sábado, 18 de maio de 2013

A "PANELA" DA INTELECTUALIDADE CULTURAL


Por Alexandre Figueiredo

Ando lendo o livro Quem Tem Um Sonho Não Dança, de Guilherme Bryan, que fala sobre os movimentos culturais dos anos 80. Entre tantas coisas, é relatado o problema da revista Bizz, que se tornou uma "panelinha" de críticos que só elogiavam bandas desconhecidas e formavam bandas "difíceis" de rock paulistano.

É claro que esse pessoal tem muita gente boa, como a dupla Cadão Volpato e Thomas Pappon, que formou o maravilhoso grupo Fellini, mas a queixa comum era que eles exaltavam bandas que os leitores não conheciam e quase não tinham chance de conhecer. Até porque não havia Internet e muito menos um YouTube que pode lhe mostrar uma nova banda da Croácia sem que você saia de sua casa no Brasil.

E nessa época a revolução das rádios alternativas de 1982-1985 começava a descaminhar por um caminho convencional, com a adesão oportunista de rádios supostamente "roqueiras" que na verdade eram emissoras de pop dançante ou de brega que mal alteravam sua orientação, se limitando a colocar uns poucos produtores "especializados" e um vitrolão "roqueiro" pré-estabelecido pelas gravadoras.

Portanto, conhecer bandas novas era muito difícil na época, enquanto jornalistas, músicos e radialistas detinham o privilégio de saberem eles mesmos as bandas seminais de rock alternativo. E não se fala de coisas manjadas como Pavement, Weezer e Flaming Lips, mas de nomes como Telescopes, Looper, Mercury Rev e outros.

Em lugares mais provincianos, havia engodos radiofônicos como a rádio 96 FM, de Salvador (Bahia), controlada por um "coronel" de Guanambi, do interior baiano, em parceria com empreiteiros da capital, que seguiam a mesma orientação ideológica da rádio paulista 89 FM que, sabemos, tem DNA malufista. E, para essas rádios, "alternativo" mal chegava a ser um 4-Non Blondes ou um Jesus Jones da vida. Lamentável.

Nessa era pré-Internet em que a Fluminense FM de Niterói recebeu chacotas do mercado por não contar com um departamento comercial forte, mesmo tocando preciosidades alternativas como Weather Prophets, a cultura alternativa estava privada do grande público.

Em contrapartida, a paulista 89 (atual UOL 89 FM), com seus donos nascidos no berço de ouro malufista da ditadura militar e bem relacionados com os grandes anunciantes, sobreviveu até hoje como "rádio rock" (descontando um hiato de seis anos), mas não tem coragem de tocar sequer o mais comezinho dos verdadeiros clássicos e dos alternativos autênticos da cultura rock.

Daí a "panelinha" dos críticos da Bizz, na verdade um monte de "panelinhas" na qual prevaleceu justamente a pior, aquela que detonou os anos 80, jogou a cultura alternativa no limbo e preferiram vestir a camisa de flanela do grunge para promover uma caricata "cultura alternativa" dos anos 90. Vide André Forastieri, Carlos Eduardo Miranda, Camilo Rocha e outros da "mais poderosa" das "panelinhas".

AO GRANDE PÚBLICO, RESERVA-SE O PIOR

A geração Bizz dos anos 90 era pior do que a geração dos anos 80 na mesma revista porque esta, pelo menos, transmitia muita informação, mostrava artistas e tendências interessantes da música brasileira e internacional, procurava trazer novas expressões musicais para o público médio poder apreciar.

Na geração 90, comandada por André Forastieri, não houve isso. Pelo contrário, iniciou-se a radicalização da "cultura de massa" mesmo quando há o pretexto "alternativo", que se restringiu ao grunge, ao noise rock e outras tendências mais simplórias. Enquanto isso, jornalistas tornavam-se privilegiados por uma bagagem de conhecimentos que nem os mais alternativos no Brasil poderiam ter fácil acesso.

E isso se passou, uma década depois, para a música brasileira. A "panela" intelectual tornou-se outra, mas era influenciada pela Ilustrada e pela Bizz dos anos 90, exaltando a "cultura de massa" como referencial do que eles desejam que o povo pobre consuma.

Daí as "divindades": Paulo César Araújo, Hermano Vianna etc. Todos sacerdotes de uma "religião do mau gosto", empurrando a breguice musical para o grande público, privando este da apreciação, ao menos prioritária, da música de qualidade.

Eles adotam pontos de vista aparentemente generosos, que apenas glamourizam a miséria e a ignorância populares, criando argumentos surreais para defesa da mediocridade e da imbecilização cultural, como se isso fosse inerente às classes populares. Visões preconceituosas de gente "sem preconceitos", como se vê.

Mas eles querem apenas é proteger os seus privilégios de classe "esclarecida", sabedora dos segredos culturais que em outros tempos até as classes pobres e a classe média baixa poderiam conhecer. Mas hoje, dentro do contexto da ditadura midiática, a intelectualidade defende a "cultura" brega e outros tipos de mediocridade, para que o grande público se distraia com o lixo cultural empurrado pela mídia e pelo mercado.

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