domingo, 19 de maio de 2013

A "CULTURA POPULAR" DA REDE GLOBO


Por Alexandre Figueiredo

É compreensível que a intelectualidade cultural dominante do nosso país, tão "idônea" quanto os astros-juristas do STF, exalte tanto a bregalização cultural de nosso país, de uma forma doentia que acaba agravando sua aversão à MPB autêntica, em prol de um pseudo-folclore estereotipado, pasteurizado e caricato.

A geração de intelectuais que domina a opinião pública de nosso país, geralmente, é composta de gente que hoje tem entre 40 e 55 anos, descontando alguns mais jovens e outros mais velhos. No grosso, é uma geração que assistiu à televisão no período da ditadura militar.

Além disso, eles só conheceram o Centro Popular de Cultura na abordagem pejorativa determinada pelas cátedras universitárias nos anos 70 e 80, sob influência de Fernando Henrique Cardoso, o "príncipe" da intelligentzia brasileira de então. E sua noção de folclore brasileiro foi mais livresca e televisiva, e mesmo o contato presencial já era feito depois de tanta formação paternalista.

Hoje nomes como Hermano Vianna e Paulo César Araújo viraram "sagrados" mesmo com sua compreensão um tanto paternalista e etnocêntrica a respeito da cultura popular. Mas isso mostra o quanto as classes médias, detentoras de um patamar mediano e dominante de opinião e visão de mundo, ainda desconhece o que realmente é cultura popular.

O Brasil não conhece o Brasil. Os brasileiros só conhecem o Brasil pela televisão, pelo rádio e pelo jornal. A grande mídia, a cada dia, mostra uma visão bastante distorcida da realidade. E esse processo não exclui, evidentemente, a cultura, embora muitos ignorem esse detalhe.

A Rede Globo é a que mais influencia na propagação distorcida do que é, oficialmente, conhecido como "cultura popular". As Organizações Globo pegaram "emprestado" a breguice trabalhada por outros veículos midiáticos - como SBT, Record, Bandeirantes e revistas tipo Contigo e Amiga - e glamourizaram a cafonice, tirando o caráter cômico original.

Criou-se então uma visão de "cultura popular" um tanto hipócrita. O povo pobre, aos olhos das elites "esclarecidas" de nossa intelectualidade, passou a ser visto como "melhor" naquilo que ele tem de pior. A degradação de valores sociais, artísticos, culturais e econômicos foi glamourizada por um discurso paternalista que seduz pelo seu conteúdo positivista.

A apologia à miséria é feita como se o "popular" se revestisse sempre de lixo, grosseria, vulgaridade, pieguice, pitoresco, chulo, cafona, careta. Através da associação, direta ou não, da intelectualidade com a Globo, essa apologia é feita como se fosse um "processo social natural" atribuído às classes populares, uma miséria cuja "riqueza" (sic) nós "não" estamos preparados para compreender.

Essa pregação toma o inconsciente de muitas pessoas que elas acabam acreditando que esse "lixo" faz parte de uma "felicidade popular" (sic) que as pessoas "esclarecidas" são "incapazes" (?!) de compreender, o que coloca a sujeira debaixo do tapete, na medida em que as classes abastadas, inclusive a intelectualidade associada, "deposita" seus preconceitos na sua visão de cultura popular.

Assim, o "outro" vira um depósito de lixo da intelectualidade dominante, pois as classes populares - o tal "outro" - são um simbólico repertório de tudo de negativo existente na sociedade, "justificado" por essa omissão que a aceitação da breguice, ou seja, a glamourização da miséria e da degradação cultural, esconde.

A coisa é pior que se imagina. A aceitação do brega e seus símbolos e valores derivados, além de representar um preconceito social que a intelectualidade "não" consegue compreender de si, esconde a influência da ditadura midiática que o rótulo "popular" dissimula como "natural", quando na verdade é uma manipulação midiática como qualquer outra.

É o que se vê, por exemplo, na "etnografia" de fachada do Esquenta!, na espetacularização da breguice no Domingão do Faustão e no Caldeirão do Huck, entre outros espaços dentro e fora das Organizações Globo, mas sempre vinculados à ditadura midiática. Afinal, a Globo glamouriza a breguice, que se recicla na "imparcial" adesão das concorrentes.

Isso é muito ruim. Pois o que muitos entendem como "cultura popular" não passa de uma visão preconceituosa, mesmo tida como "sem preconceitos", difundida pelo poderio midiático e apoiada pelo capital estrangeiro. E muitos, boboalegremente, acham que isso nada tem a ver com a ditadura midiática. Devem ter sido abduzidos pela mesma.

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