sábado, 4 de maio de 2013

LOBÃO É UM ARNALDO JABOR ROQUEIRO. OU QUASE.


Por Alexandre Figueiredo

Definitivamente, a veia crítica do roqueiro Lobão descambou para a direita, como se o músico fosse uma espécie de versão roqueira do Arnaldo Jabor. Ambos, aparentemente, andam amargurados com o rumo dos tempos, saudosos de tempos e amigos que já se foram, desiludidos com os rumos do Brasil na atualidade.

Sobre a perda de amigos, Arnaldo Jabor já havia perdido colegas como Leon Hirszman, Glauber Rocha e Oduvaldo Vianna Filho, além de Nelson Rodrigues, com quem o cineasta e jornalista havia convivido em outros tempos de muito idealismo, debates e mobilizações.

Lobão, por sua vez, conviveu com Cazuza e Júlio Barroso, só para dizer dois nomes do Rock Brasil que exerciam a função de "amigos de infância" do multiinstrumentista, e com os quais viveu também os seus tempos de muito idealismo e muita criatividade.

Remanescentes de tempos que não voltam mais, Arnaldo e Lobão tornaram-se, em primeira instância, críticos lúcidos da mediocridade sócio-cultural, mas depois, de tanto mau humor, passaram também a ficar condescendentes com o reacionarismo ideológico do qual passaram a se identificar nos últimos tempos.

Arnaldo, nem se fala. Ele antes era divertido nas suas ironias, era até um "ator" na sua pequena dramaturgia jornalística, apesar de, na carreira cinematográfica, se limitar a trabalhar atrás das câmeras. Mas depois ele passou a adotar posturas reacionárias, de um anti-esquerdismo doentio, enquanto elogiava os EUA e suas autoridades e vê nos países capitalistas o sinônimo de paraíso celestial reproduzido na Terra.

O REACIONARISMO DE LOBÃO

Lobão tornou-se a versão roqueira de Jabor. Ou quase. Jabor pelo menos criticava a "pagodização" do país, horrorizado (com razão) com o tenebroso fenômeno do É O Tchan, que defendia abertamente a pedofilia e a pornografia travestida de aparato infantil, vendendo pornografia barata para a criançada.

Já Lobão é diferente. O mesmo Lobão que, no seu livro mais recente, Manifesto do Nada na Terra do Nunca, segue a mesma veia política de Jabor, dentro de uma oposição doentia ao PT - que em muitos momentos merece ser criticado, até severamente, mas não da forma fútil que a direita radical faz - , ao chamar Dilma Rousseff de "terrorista" e Lula de "otário e canalha".

A "metralhadora" de Lobão pode não ter um plano ideológico aparente, afinal ele não poupa sequer os também conservadores Roberto Carlos e Caetano Veloso. Quanto a Caetano, Lobão já o criticou várias vezes, sobretudo devido à acomodação da MPB simbolizada pelo cantor baiano. Em relação ao cantor capixaba, Lobão, no recente livro, o chamou de "múmia reprimida".

Nem o hip hop foi poupado pelo roqueiro, que antes parecia ser um porta-voz de movimentos sociais e do mercado independente, chamando os Racionais MC's de "PT com armas" e seu líder, Mano Brown, de "idiota útil". Mano respondeu chamando Lobão de "leviano e desinformado" e o desafiou para uma acareação: "Tô sempre no Rio de Janeiro, se ele quiser resolver como homem, demorô!".

LOBÃO: "FUNK É MARAVILHOSO"

Mas quando o assunto é "funk carioca", Lobão é totalmente amoroso. Ele se derrete pelo gênero, tanto que foi um dos primeiros a falar de Mr. Catra na sua revista Outra Coisa, que havia lançado nas bancas há cerca de dez anos.

E quem imagina que o apoio do "funk carioca" só se devia porque Lobão era "mais rebelde", engana-se, porque o roqueiro está cada vez mais entusiasmado pelo "funk" nos últimos tempos, dando maior importância a ele do que até mesmo o Rock Brasil, do qual Lobão se vê como um "mestre solitário".

Alguns comentários em diversas entrevistas podem ser notados a respeito de seu entusiasmo pelo gênero, uma postura que difere muito da de Jabor, sabendo que o "funk" é herdeiro do sensualismo mercadológico do É O Tchan, pois até a "dança da boquinha da garrafa" faz parte da "coreografia" funqueira.

Lobão já comparou o suposto "preconceito" que o "funk carioca" sofre hoje ao samba. Declarou-se fã de Tati Quebra-Barraco e Mr. Catra. Comparou o "funk carioca" à rebeldia do rock'n'roll. Diz que prefere o falecido dançarino Lacraia a Edu Lobo. E ainda chamou o "funk carioca" de "maravilhoso".

Com um propagandista destes - que já foi parceiro de Marcelo Tas na apresentação de um programa - é impossível ver no "funk carioca" algum elo com movimentos zapatistas, guevaristas e trotskistas como a intelectualidade dominante tanto associa com alarde e um certo apelo delirante e sensacionalista.

Afinal, o "funk carioca" tem o apoio de quase toda a direita institucional e midiática. Sempre foi apoiado pelas Organizações Globo, ganhou o apoio entusiasmado da Folha de São Paulo, tem o aval do Instituto Millenium e um discreto apoio da revista Caras. Sem falar da Fundação Ford premiando quem for defender o "funk" com produções artísticas ou acadêmicas.

Quanto a pessoas, o "funk carioca" tem o apoio de Luciano Huck, Marcelo Tas, Gilberto Dimenstein, William Waack, Nelson Motta e um Hermano Vianna ligado academicamente ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. E com o apoio fiel de um Lobão voltado à direita, o "funk carioca" tem tudo para ser a trilha sonora certa para o Manifesto do Nada na Terra do Nunca.

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