terça-feira, 14 de maio de 2013

MENTALIDADE 'HIT-PARADE' SE RADICALIZA COM "FUNK MELÓDICO"


Por Alexandre Figueiredo

O hit-parade havia se estabelecido definitivamente como um processo da chamada "cultura de massa" há pouco mais de 45 anos. O comercialismo musical já havia sido ensaiado desde a Era de Ouro do rádio, mas havia ainda a predominância de uma mentalidade artístico-cultural que se esvaziava aos poucos, até chegar a hegemonia da "cultura" brega que domina o mercado.

Evidentemente que essa mentalidade se radicalizou nos últimos anos, sobretudo através do "sertanejo universitário", onde a introdução do acordeon como instrumento foi bastante tendenciosa, a exemplo do "tamborzão" no "funk carioca". Mas no "difícil" ritmo carioca, a introdução foi feita visando, em primeiro lugar, o mercado turístico, a demanda de consumidores vindos de outras partes do Brasil e do mundo.

O "sertanejo universitário" introduziu o acordeon como primeira manobra do hit-parade à brasileira, visando já no começo o mercado interno, já que o "tamborzão" funqueiro - como se chama o som de batida eletrônica que imita batuques de umbanda - primeiro visava conquistar os turistas para depois se firmar no mercado interno.

Só que o hit-parade ainda não se mostrou tão radical no "sertanejo universitário" porque ele foi talvez o último suspiro de uma brasilidade que já não existia na música de sucesso no Brasil, mas que era reproduzida palidamente num simulacro de "regionalidade" que ainda se vê em nomes como Michel Teló, Gusttavo Lima e Thiaguinho.

Mas, agora, o hit-parade mostra-se voraz, promovendo o "funk melody" (ou "funk melódico"), variante mais "comportada" do "funk carioca", com as caraterísticas rigidamente mercantis do comercialismo pop dos EUA, como se nota através dos ídolos MC Naldo, MC Koringa e MC Anitta.

Ambos são trabalhados com os recursos publicitários para criar uma imagem mais "agradável" para os fãs, dentro dos moldes com que se trabalha os nomes do hip hop e do pop adolescente dos EUA. A única diferença é o aceno politicamente correto que enfatiza o bom mocismo dos ídolos brasileiros, em detrimento da imagem "rebelde" que até mesmo Britney Spears e Justin Bieber trabalham na mídia.

Portanto, seria muito ridículo apelar, nestes casos, para a já enganosa retórica "pós-modernista" que a intelectualidade dominante tanto faz. Já foi muito apelar para a necrofilia barata de usar os nomes de Oswald de Andrade, Gregório de Mattos e até Itamar Assumpção para assinar em baixo em verdadeiras barbaridades musicais, do "funk" ao brega "de raiz", do "sertanejo" à axé-music.

Isso era compreensível, porque o brega-popularesco conseguia enganar com falsas evocações "pós-tropicalistas" ou com uma "MPB de mentirinha" feita para ninar as elites, sossegadas com a domesticação cultural fácil que a grande mídia fez nas periferias, sob a vista grossa de nossa intelligentzia. Já se empurrou até mesmo o breguíssimo Raça Negra goela abaixo no público alternativo brasileiro.

Mas no caso dos ídolos de "funk melody", não há como esconder que eles são trabalhados como verdadeiros produtos de mídia, qualquer visão "romântica" ou qualquer argumentação intelectualoide é impossível.

Tudo é artificial, escancaradamente comercial, não há uma simulação de "sofisticação artística" que ainda se vê num Thiaguinho, um dos nomes recentes da "MPB de mentirinha", asséptica, pasteurizada e embalada para os paradigmas de "qualidade musical" ditados pela Rede Globo.

Até mesmo as roupas "retrô" de MC Anitta, que evocam elementos manjados dos anos 80, são introduzidos tendenciosamente. MC Naldo, por sua vez, reproduz claramente a mesma estética dos ídolos de gangsta rap estadunidenses. O "funk melody" tenta ser trabalhado para ser "a música da juventude Zona Sul", e a chamada indústria cultural não esconde o evidente caráter mercadológico desses ídolos.

Já não é mais preciso criar arremedos de regionalismo. O pretexto "mágico" da palavra pop, inserido quase que poeticamente pelo discurso intelectual dominante, já não precisa ser trabalhado com tanta habilidade para promover os ídolos do "funk melody".

Até mesmo para recrutar atores para, feito gado, ir "prestigiar" tais ídolos, as Organizações Globo, em parceria com o Grupo Abril - leia-se revistas Contigo e Caras - , não mede esforços, como no caso de MC Naldo. É certo que Thiaguinho também foi promovido através desse "gado" de atores fingindo-se serem fãs dele, mas Thiaguinho ainda está no meio-termo entre a "MPB de mentirinha" e o ritipareide atual.

O que podemos concluir é que a grande mídia, aquela mesma que condena os movimentos sociais e louva os interesses privatistas do poderio político-econômico, quer que a cultura brasileira desapareça, substituída por um comercialismo que pode ser escancarado, como MC Naldo e MC Anitta, mas pode ser mais sutil, como Thiaguinho, mas sempre como formas de domesticar as classes populares em prol do consumismo.

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