domingo, 21 de abril de 2013

PINTURA PADRONIZADA DOS ÔNIBUS DO RJ ESTARIA ESCONDENDO CORRUPÇÃO


Por Alexandre Figueiredo

Feito sem consultar a população, a pintura padronizada adotada nos ônibus do Rio de Janeiro pode estar escondendo um esquema de corrupção que está por trás dos acidentes constantes que os ônibus cariocas sofrem nos últimos meses.

Só desde o começo deste mês, dez pessoas morreram em vários acidentes envolvendo ônibus cariocas, inclusive na Zona Sul. Uma das vítimas fatais foi uma produtora da Rede Globo de televisão, atropelada por um ônibus da Transportes Futuro, enquanto ela passeava de bicicleta numa avenida do Leblon.

Mas o acidente que deixou mais vítimas foi o da Transportes Paranapuan, no viaduto Brigadeiro Trompowsky, adjunto à Av. Brasil e que liga o Bonsucesso à Ilha do Governador. Foram oito mortos, sete deles no mesmo dia do acidente. Num outro acidente, uma jovem foi atropelada enquanto passeava em Quintino por um ônibus da Viação Rubanil, morrendo dias depois, no hospital.

Pode parecer besteira associar tudo isso à pintura padronizada, em que pese o aspecto sujo de seu design, que dá um caráter de velho em poucos meses. A arrogância de uma elite de busólogos, entre eles um ligado a uma prefeitura da Baixada Fluminense, envolvido numa série de trolagens e atos de intolerância contra seus colegas de hobby desde 2008, forçou essa falsa impressão.

PREFEITURA DO RIO SE ACHA "DONA" DOS ÔNIBUS MUNICIPAIS

No entanto, é verdade. Afinal, analisemos as coisas não pela aparência ou pelo discurso direto, mas pelo sentido oculto da Comunicação. A padronização visual, que as autoridades adotaram arbitrariamente a pretexto de "reordenação do sistema", na verdade é uma propaganda política da Prefeitura do Rio de Janeiro, que traz uma série de desvantagens e serve para enganar a população.

Em primeiro lugar, as empresas de ônibus perderam o direito de apresentar suas respectivas identidades visuais. Quem pensa que mostrar sua identidade visual é só um privilégio, se engana completamente, porque a identidade visual requer mais responsabilidades pelo serviço, e facilita o reconhecimento imediato dos passageiros, que não possuem os conhecimentos técnicos que a tal elite de busólogos possui.

Além de ser uma medida contrária aos princípios de licitação, a pintura padronizada mostra que não traz qualquer tipo de transparência administrativa. Afinal, a medida se carateriza em "mascarar" as diferentes empresas de ônibus num mesmo visual, conforme critérios que variam entre tipo de ônibus ou região de bairros etc.

A imagem da prefeitura, disfarçada pelo pretexto dos "consórcios", é clara quando o logotipo da mesma aparece com maior ênfase do que o nome da respectiva empresa operadora. A empresa vence a licitação mas não tem direito de mostrar sua imagem ao passageiro. Na prática, a prefeitura se julga "dona" das frotas de ônibus, como um latifundiário que se apropria do gado de outros fazendeiros.

Se uma mesma máscara acoberta diferentes empresas, não há transparência. Não existe transparência escondendo os outros, daí não fazer sentido a interpretação contrária, dita pelas autoridades se aproveitando da ignorância coletiva.

Pensemos bem. Se você está cheio de compromissos pessoais e vai pegar um ônibus no Catumbi, por exemplo, não existe diferença entre um ônibus da Auto Viação Tijuca que passa pela linha 229 (Castelo / Usina), um da Real Auto Ônibus pela linha 110 (Rodoviária / Leblon) e um da Auto Viação Alpha da linha 202 (Rio Comprido / Praça 15).

Afinal, todos têm a mesma pintura, e não é sempre que você está no ponto recebendo o ônibus chegando à sua frente. Achar que passageiro de ônibus só reconhece um veículo nessa posição é simplório e equivocado. Se alguém vê o ônibus de longe ou de trás (não raro as bandeiras são desligadas, se digitais, ou exibem lona verde, se tradicionais), as dificuldades de reconhecimento são grandes.

IRREGULARIDADES

A medida da padronização visual nos ônibus está associada a um modelo de mobilidade urbana imposto pela ditadura militar, em 1974, a partir das políticas do arquiteto e político Jaime Lerner, originalmente ligado à ARENA e prefeito biônico de Curitiba.

São Paulo também implantou o seu durante a ditadura, através do prefeito e banqueiro Olavo Setúbal, dono do Grupo Itaú, e politicamente ligado a Paulo Egydio Martins, empresário que nos anos 1950 havia presidido a UNE na breve experiência udenista da instituição estudantil, foi ligado à ARENA durante a ditadura e hoje, bastante idoso, é filiado ao PSDB.

Junto à pintura padronizada - entendida como um "fardamento" do transporte coletivo - é apenas o detalhe principal de um projeto que inclui toda uma lógica militar imposta para o transporte coletivo municipal ou intermunicipal.

Nesse tipo de sistema, a Secretaria de Transportes, embora se autoafirme como "simples reguladora do transporte", assume uma clara concentração de poder, atuando de forma ditatorial e militarista no sistema de ônibus. Isso não se torna eficaz, porque a autoridade se torna excessiva, o que não significa que as responsabilidades e os compromissos possam ser realmente cumpridos.

Daí as irregularidades que acontecem, às costas da população. Desde 2010, quando o "novo" sistema foi implantado no Rio de Janeiro, uma linha para o centro carioca mudou de empresa sem que o passageiro comum soubesse, que é a linha 296 Castelo / Irajá. Uma empresa mudou de nome, de Viação Saens Peña para Viação Nossa Senhora das Graças, e os passageiros foram os últimos a saber.

A padronização visual acoberta ônibus com documentação vencida, permite que ônibus sejam liberados para circulação mesmo com muitas multas, e até mesmo ônibus piratas são inseridos nas frotas de ônibus já que uma mesma pintura confunde os passageiros, que já não conseguem mais ver a diferença entre empresas e por isso não tem condições de avaliar criticamente o serviço.

Enquanto isso, ônibus com documentação vencida ou cheios de irregularidades no trânsito são mantidos em circulação. Motoristas continuam adotando dupla função (dirigir e cobrar passagens) até em veículos que possuem assento para cobrador. Os motoristas também têm um horário rígido a cumprir, e como há muito congestionamento no trânsito, a velocidade dos ônibus é aumentada para não haver atrasos.

É tudo isso que está provocando os inúmeros acidentes. Pintura padronizada que esconde a identidade das empresas dos passageiros. Motoristas com rotina de trabalho opressiva. Ônibus com documentos vencidos e que circulam até amassados e cheios de arranhões. Acidentes que assustam os cariocas.

Enfim, são problemas que mostram a inviabilidade desse sistema implantado arbitrariamente em 2010 pelo grupo político de Eduardo Paes e Sérgio Cabral Filho, que mostraram sua indiferença com o interesse público e com a lei no episódio da Aldeia Maracanã.

As autoridades ainda vão pensar em "melhorar" esse sistema, quando o melhor seria retomar ao que era antes dos "consórcios". Afinal, o sistema de ônibus carioca já viveu tempos bem melhores, seus defeitos não eram tantos assim. Havia diversidade visual, maior transparência e os motoristas não sofriam tantas pressões. E os ônibus eram bem mais conservados.

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