quinta-feira, 23 de maio de 2013

A INTELECTUALIDADE CULTURAL DO BRASIL MEDÍOCRE


Por Alexandre Figueiredo

Temos o Brasil em que jornalista medíocre entra fácil na Academia Brasileira de Letras porque trabalha na grande mídia, ainda que só lance coletâneas de artigos. Temos o Brasil de uma revista de informação cujo nome é relacionado ao verbo "ver" que só desinforma e condena os movimentos sociais. E temos um Judiciário tomado de estrelismo e pouco voltado à verdadeira luta por justiça social.

Pensando assim, alguns tentam achar que a intelectualidade cultural dominante que defende a breguice cultural nada tem a ver com isso e que ela representa a "salvação" da humanidade, "vítima" dos arbítrios da grande mídia e da política direitista.

Só que essa visão está errada. As esquerdas médias dão ouvidos à intelectualidade pró-brega achando que Odair José, Raça Negra e MC Federado e os Lelekes vão trazer o socialismo para o Brasil. Balelas. Com a multidão neocon - Lobão, Nelson Motta, Marcelo Madureira, Marcelo Tas etc - apoiando a breguice cultural com mais convicção que as esquerdas médias, não há como ver progressismo nisso.

Afinal, já prevenimos que não existe diferença essencial em ministros do STF e procuradores que "escolhem" os corruptos para serem condenados ou poupados conforme a preferência ideológica e namoram a grande mídia e a intelectualidade cultural que defende a supremacia do "mau gosto" na cultura brasileira e também namora a grande mídia.

É o mesmo contexto que envolve Merval Pereira, Gilmar Mendes e Paulo César Araújo e similares. Ou será que é coincidência Hermano Vianna ser ligado academicamente ao grupo de Fernando Henrique Cardoso e ser patrocinado pela Fundação Ford? Infelizmente, a opinião pública média de esquerda despreza tais questões, achando que isso nada tem a ver com o neoliberalismo.

Tem, sim. Gilmar Mendes e Paulo César Araújo, por exemplo, se inserem no mesmo contexto da mediocridade social do país, a qual eles se empenham em proteger, em vez de combater. São pessoas que andam de mãos dadas com a grande mídia, e se o historiador dos bregas e "vítima" de Roberto Carlos só aparece na grande mídia "por coincidência", o mesmo acontece com Gilmar.

Não existe ruptura com a grande mídia. É só ver como as tendências brega-popularescas se relacionam com a grande mídia, com surpreendente e gritante cumplicidade. O "funk carioca", por exemplo, se sente muito mais à vontade nos palcos da Globo do que nas proximidades do Centro Barão de Itararé.

O brega e seus derivados (como "sertanejo", axé-music e "funk carioca") não quer regulação da mídia, porque isso praticamente os anulará. Com a regulação da mídia, o rádio FM não mais tocará Michel Teló, Gaiola das Popozudas, Odair José, Waldick Soriano, É O Tchan, Asa de Águia e outros queridos da intelectualidade "sorospositiva" (aquela que é patrocinada por George Soros, Fundação Ford e CIA).

Com a regulação da mídia, a intelectualidade cultural dominante ficará horrorizada em ver novamente aqueles sambas que hoje se tornaram "patrimônio da gente douta" voltarem a serem feitos nas favelas, os nordestinos fazendo baiões em vez do intragável "forró eletrônico" e gente pobre falando em coisas "incômodas" como reforma agrária em vez de "rebolarem até o chão".

A intelectualidade cultural dominante no Brasil tomado pela mediocridade nem de longe pratica heroísmo ao defender a breguice cultural hegemônica em todo o país. Pelo contrário, o que eles fazem é uma avacalhação do conceito de "popular", baseado em critérios economicistas usados para defender a degradação de valores sociais, culturais e morais nas classes populares vigentes desde a ditadura.

Eles ainda argumentam, assim como os ministros do STF fazem suas argumentações para seus pareceres errados ou incompletos. Tentam deturpar a necessidade de apreciação do "outro", aceitando todo tipo de decadência social quando o rótulo "popular" está em jogo. "Eu não gosto desses valores, mas vejam como o povo está feliz (sic) com isso", é o que pensa essa intelectualidade.

Não adianta saber de maracatus, sambas, música africana, world music e a tal "MPBzona" - termo pejorativo criado pelo "irretocável" Paulo César Araújo para definir a MPB autêntica por ele tida como "grandiloquente" e "bagunçada" (daí o sufixo "zona") - , se defende a degradação sócio-cultural só porque ela "arrasta multidões" e supostamente "gera mais empregos".

Os ministros do STF, juristas e procuradores que hoje vivem de estrelismo, viajando para o exterior com dinheiro público para receber prêmios de periódicos estrangeiros reacionários, também conhecem muito de leis. A "urubologia" do jornalismo político também entrevistou muita gente e faz pesquisas bibliográficas. Nem por isso eles se tornaram heróis ou salvadores da pátria.

Mas tratar a intelectualidade cultural como "sagrada", "intocável" e "irretocável", mesmo quando ela tenta definir como "feminismo" o machismo depreciativo das mulheres-objeto, não tem fundamento. Ver o "popular" como o depósito de lixo do inconsciente das classes "esclarecidas" não é uma demonstração de ruptura de preconceitos, mas da reafirmação de preconceitos sociais ainda piores.

Por isso, não se pode ver diferença entre a intelectualidade cultural que defende o brega, o Judiciário tomado de estrelismo e Merval Pereira tomando o chá servido na Academia Brasileira de Letras. É o mesmo contexto de mediocridade. A intelectualidade cultural não está fora disso, pouco importa se seus "pensadores" são amigos de sindicalistas ou ativismos sociais. Afinal, amigos, amigos, negócios à parte, e nossa intelligentzia está muito feliz quando está dentro da grande mídia.

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