quarta-feira, 22 de maio de 2013

O ERRO DAS ESQUERDAS MÉDIAS QUANTO SUA COMPREENSÃO DE CULTURA


Por Alexandre Figueiredo

As esquerdas médias, que ainda exercem influência na pauta dominante esquerdista, em que pese seus erros, omissões ou mesmo as afinidades que possuem com a centro-direita, ainda não conseguem entender o que é mesmo a cultura brasileira de qualidade, demonstrando total incompreensão a respeito do que deveria ser reconhecido como popular e moderno.

Paciência. As esquerdas médias não surgiram, a rigor, no seio das classes populares. Elas se tornam esquerdistas mais por uma relativa solidariedade aos movimentos populares, algum relativo descontentamento com os excessos das classes mais reacionárias e alguma visão de mundo que conteste, dentro de seus limites, as injustiças sociais.

Daí a visão um tanto vulnerável, que deixa posições um tanto dúbias ou contraditórias quando há temas mais delicados como a regulação da mídia e a reforma agrária. E isso reflete quando uma compreensão sobre cultura se torna ainda mais convencional e complacente com o "estabelecido", mesmo quando envolve valores defendidos pela mídia mais reacionária.

E como se dá essa incompreensão, que mostra um paternalismo mal-disfarçado e uma anti-brasilidade envergonhada? Como se constrói esse discurso aparentemente generoso, seja pela boa-fé ou má-fé, que pouco contribui para a transformação real da cultura brasileira?

O discurso de uma "cultura de verdade" defendido pelas esquerdas médias, independente se é MPB autêntica ou o brega-popularesco, erra a partir de duas perspectivas bastante problemáticas, que é o "compromisso" que as esquerdas médias atribuem para a cultura sempre estar associada ao paradigma do urbano e do mundial.

Isso faz com que os critérios de validade e mérito na cultura se restrinjam apenas à obrigação de parecer "urbano" e "internacional" ou "mundializado", o que torna a expressão cultural bastante superficial, na medida em que se banaliza esses paradigmas herdados da ideologia pós-tropicalista.

Há uma tendência dessas pessoas em rejeitar a continuidade da música brasileira tradicional por entender ela como "antiga", "rural" e "provinciana", visões evidentemente equivocadas, até porque há nelas um forte teor artístico e cultural próprios, como se vê nos sambas, baiões, modinhas, maracatus, marcha-ranchos etc, que mostravam qualidade expressiva e uma forte identidade sócio-cultural regional.

A intelectualidade mais influente, então, embora admita a validade desse estágio da MPB, tenta dar a essa fase o falso status de "superada", como se o rico patrimônio cultural brasileiro não servisse mais para coisa alguma, tido erroneamente como "inválido" e "ultrapassado", precisando ser substituído por expressões mais "pop" e "universais", palavras respectivamente associadas ao "urbano" e "global".

Daí os sambas que precisam ter um compasso soul, para serem "mais modernos", só porque soam mais "urbanos" e "universais". Daí a MPB autêntica que precisa ter um pouco de jazz, um pouco de hip hop, um pouco de tango, não pela liberdade de assimilá-los como expressões artísticas, mas pela obrigação de assimilá-los.

Essa obsessão pelo "urbano" e pelo "global" faz com que a intelectualidade cultural passe a apoiar expressões duvidosas, ligadas do brega-popularesco, porque elas, mesmo não obedecendo a critérios verdadeiramente culturais, de produção de saber, de conhecimentos e valores sociais, atendem às exigências de "urbanidade" e "internacionalidade" mínimas exigidas pelas esquerdas médias.

O brega-popularesco, desde o brega "de raiz" (Waldick Soriano, Odair José) até o "funk carioca", é claramente comercial, tendencioso e de valor cultural bastante duvidoso, e até mesmo possui uma "brasilidade" muito mal resolvida, tão envergonhada quanto subordinada é a forma de assimilar as tendências estrangeiras, contraditoriamente dentro de uma abordagem provinciana e bairrista.

Só que isso não fica melhor porque é supostamente "urbano" e "universal". Até porque, no brega e em todos os seus derivados, esses dois conceitos são mal resolvidos. A forma com que o brega trabalha esses conceitos pode satisfazer a intelectualidade dominante, de orientação pós-tropicalista, mas isso não criou qualquer diferença na evolução cultural brasileira.

Os conceitos de "urbano" e "global" (no sentido da ênfase nas influências estrangeiras mesmo num pretexto de "livre assimilação" local) não necessariamente fazem a cultura ficar melhor ou pior. São apenas perspectivas e atitudes que não deveriam ser obrigatórias, mas opcionais e mesmo assim sem serem tratadas como elementos determinantes de valor artístico-cultural.

A Música Popular Brasileira não é proibida de assimilar tendências estrangeiras, mas também não pode se escravizar a elas, porque o que está em jogo não é criarmos uma cultura musical mais "competitiva" para o mercado internacional, sobretudo latino-americano.

O que está em jogo é a expressão de brasilidades, da realidade do "eu" brasileiro, mesmo com a interrelação com o "outro". É a afirmação do "eu" com franco diálogo com o "outro", e mesmo com o que há de fora, mas sem que o "eu" seja um subproduto do "outro", nem um "escravo" do "outro".

Na ditadura midiática, a dita "cultura popular" nem sequer é "urbana" ou "global", mas meramente midiática, mercadológica e sem serventia social. As comunidades populares apenas aparecem como "produtoras" (no sentido industrial do termo) de "bens culturais" (onde prevalecem critérios econômicos) e as influências estrangeiras, transmitidas pela mídia, revelam que as classes populares são apenas inferiorizadas neste processo.

Por isso as influências estrangeiras são bem vindas à nossa cultura, mas esta não pode subordinar-se àquelas. O valor da cultura não está em expressar tão somente as realidades urbanas e globais, mas em expressar realidades locais e processos sociais. Isso é o que importa.

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