segunda-feira, 8 de abril de 2013

TROLAGEM E PODER MIDIÁTICO


Por Alexandre Figueiredo

O lançamento da chamada "Lei Carolina Dieckman", que condena crimes relacionados à Informática, há alguns dias, pode representar um novo contexto na realidade virtual, onde o chamado cyberbullying e a pirataria na Internet podem perder a imunidade e a impunidade de antes.

A lei ganhou esse apelido porque a atriz Carolina Dieckman teve fotos dela nua difundidas sem sua autorização na Internet, e aqueles que vazaram as fotos, depois de denunciados, acabaram sendo condenados pela Justiça.

Não se está aqui para julgar ou perguntar por que Carolina fez essas fotos. O que interessa para este texto é a questão de que parte dos internautas, dotados de intenções bastante perversas e reacionárias, são capazes de cometer abusos seja para bagunçar, seja para fazer prevalecer o "pensamento único" dos valores estabelecidos pelo poder político, econômico e midiático, desmoralizando quem os contestasse.

Sim, porque, apesar da rebeldia verborrágica muito comum a esses vândalos digitais, o que se observa é que a maioria esmagadora dos chamados troleiros (ou trollers, para quem não acompanhou o aportuguesamento) não passa de "cães de guarda" do establishment político-midiático.

Afinal, seria muita ingenuidade creditar nesses reacionários digitais um "guevarismo mal orientado", como era quando os analistas de esquerda ainda não questionavam os aspectos sócio-culturais do direitismo midiático, concentrados demais nas pautas políticas e ainda coniventes com o maniqueísmo que as esquerdas médias faziam que creditava como "esquerda" tudo que ia além do complexo político-midiático PIG-demotucanato.

Felizmente, a experiência de haver reacionários dentro das fileiras "progressistas", como os políticos Marcos Feliciano e Jair Bolsonaro, ou as posturas condescendentes do ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, fizeram as esquerdas aprenderem a lição e deixou-se de desejar, paradoxalmente, um Oriente Médio mais desenvolvido em detrimento de um Brasil mais brega.

Os vândalos digitais são filhos ideológicos de Reinaldo Azevedo. "Filhotes" mimados da mídia, a cortejar ídolos popularescos, tecnocratas, políticos fisiológicos e veículos de mídia da moda, os troleiros, ao longo dos anos, exerceram seu patrulhamento ideológico causando terror nas redes sociais.

Seu fanatismo tinha seus diversos totens. Ia de Zezé di Camargo & Luciano à "rádio rock" 89 FM, passando pela pintura padronizada dos ônibus do Rio de Janeiro, pela defesa do ensino superior privado, entre outras causas antipopulares.

Há também os fanáticos histéricos de Ivete Sangalo, Chiclete Com Banana, José Serra, Luciano Huck, Mr. Catra, Diogo Mainardi, Bee Gees e até do governador fluminense Sérgio Cabral Filho. E havia mesmo quem defendesse até as "mulheres-frutas" como supostos símbolos de feminismo e beleza brasileira.

São pessoas que acham que o "estabelecido" sempre existe para salvar a sociedade. Os troleiros até usam o discurso demagógico de que "isso não é aquela maravilha, mas é melhor que nada", o que muitas vezes sugere uma mensagem hipócrita de que tal coisa "não é cem por cento, mas é 100%".

Criam uma perfeição da imperfeição. Dão a impressão de que tudo no Brasil é uma porcaria, e que tais medidas, fenômenos, veículos midiáticos, ídolos etc servem para trazer alguma alegria ou prosperidade. Mas tal alegria e prosperidade de fato não existem, mas a presunção de que elas viriam um dia, por mais irreal e impossível, não devem ser questionadas.

Se questionadas, as represálias digitais vão desde xingações em e-mails ou mensagens em fóruns até invasão de contas na Internet. O reacionarismo desse tipo não pode, no entanto, ser comparado com o ativismo do Anonymous invadindo portais da indústria cinematográfica e fonográfica dos EUA. Pelo contrário, o horizonte ideológico é extremamente o oposto.

Afinal, esses troleiros, mesmo de forma bastante indireta, estão a serviço de valores dominantes na política, na mídia e na indústria do entretenimento. Em muitos momentos, eles representam um complemento ao reacionarismo famigerado dos comentaristas políticos da grande mídia e dos humoristas reacionários da televisão que vomitam mau humor nos salões do Instituto Millenium.

Isso se explica porque os troleiros, protegidos pela pouca idade ou pelo anonimato, podem até se passar por "progressistas" mesmo com ideias claramente reacionárias. Basta eles insistirem em se definir o que não são e quem questionar é xingado gratuitamente. Pura demagogia, pura hipocrisia, mas os troleiros brasileiros parecem poderiam figurar num Febeapá como um Comando de Caça aos Comunistas enrustido.

Com a nova lei para crimes na Internet, além de, é claro, com as derrotas sucessivas que troleiros sofrem no meio do caminho - cedo ou tarde eles arrumam encrenca com discordantes mais preparados ou com reações crescentes de outros internautas - , o vandalismo digital terá dificuldades para se expressar, perdendo aquela imunidade e impunidade de antes.

Portanto, os juvenis "cães de guarda" do poderio midiático verão que, por mais que se sintam seguros na defesa do "estabelecido", não terão mais garantia de sucesso com suas represálias virtuais. Uma simples xingação poderá representar, pelo menos, o bloqueio de suas contas na Internet e o registro policial do protocolo de Internet que cada troleiro utilizou para suas violências digitais.

O poder político e midiático terá que ter mais jogo de cintura para neutralizar os crescentes questionamentos que se multiplicam na Internet, sem o apoio informal de internautas anônimos ou semi-anônimos.

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