quinta-feira, 25 de abril de 2013

ROBERTO CARLOS EM RITMO DE CENSURA


Por Alexandre Figueiredo

Roberto Carlos sempre foi uma figura conservadora. Mas, até 1976, ele poderia estar associado a uma modernidade cultural relativa, através de uma sonoridade pop que havia se tornado quase inédita no nosso Brasil. Quase inédita, vale lembrar.

Afinal, antes de Roberto se tornar o ídolo da juventude, outro cantor havia feito esse papel, Sérgio Murilo, conhecido por músicas como "Marcianita" e "Broto Legal". Na pré-Jovem Guarda, Roberto ainda era membro de uma banda, os Sputniks, cantava também Bossa Nova e sua gangue juvenil, além do parceiro Erasmo Carlos, tinha também como membros Jorge Ben Jor e Tim Maia.

Roberto tem seus mistérios. Até hoje ele não deu uma explicação definitiva de por que seu primeiro LP, Louco Por Você, lançado no movimentado e subestimado ano de 1961 - época de Yuri Gagarin, Jânio Quadros, João Goulart, John Kennedy, Che Guevara, Audrey Hepburn, Natalie Wood etc - , e que foi digitalizado de forma caseira e difundido clandestinamente pela Internet.

Um motivo provável é que Louco Por Você não é um disco autoral de Roberto, já que todas as canções do disco são de autoria alheia - embora subentende-se que talvez Roberto já tenha composições próprias guardadas - e o disco praticamente foi gravado sob orientação de Carlos Imperial, radialista e produtor que havia empresariado o cantor capixaba.

Mas o disco chega ser bem melhor que vários trabalhos que Roberto gravou nos anos 80, época de sua crise criativa, e mesmo os boleros e rocks (naquela linha ingênua pós-Paul Anka) são bastante simpáticos e divertidos, e a faixa-título, "Louco Por Você", poderia ser um clássico da pré-Jovem Guarda, prenunciando o estilo do cantor. E o vinil, raríssimo, costuma custar uma fortuna nos sebos reais e virtuais.

É certo que o rock introduzido por Roberto Carlos já como ídolo da Jovem Guarda - após deixar para trás um Sérgio Murilo que, fazendo turnê na Argentina, acabou sendo esquecido pelo mercado brasileiro - , em 1964, era muito comportado se comparado com o que se fazia, por exemplo, no Reino Unido.

Só para se ter uma idéia, naquela Inglaterra em começo de Beatlemania, o The Who, "provisoriamente" rebatizado como High Numbers, apavorava as famílias com as baterias ágeis de Keith Moon, o baixo vigoroso de John Eintwistle, as guitarras barulhentas de Pete Townshend e o vocal ora suave, ora gritado de Roger Daltrey.

No Brasil que ignorava o rock psicodélico já dando o ar de sua graça nos EUA e Reino Unido de 1964, preferia desenvolver seu rock nativo com influências duvidosas de Pat Boone e até do doo-wop dos Platters, enquanto um Rolling Stones se servia de Muddy Waters e Howlin' Wolf e de uma leitura mais crua do skiffle, um quase equivalente britânico do rock estadunidense dos anos 50.

Mas, em todo caso, era válida a relativa modernidade da JG que apenas de forma muito leve assimilava influências psicodélicas, como "Hang On Sloopy", dos McCoys, cuja versão brasileira foi "Pobre Menina", com Leno e Lillian, e "Pushin' Too Hard", dos Seeds, que virou "Vou Lhe Contar", com Wanderleia. Houve também a breve e curiosa fase psicodélica de Ronnie Von, um fracasso comercial que depois virou cult.

Isso sem falar dos Mutantes que havia introduzido por definitivo a psicodelia brasileira, dentro de uma criatividade rara que conquistou, mais recentemente, os estrangeiros, e que só a indigência da indústria fonográfica fez o grupo gravar seu primeiro disco em 1968, pois ele deveria ter sido lançado um ano antes. Mas isso é outra história.

Dentro desse contexto Roberto Carlos migrou da fase Jovem Guarda - em que ele assimilava de forma parcial influências de Beatles e Elvis Presley - , cortejada pelo Tropicalismo, para a fase soul, considerada a mais criativa do cantor. Até mesmo a canção religiosa "Jesus Cristo", gravada em 1969, é na verdade um tremendo soul arrasa quarteirões, tamanho o arranjo feito à música, junto ao coro poderoso.

