quarta-feira, 17 de abril de 2013

OS DISCURSOS IDEOLÓGICOS DO NEOLIBERALISMO CULTURAL


Por Alexandre Figueiredo

A grande mídia não difunde seus valores ideológicos apenas na sua agenda política. A cultura tornou-se, como se vê em vários textos deste blogue, o último refúgio das manobras das classes dominantes, já que o jornalismo político anda sendo muito visado pela opinião pública nos últimos anos.

As classes dominantes quiseram oprimir as classes populares pela economia. Não conseguiram, ante a revolta popular que se refletiu na mudança de postura das instituições e leis correspondentes. Depois tentaram oprimir pela política. Não conseguiram, ante a gravidade da violação dos direitos humanos. Agora tentam fazê-lo pela cultura, através da mediocrização e imbecilização.

E houve uma intelectualidade, no Brasil, que ainda exerce posições hegemônicas no debate cultural brasileiro, que, herdeira de posições neoliberais, já começa a deixar de exercer influência no pensamento de esquerda, se contentando em expressar suas visões da "cultura das periferias" na grande mídia.

Mas até pouco tempo atrás eles conseguiram dominar até mesmo os círculos esquerdistas, enquanto estes não tinham uma postura definida quanto à cultura que o Brasil realmente precisa desenvolver. E aí, visões que encaixariam perfeitamente até nos salões do Instituto Millenium eram gratuitamente veiculadas pela revista Fórum, pela Caros Amigos e pelo jornal Brasil de Fato, e, antes ainda, até pela Carta Capital.

Não deu certo. E mesmo quando essa intelectualidade anunciava a "morte do mercado" e o "fim da mídia", ela na verdade anunciava a sua ressurreição, na medida em que pregava valores puramente mercadológicos, claramente associados a ritmos como "funk", axé-music, "sertanejo" e "forró eletrônico" (com o tecnobrega de carona). É o "negócio da música", estúpido!

Só que esse discurso, que toma como base maior o pretexto da "diversidade cultural", que não passa de uma mera desculpa para inserir fenômenos comerciais de valor artístico e cultural duvidosos no "primeiro time" da MPB, não conseguiu esconder seu DNA originário das pregações de Fernando Henrique Cardoso, José Serra e seguidores.

INTELECTUALIDADE PRÓ-BREGA FALA "NEOLIBELÊS"

Afinal, a "diversidade cultural" é uma alegação que encontra paralelo nos argumentos de "livre iniciativa", "democracia" e "liberdade de expressão" defendidos, respectivamente, pelo discurso da economia, política e mídia neoliberais. No âmbito da vulgaridade feminina, a alegação de "liberdade do corpo" segue o mesmo sentido.

Isso prova, por A mais B, que intelectuais tipo Paulo César Araújo, Hermano Vianna, Pedro Alexandre Sanches, Ronaldo Lemos, Eugênio Arantes Raggi e Milton Moura, entre tantos outros, falam neolibelês, camuflado numa postura tão falsamente esquerdista que mais parece ter vindo da coluna do Agamenon Mendes Pedreira, o fictício jornalista criado pelo Casseta & Planeta.

A "liberdade" associada a todas essas alegações - "diversidade cultural", "liberdade do corpo", "livre iniciativa", "democracia" e "liberdade de expressão" - só serve para os detentores do poderio político, econômico e midiático, juntamente com seus (não-assumidos) seguidores intelectuais, justificarem o estabelecido na sociedade, por mais nocivo que este seja às classes populares.

Não há um benefício real numa "diversidade" que aniquila a verdadeira diversidade cultural, que proíbe as classes populares de produzir uma cultura relevante, vibrante e progressista mas a deixa refém de uma ideologia do "mau gosto", do "pitoresco", do sensacionalista, do piegas e de tudo que é brega e cafona.

Ver que o povo pobre está proibido de exercer a herança cultural de seus antepassados - proibição defendida sutilmente pelo MC Leonardo, o '"ativista" funqueiro protegido de um cineasta ligado ao Instituto Millenium - , o rico patrimônio cultural popular hoje "privatizado" por especialistas, é muito triste.

Além disso, que diversidade cultural é essa em que uma Ivete Sangalo grita como se fosse cantora dos Aviões do Forró, Alexandre Pires e Daniel soam essencialmente iguais, Michel Teló, na música "Humilde Residência", mais parece Thiaguinho, e onde se criam genéricos no "funk carioca", jogando uma MC Anitta no lugar de uma MC Perlla que "descobriu" Jesus?

A própria intelectualidade dá o mesmo tom de dramalhão para Waldick Soriano e Tati Quebra-Barraco, em que pese a inicial resistência em reconhecer o "funk carioca" como um derivativo da música brega, que comprovadamente herdou muitas referências ligadas ao brega, sejam elas sociológicas ou mesmo musicais, com ecos de Odair José no "funk melody" e referências a Gretchen e à "boquinha da garrafa" nas "popozudas".

Portanto, isso não é diversidade cultural. Até porque todo o brega-popularesco é empurrado de forma praticamente uniforme para o consumo das classes populares, com base na glamourização da pobreza e da ignorância promovida por esses intelectuais badalados e dotados de muita visibilidade na mesma grande mídia cujo vínculo eles ainda têm muita vergonha em assumir, embora recorram bastante a ele.

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