sexta-feira, 19 de abril de 2013

ROBERTO CARLOS E OS INTELECTUAIS ETNOCÊNTRICOS


Por Alexandre Figueiredo

O episódio de Roberto Carlos e sua biografia não-autorizada, feita pelo historiador Paulo César Araújo, representou, de alguma forma, um divisor de águas quanto à postura da intelectualidade etnocêntrica, de orientação pós-tropicalista, em relação ao cantor capixaba considerado o "Rei" da música brasileira.

O fato é conhecido. Paulo César resolveu lançar uma biografia, que resultou no livro Roberto Carlos em Detalhes, em que o historiador entrevistou vários cantores e personalidades, mas encontrou dificuldades em entrevistar o próprio cantor. Com prazo para publicação, o escritor resolveu montar a biografia assim mesmo, sem fazer qualquer consulta ou entrevista ao "Rei".

Só que Roberto soube que a biografia foi lançada à sua revelia e moveu seus advogados para banir a comercialização do livro. A alegação é que Roberto não gostaria de ver publicados certos fatos de sua vida particular descritos no livro, e até hoje sua comercialização se encontra proibida. Ironicamente, o livro está tão ausente do mercado quanto o primeiro LP do "Rei", Louco Por Você, de 1961.

Até ocorrer esse episódio, Roberto Carlos era uma unanimidade entre os intelectuais de orientação pós-tropicalista, por intermédio de Caetano Veloso, um dos entusiasmados defensores da obra do "Rei". Roberto teria também, por sua popularidade transitando entre os eruditos e os pobres, influenciado o crescimento da música brega, através de imitadores como Odair José, Paulo Sérgio e José Augusto.

Roberto era quase um padrinho de um Tropicalismo que depois se tornou acomodado, como o próprio "Rei", que a partir de 1976 passou a ter uma carreira de altos e baixos, depois de uma excelente fase soul (1969-1975) que se sucedeu à carismática fase levemente roqueira (1961-1968) que o consagrou na Jovem Guarda.

Para os tropicalistas, Roberto introduziu o rock e a guitarra elétrica na cultura brasileira, e se tornava um elemento-chave para as polêmicas causadas entre a Tropicália (1967-1969) e a ala pós-cepecista da MPB, considerada bastante engajada e hoje duramente criticada pelo status quo intelectual de hoje.

No entanto, quando Roberto, que desde 1970 assumia posturas ideológicas bastante conservadoras, decidiu, há poucos anos atrás, processar Paulo César Araújo, o coração da intelectualidade etnocêntrica ficou partido. De imediato, a intelectualidade festejada e divinizada pelo seu poder de visibilidade fácil, decidiu ficar do lado de Paulo César Araújo, que havia escrito antes um livro sobre os bregas.

Paulo César Araújo adquiriu ainda mais poder no status quo acadêmico através da polêmica. Há uma estratégia na "cultura dos coitados" vigente no Brasil em alguém se passar por "vítima" para levar vantagem na vida. Com o livro Eu Não Sou Cachorro, Não, Paulo já havia levado vantagem nessa estratégia.

Ele havia alegado que o livro sobre os bregas partiu de uma tese de pós-graduação feita "sem qualquer recurso financeiro" para a Universidade Federal Fluminense. Mas, observando que, entre as instituições que financiam tais projetos, está a Fundação Ford, dá para perceber que o livro teria sido patrocinado de forma indireta pelos herdeiros de Henry Ford, que viam no brega a fiel tradução do hit-parade dos EUA.

Mas, oficialmente, Paulo César Araújo "não" recebeu investimentos do capital estrangeiro "nem" apoio da grande mídia. Como a cineasta Denise Garcia, para falar de "funk", também "não". O que é estranho, uma vez que o capital estrangeiro adora o brega e seus derivados (como o "funk"), porque é uma "cultura" comercial, sem muita identidade sócio-cultural e ideologicamente inofensiva aos detentores do poder.

Na nossa conclusão, o episódio de Roberto Carlos deu em empate. Ambos saíram errados. Roberto com seu extremo rigor no zelo de sua vida pessoal, Paulo César tirando vantagem de sua imagem de "vítima" e fazendo sensacionalismo de seu próprio trabalho. Enquanto isso, seus respectivos fãs seguem em cada idolatria e devoção.

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