobby Darin. E olha que Pat Boone, como apresentador de TV, tentou entrevistar o psicodélico Syd Barrett (então líder do Pink Floyd) e Bobby Darin morreu sob as mesmas "guloseimas" dos psicodélicos.

Aqui, porém, um Odair José, o nosso Pat Boone, foi tido como o "Bob Dylan da Central", só faltando ser apelidado de "Lou Reed da Baixada". E foi incluído na versão brasileira da coletânea Nuggets, originalmente dedicada ao psicodelismo. E só faltou também inventar que Waldick Soriano, na verdade tão conservador quanto Richard Nixon, "lutou" na Revolução Cubana antes de gravar o primeiro disco.

O "funk carioca" se alimenta de factoides, boatos, falsas comparações, para se autopromover. É um gênero que se apropria de toda e qualquer estratégia de marketing, e que havia enganado as esquerdas pelo falso viés progressista do ritmo carioca, que no entanto estabelece, em contrapartida, fortes e sólidas alianças com veículos da grande mídia, do porte da Rede Globo e Folha de São Paulo.

Daí as mentiras, daí as meias-verdades. Se um funqueiro espirra, vai o antropólogo de plantão dizer que ele sofre o drama da opressão urbana. Dentro de um universo de falsos ativistas, falsas solteiras, falsos esquerdistas, o "funk carioca" mente e leva às últimas consequências toda a verborragia que a intelectualidade dominante usa em todas as tendências originárias ou derivadas da música brega.

CABECISMO

É um discurso choroso que não difere muito da banalização acadêmica do discurso cepecista dos anos 70. Se o Cinema Novo dos anos 60 era acusado de promover a glamourização da pobreza, a discurseira do brega-popularesco de hoje leva essa glamourização às últimas consequências com um teor paternalista maior e pior do que aquele atribuído à intelectualidade esquerdista dos anos 50 e 60.

O que é, por exemplo, a ideologia da "cultura" brega, evocando prostíbulos, bares decadentes com idosos mergulhados na embriaguez, o subemprego do comércio informal e contrabandista, o cafajestismo do machista pobre, o trabalho infantil, senão a glamourização da pobreza popular?

Os cinemanovistas, pelo menos, pareciam esconder, nessa suposta glamourização, alguma denúncia social. Se havia algum charme em ser subdesenvolvido, ele não era total, porque havia um debate sério por trás. Os Centros Populares de Cultura da UNE foram tidos como "ideológicos" e "dirigistas", mas sua trajetória foi curta demais para ignorarmos um debate que só estava começando e foi interrompido de vez pela ditadura.

Já a apologia ao brega glamouriza demais. E de forma bastante aberrante, embora as esquerdas médias tentem fazer vista grossa com tudo isso. A intelectualidade exalta a degradação sócio-cultural do povo pobre, numa apreciação hipócrita da "cultura do outro", enquanto prega o assistencialismo das classes médias como pretensa solução para essa "admirável" degradação.

Com isso, cria-se uma cosmética cheia de valores etnocêntricos das classes "esclarecidas" que "socorrem" o cafona da ocasião, maquiando-o para parecer um desses nomes pasteurizados da MPB, desfilando ao lado de um medalhão da MPB autêntica e do Rock Brasil esbanjando paternalismo. As elites degradam socialmente as classes pobres, usurpam sua cultura e depois as "socorrem" com seu paternalismo.

E tudo isso feito com argumentações confusas, apelos chorosos de "reconhecimento" a essa pseudo-cultura, num pretenso cabecismo capaz de transformar meros listões da rádio Nativa FM em delírios militantes, sociológicos e antropológicos em que, se preciso, até Itamar Assumpção e Emiliano Zapata podem ser us(urp)ados "in memoriam" para defender tchans, créus, tchu-tchás e lelekes.

Tudo num cabecismo pior do que nos tempos dos hippies nas faculdades brasileiras dos anos 70. Pior do que toda a verborragia acadêmica na moda na época, cheia de palavreado. Hoje temos monografias que exaltam a breguice, unindo todo o discurso "científico" à choradeira pró-brega. E muitas vezes nem discurso "científico" existe, vide os textos dos professores da UFBA, Milton Moura e Roberto Albergaria.

E se a MPB pasteurizada aborrecia com suas letras de amores mal-resolvidos e exaltações piegas da natureza, o brega deveria aborrecer ainda mais com suas postiças letras de amores traídos e exaltações piegas das periferias. Talvez pelo apelo paternalista que conforta e tranquiliza as elites, o brega não costuma aborrecer seus arautos.

Mas deveria. É um discurso maçante, de qualquer forma. Pior do que a MPB pasteurizada e os delírios intelectuais, sindicais e hippies dos anos 70, incluindo todo o cabecismo e o patrulhamento a eles vinculados, é a breguice que já é pasteurizada desde o começo, e todo o arsenal intelectual em prol dessa breguice é um discurso não menos rebuscado e não menos maçante.

Daí o tedioso "papo-cabeça" que há dez anos se faz com o "funk carioca", depois do sucesso que esse mesmo discurso maçante em prol dos "bregas de raiz" e similares. E muita gente continua aplaudindo tudo isso sem entender coisa alguma.

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