domingo, 14 de abril de 2013

UNIVERSIDADE E IMBECILIZAÇÃO CULTURAL


Por Alexandre Figueiredo

Há um bom tempo, o ensino superior do Brasil apresenta sérios problemas, e com a crise educacional dos dias de hoje, somada à mercantilização do ensino em geral, as universidades de hoje mais parecem cursos secundários, diante da formação cultural ainda precária que exerce sobre nossos estudantes.

Um episódio que caiu no esquecimento foi a farra de estudantes de uma Faculdade de Medicina em Londrina, Paraná, ocorrido em 13 de dezembro de 2008. Eles saíram de uma bebedeira em algum bar para entrar num hospital totalmente embriagados. O episódio gerou um escândalo na época e os estudantes, ao que parece, haviam sido punidos.

Recentemente, porém, uma outra farra ocorreu entre os universitários, só que sem causar o menor escândalo. Estudantes do curso de Estudos de Mídia e Cultura da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal Fluminense escolheram a funqueira Valesca Popozuda como patronesse para sua formatura, há poucos dias.

O episódio bastante tendencioso não só recebeu o apoio da classe acadêmica como fortaleceu a já dominante demagogia dos pretensos ativistas do "funk carioca", que aproveitaram desse sensacionalismo acadêmico para fortalecerem seu poderio midiático e criar reserva de mercado em Niterói.

Afinal, a cidade é o local de origem do MC Federado & Os Lelekes, hoje empresariado pela Furacão 2000 e apadrinhado pela Rede Globo. A emissora, que promove o Viradão Cultural, já jogou o inexpressivo MC Leozinho - um one hit wonder que o mercado força a barra para continuar fazendo sucesso - para o palco niteroiense.

ESTUDOS DE MÍDIA QUE NADA ESTUDAM

Problemáticas sem problemas. Debates que não debatem. Reflexões críticas que não refletem criticamente. E estudos de mídia que nada estudam. São simulacros de discussões que não debatem, não questionam, só servem para reafirmar o estabelecido através de discursos intelectualoides e prolixos.

O "funk carioca", com seus empresários riquíssimos, anda comprando a classe acadêmica a varejo e atacado. O ritmo que sempre se alimentou com jabaculê e que cresceu com o apoio das Organizações Globo sempre quer dar a falsa impressão de que não tem a ver com a grande mídia e tenta seduzir a opinião pública com seu falso ativismo.

Toda essa propaganda é feita de forma insistente, para fabricar um "consenso" em relação ao ritmo, camuflando sua mediocridade artística, e fazendo com que a imbecilização cultural triunfasse mais uma vez, através da cooptação da intelectualidade.

DEDO DO PSDB E DO INSTITUTO MILLENIUM

O vínculo do "funk carioca" com o direitismo midiático pode não ser assumido nem observado por mentes pouco atentas, mas nem de longe pode ser considerado implícito. A situação é explícita e comprovada pelas associações notadas a partir de militantes funqueiros.

Se o discurso "socializante" que favoreceu o "funk carioca" já havia sido produzido pelos jornalistas da Folha de São Paulo e das Organizações Globo e propagandeado por celebridades e artistas que trabalham ou divulgam seus trabalhos na Rede Globo, a associação do "funk carioca" à mídia demotucana se estende até mesmo pela ligação de dois ativistas, um antropólogo e um dirigente funqueiro.

Hermano Vianna é claramente ligado a Fernando Henrique Cardoso, uma das figuras-chave do PSDB e do qual é vinculado academicamente o ex-presidenciável José Serra. Como antropólogo, era ligado diretamente a Gilberto Velho, do grupo da falecida Ruth Cardoso, que havia sido esposa de FHC.

Já MC Leonardo, por sua vez, é apadrinhado pelo cineasta José Padilha, dos filmes Tropa de Elite 1 e 2, co-produzidos pela Globo Filmes e colaborador do Instituto Millenium, a instituição intelectual que dispensa apresentações.

O "funk carioca" também recebe o apoio de gente como Nelson Motta, o antigo jornalista e ativista cultural hoje ligado também ao Millenium e colunista do Jornal da Globo comandado por William Waack, Gilberto Dimenstein, da Folha de São Paulo e Luciano Huck, apresentador e empresário amigo de Aécio Neves e Eike Batista. Portanto, com essa turma toda, o "funk carioca" nada tem de discriminado nem injustiçado.

ERA ISSO QUE O NEOLIBERALISMO QUERIA

Quanto à imbecilização cultural atingindo as universidades - nem é preciso comentar, aqui, sobre o tal "sertanejo universitário" - , ela tornou-se a realização tardia do desejo de políticos neoliberais e investidores do grande capital, que haviam apelado para golpes militares como o do Brasil, em 1964, justamente para enfraquecer as manifestações sociais, sobretudo estudantis.

As farras universitárias e os conchavos que dirigentes de grêmios estudantis fazem com empresas de música brega-popularesca para realizar as chamadas "choppadas" são uma prova que os universitários de hoje têm muito pouco compromisso, para não dizer nenhum, com a necessidade de evolução cultural do nosso país.

Mesmo nas universidades públicas, há medidas que tentam diluir e domesticar o ativismo acadêmico, sobretudo pelo patrocínio da Fundação Ford e do especulador financeiro George Soros, um dos astros do Fórum Econômico Mundial. Essas pessoas depositam dinheiro para as instituições acadêmicas e sociais brasileiras como forma de minimizar os efeitos e a envergadura do ativismo social no país.

Com isso, cria-se uma classe acadêmica comprometida apenas em manter o estabelecido, seja na economia, na política e na cultura. A influência de âmbito nacional do pensamento neoliberal da turma uspiana, a partir de Fernando Henrique Cardoso, é sintomática.

No âmbito da cultura, isso significa que a cultura popular, aquela manifesta com base do convívio comunitários e da expressão de saberes, foi jogada para escanteio, enquanto a pseudo-cultura brega-popularesca é creditada, tendenciosamente e através de todo um arsenal discursivo acadêmico e jornalístico, como o "novo folclore brasileiro".

Isso influi na imposição de um pensamento único, no qual a "cultura de massa" é a única via "segura" para a perpetuação da cultura popular. Argumento hipócrita, mas verossímil. E que serve mais para perpetuar o mercado associado e garantir o enriquecimento dos empresários e barões da mídia associados.

Já os universitários de hoje carecem, e muito, da veia crítica que marcou a classe nos anos 60. O antigo discurso libertário, a busca de culturas e políticas de qualidade e mais próximas do interesse público, acabou, e hoje o que se vê é apenas uma busca por um lugar no mercado de trabalho, em detrimento de uma formação substancial de conhecimentos e aprendizados.

Daí o consentimento com a imbecilização cultural do qual o "funk carioca" é um dos exemplos mais típicos. O "funk carioca" glamouriza a pobreza e a ignorância, e faz clara apologia à miséria, desmobilizando as classes populares. Se o "funk" é apoiado por um grupo de formandos acadêmicos que deveria lutar pela melhoria sócio-cultural e combater a imbecilização, então é sinal que a cultura do país está no fundo do poço.

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