Mas, em suas entrevistas, Roberto Carlos já deixava transparecer que era um homem de direita, logo no auge da ditadura militar, e em 1976 ele trocou a fase soul pelo romantismo piegas que fez a alegria de imitadores como Paulo Sérgio e lançava outros como José Augusto e Fábio Jr.. Era época em que as rádios controladas por oligarquias despejavam sucessos da música brega para o "povão" se esquecer da MPB.

Além disso, foi a partir dessa fase de 1976, quando a Rede Globo se comportava como se fosse o "coronel Tom Parker" do "Elvis brasileiro", que o cantor capixaba passou a mostrar suas manias e excentricidades. E o cantor passou a ter um zelo excessivo à sua imagem, mesmo sendo uma figura pública de grande projeção em todo o Brasil.

A CENSURA

Não bastasse a censura que o cantor fez à publicação do livro Roberto Carlos em Detalhes, de Paulo César Araújo, o "Rei" havia mandado retirar de circulação o livro Jovem Guarda: Moda, Música e Juventude, originária de uma tese de mestrado da professora da FAAP (Fundação Armando Álvares Penteado), por apresentar aspectos da vida particular dele.

Roberto não abre o jogo sequer para suas superstições, como a predileção pela cor azul, ou mesmo seus cuidados com a perna mecânica. Ele sofre de Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC), mas não quer que a imprensa faça qualquer menção ao assunto.

São aspectos que nada têm de escandalosos, diante da figura sempre comportada do cantor capixaba. Perto do que são vários astros de Hollywood, são aspectos tolos de serem censurados. Perde até mesmo para a "escandalosa" vida de senhoras bem-casadas que várias "musas" do "funk carioca" ditas "solteiríssimas" vivem, com seus maridos morando em lugares ignorados pela imprensa.

O CASO DE PAULO CÉSAR ARAÚJO

Talvez Paulo César Araújo tenha sido mais feliz no seu livro sobre Roberto Carlos do que no livro sobre os ídolos bregas, Eu Não Sou Cachorro, Não. Não li o livro dele sobre Roberto, mas no livro sobre os ídolos cafonas ele perdeu muito tempo com um factoide de estudantes da PUC de Belo Horizonte e comparações tendenciosas da música brega com a canção de protesto, em teses bastante discutíveis e sem objetividade.

No entanto, é um exagero que PC Araújo seja visto como um "semideus" por uma intelectualidade mediana que, dentro de um contexto ainda conservador e provinciano da sociedade brasileira, está sedento de algum maniqueísmo.

Mesmo dentro de uma situação desconfortável de se posicionar contra o "Rei", a intelectualidade cultural dominante assumiu tal postura. Afinal, para ela Roberto Carlos era uma espécie de paradigma do que ela entendia como a "modernização da música brasileira", com uma defesa inspirada pelo carisma do cantor intermediado pelo movimento tropicalista.

Só que Paulo César Araújo tornou-se seu "guru" por ter sido o pioneiro da choradeira que se faz hoje das tendências derivadas da "cultura" brega, sejam os primeiros ídolos cafonas, seja o "funk carioca", como se a mediocrização cultural travestisse ídolos bem-sucedidos em "coitadinhos injustiçados".

É evidente que, no entanto, o livro sobre Roberto não deveria ter sido censurado. Paulo César, com todos os senões, tem total direito de lançar o seu livro. Nota-se que a censura de Roberto Carlos acaba, pelo seu moralismo rigoroso, fazendo propaganda de Paulo César Araújo e, em contrapartida, transformando este último em "herói", fortalecendo ainda mais sua aura mitológica frente à intelectualidade dominante.

É como as leis da "Bancada da Bala" (formada por políticos oriundos da polícia) proibindo os "bailes funk". Às vezes reacionarismo demais favorece o oportunismo daqueles que fizeram trabalhos de gosto ou crédito discutíveis, mas que se tornam "semideuses" por atenderem a necessidades imediatas de uma elite de admiradores e seguidores.

Entre o "Rei" e o "semideus", existe a mesma devoção, dentro de um Brasil tomado ainda de um forte conservadorismo provinciano, que se expressa até para assimilar novidades de fora, de uma forma bastante distorcida e "moderada".

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