sexta-feira, 24 de maio de 2013

"CULTURA DE MASSA" E O DESLUMBRAMENTO BRASILEIRO


Por Alexandre Figueiredo

Há uma grande diferença entre o questionamento severo que se tem da "cultura de massa", da overdose de informações, da coisificação do homem e da espetacularização da sociedade entre a intelectualidade europeia e o deslumbramento de tudo isso pela intelectualidade brasileira.

Note-se que, se brasileiros fossem, Umberto Eco, Noam Chomsky, Paul Virilio e os já falecidos Guy Debord e Jean Baudrillard simplesmente não chegariam sequer nas portas da seleção de mestrado, já que a orientação acadêmica brasileira pouco recomenda o pensamento crítico, mas tão somente uma retórica "científica" limitada a descrever e reafirmar o estabelecido, quando muito problemáticas sem problemas.

A "cultura de massa" brasileira pode ser um grande Cavalo de Troia. E é, em muitos momentos. Mas desde a banalização e a acomodação das expressões tropicalistas, na medida em que estas se esvaziaram da abordagem crítica da análise da "geleia geral" - que era a apreciação crítica de tudo que havia de bom e ruim na cultura em geral - , o que se vê hoje é a banalização conformista do pós-moderno no Brasil.

Isso faz com que se crie um ciclo vicioso em que temos expressões pós-tropicalistas culturalmente autênticas, mas mornas no que se diz ao seu teor de expressividade. Por outro lado, tem-se também a apreciação e a defesa da "cultura de massa" brasileira, o brega-popularesco, como o último grito de "provocação pós-moderna" segundo a chamada classe "esclarecida" de nosso país.

A nossa "geleia geral" que envolve desde diretores "complicados" como Gerald Thomas até as sub-celebridades do Big Brother Brasil, que musicalmente vai de pós-tropicalistas a funqueiros, de bregas de raiz, filmes de pornochanchada, programas de auditório "populares" etc, se acomodou numa apreciação passiva que chega às últimas consequências de uma "provocação" que não provoca mais.

Até mesmo ser "incomodado" ficou banal. Os "performáticos" da Gangue da Eletro, Felipe Cordeiro, Dudu Pererê, entre tantos outros espalhados pelo país, se preocupam apenas em criar uma estética "desarrumada" como se isso os fizesse superinformados, ultramodernos e metavanguardistas. Só que isso ficou banal demais.

Até o Big Brother Brasil chegou a ser anunciado pela grande mídia como se fosse "atração de vanguarda". Vivemos uma deturpação da vanguarda num "modernismo de resultados" em que temos "problemáticas" sem problemas, "provocações" que não provocam, "debates" que não debatem.

A espetacularização vira um fim em si mesmo. A "cultura de massa" brasileira é um pesadelo potencial para Guy Debord, se ele tivesse sido um brasileiro e estivesse ainda vivo hoje. E todo esse "espetáculo" se dilui em "viradas", "desfiles", "festivais", "coletivos" e "oficinas" que só servem para ser um amontoado de "referências" pop, que só mostram a obsessão consumista das gerações atuais.

Afinal, não se trata mais de uma pop art inserindo quadrinhos nas artes plásticas, nem um tropicalista vestido roupas de plástico ou algum cantor regional inserindo guitarra elétrica pela primeira vez quando a guitarra elétrica era ainda um tabu por aqui. Hoje tudo é gratuito, aleatório, "incomodar" deixou de ser um acessório para uma expressão corajosa, virou o fim em si mesmo.


Ninguém se incomoda em "incomodar". Não há mais polêmica, só há "polêmicas" que apenas mostram um fenômeno geralmente medíocre que ganha a adesão de algumas pessoas e a rejeição de outras, banalizando até mesmo a divisão de posições.

As gerações atuais que trabalham a "cultura" brasileira contemporânea, sejam como produtores ou apreciadores e pesquisadores, têm uma formação televisiva e mercadológica. Acham que a "cultura de massa" e altamente televisiva e mercadológica é sinônimo de "liberdade", do contrário que se considera lá fora, onde essa mesma "cultura" é sinônimo de "prisão".

Aqui no Brasil, muitos enxergam o neoliberalismo cultural, da hegemonia do comercialismo pop como norteador de expressões pós-modernas, sob uma ótica falsamente libertária. Sem perceber, muitos defendem valores de "livre iniciativa" e 'livre mercado" como se fossem guerrilha socialista, ingênuos na overdose de informações que lhes confundem emoções e razões.

Na Europa em crise, nos últimos dez anos, se vê filmes, peças e canções reflexivas dos tempos atuais. A queda do Muro de Berlim e do Leste Europeu, a globalização e o consumismo não trouxeram um tempo de prosperidade, uma belle-èpoque do consumo, mas a ruptura de identidades, sonhos, perspectivas e expectativas, gerando uma época de crises e incertezas.

Lá no velho continente, o pós-moderno tornou-se gasto, superado, banalizado. É hora de se rever os armários, limpar o mofo, jogar fora o que está obsoleto. No Brasil, porém, cheiro de mofo é perfume, ao lado do fedor do lixo, reciclamos o obsoleto sem recuperarmos sua utilidade, queremos ser tudo num amontoado de nadas. A retaguarda do brega brasileiro é, pasmem, vista hoje e aqui como "vanguarda".

Temos um cenário até mais complexo para análises contestatórias de overdose da informação, de espetacularização da sociedade, de coisificação do homem. Mas esse cenário, fértil para teses acadêmicas, até agora não é ricamente analisado nesses meios, porque o que a classe acadêmica, amarrada em interesses econômicos, burocráticos e corporativistas, simplesmente veta o pensamento questionativo nas produções de pesquisa e extensão universitárias.

Não vivemos ainda a ressaca dessa festa consumista de uma gama excessiva de símbolos, ícones, signos, contextos, teses, antíteses e outros elementos discursivos. Muitos pós-modernos brasileiros, felizes de juntar elementos cafonas, punks, regionais etc, choram lágrimas de crocodilo quando veem os europeus em crises existenciais, dentro do contexto da crise do euro e dos valores neoliberais no velho continente.

Mas quando virá essa ressaca? O Brasil brincará de pós-moderno a vida toda? O Brasil viverá o feitiço do tempo de um cenário cultural caótico, mais para gororoba do que para geleia geral, como um cachorro correndo atrás de seu próprio rabo? E a intelligentzia, até quando ela terá sangue de barata para se achar indiferente a críticas e a rejeições?

Vivemos a hegemonia da vaia e do incômodo como formas de satisfazer vaidades artísticas e intelectuais de quem quer que seja, "performáticos" ou bregas, das gerações intelectuais e artísticas atuais. Mas até que ponto fará sentido ser "genial" através da rejeição alheia é algo que o tempo dirá. Afinal, é muito fácil se passar por "gênio" diante da rejeição de todos. Difícil é provar se é realmente gênio ou não.

A festa parece boa, mas a ressaca é inevitável. Que venham os Debord e Baudrillard brasileiros, nem que eles venham escondidos em blogues gratuitos ou artigos escondidos em algum arquivo htm da Internet.

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