sexta-feira, 19 de abril de 2013

OS PROBLEMAS DOS ÍDOLOS BREGAS "ADOTADOS" PELAS ESQUERDAS MÉDIAS


Por Alexandre Figueiredo

Pode até ser coincidência, mas a maior parte dos ídolos bregas apreciados pela intelectualidade etnocêntrica, incluindo as chamadas esquerdas médias - dotadas de uma postura por demais moderada - sempre acaba mostrando alguma postura problemática, como se fosse uma advertência ao equívoco das esquerdas apreciarem esses ídolos patrocinados pela mídia direitista.

Desde que Paulo César Araújo e Hermano Vianna passaram a defender ídolos bregas como se fosse "o moderno folclore pós-moderno brasileiro", a intelectualidade se acostumou a uma visão oficial de que o brega é o destino final da cultura popular brasileira, visão que, sabemos, tem interesses políticos e mercadológicos em jogo.

No entanto, vários incidentes envolvendo ídolos bregas acabam arranhando toda essa campanha apologética, o que repercute mal na própria intelectualidade que a defende, uma vez que esses cientistas sociais e jornalistas culturais dotados do privilégio da visibilidade acabam evidenciando o erro de suas posições.

O primeiro caso envolveu o próprio Waldick Soriano, um dos pioneiros do brega. Conhecido pela postura bastante conservadora, incluindo um moralismo machista e um direitismo político simpatizante da ditadura militar, Waldick chegou a ter vídeo, em duas partes, de uma entrevista no programa TV Mulher (Rede Globo) disponíveis na Internet.

Nestes vídeos, Waldick assumia tais posturas conservadoras. Os vídeos haviam sido colocados pela Globo Vídeos em 2008, mas, em virtude da "reabilitação" do cantor feita por Paulo César Araújo (tido como "unanimidade" anos depois do livro Eu Não Sou Cachorro Não e pouco depois de ser vítima de um processo judicial de Roberto Carlos, de quem escreveu biografia não-autorizada), o vídeo simplesmente sumiu.

O sumiço do vídeo também pode ter uma relação direta com a atriz Patrícia Pillar, estrela da Globo, que deve ter feito um lobby para dar o sumiço prematuro do vídeo, já que ela havia feito documentário sobre o ídolo brega. No entanto, os linques dos dois trechos da entrevista apareceram na busca de vídeos do Google (não confundir com o YouTube, por incluir outros serviços de vídeos digitais).

"CANSEI", "KONG" E HOMOFOBIA

Nem é preciso falar de outros "queridinhos", como o cantor Odair José, religioso conservador, o É O Tchan, extremamente machista, a oportunista Ivete Sangalo e o inexpressivo Michel Teló, até porque são posições sem muita repercussão. Mas outros "queridos" da música brega cortejados pelas esquerdas médias apresentaram posturas problemáticas ao longo dos anos.

Primeiro foi Zezé di Camargo & Luciano que, apesar de serem astros da Globo, terem feito seu filme biográfico pela Globo Filmes e votado em Ronaldo Caiado para deputado, foram superestimados pela opção de terem votado em Lula para presidente da República.

A coisa só não chegou ao ponto de associá-los erroneamente ao Movimento dos Sem-Terra porque as esquerdas médias, que geralmente compartilham dos mesmos conceitos e preconceitos da direita mais flexível, não se simpatizam com o MST, tido como "ninho de agitadores".

No entanto, logo após o sucesso do tal filme, Os Dois Filhos de Francisco, dirigido por Breno Silveira, o principal cantor da dupla, Zezé di Camargo, passou a militar no movimento moralista "Cansei", que pedia o impeachment de Lula. Seu irmão não participou para poupar sua imagem. Mais tarde, investigações apontaram que a dupla também foi financeiramente favorecida pelo "mensalão" de Marcos Valério, esquema de corrupção que inspirou o "Cansei".

A funqueira Tati Quebra-Barraco, cortejada pela intelectualidade como símbolo de "modernidade" e "ousadia", depois de tantas defesas surreais que a intelectualidade fazia à cantora, enriqueceu, consumiu a grana toda em plásticas e lipoaspirações e nunca mais lançou um outro sucesso além de "Sou Feia Mas Tô Na Moda", "Boladona" e alguns outros do seu tempo de ídolo badalado pela mídia.

Outro funqueiro, Mr. Catra, que chegou a ser considerado "à margem da mídia" mesmo frequentando programas da Rede Globo, e também "queridinho" da intelectualidade festiva, além de seu perfil machista e mulherengo se envolveu no incidente do clipe "Kong", do cantor Alexandre Pires, no qual o funqueiro participa na gravação. O clipe contou também com a participação do jogador de futebol Neymar.

O Ministério Público apontou que o clipe e a música do ídolo do sambrega faziam alusão ao racismo - na famosa comparação pejorativa aos macacos - e ao machismo, já que o clipe mostrava mulheres "gostosas" sugerindo uma imagem de objetos sexuais.

Mais recentemente, foi a vez da cantora Joelma, da dupla central que faz frente na Banda Calypso, formada com seu marido Chimbinha, guitarrista do grupo. Ela havia dado declarações contrárias ao casamento de pessoas do mesmo sexo, através das seguintes palavras: "Já vi muitos se regenerarem. Conheço muitas mães que sofrem por terem filhos gays. É como um drogado tentando se recuperar".

Numa época em que a Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados é presidida por um pastor evangélico de posições racistas e homofóbicas, enquanto, em contrapartida, a cantora baiana Daniela Mercury assume sua homossexualidade, a declaração de Joelma repercutiu negativamente até mesmo entre pessoas receptivas a ídolos popularescos, como Adriane Galisteu.

Com tudo isso, o brega-popularesco nem de longe representa alguma rebelião sócio-cultural, nem muito menos política. Como cultura, sempre se moveu a base do jabaculê radiofônico e agora acadêmico, e ideologicamente, é tão conservador quanto qualquer "urubólogo" da imprensa política dominante. A intelectualidade etnocêntrica errou feio, pagando o preço caro da visibilidade facilmente adquirida.

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