segunda-feira, 29 de abril de 2013

O "PÓS-MODERNISMO" DE RESULTADOS


Por Alexandre Figueiredo

Vivemos uma crise cultural no Brasil. Essa é a verdade. Mas uma crise motivada pela banalização extrema dos processos comportamentais do pós-moderno, principalmente no que diz na produção de "polêmicas" e "provocações" que, de tão banais, são inócuos e nada polêmicos nem provocativos.

O que se vê é a propagação de um "pós-modernismo de resultados", de um "tropicalismo de resultados" em que o ato de provocar é muito mais importante do que a causa que se quer defender, muitas vezes de gosto realmente duvidoso e importância desprezível. A polêmica, em vez de se tornar um processo de promoção de uma causa, passa a ser o fim em si mesmo.

É o que se vê em muitos episódios relacionados a polêmicas forjadas, supostos escândalos que já não escandalizam demais, e que apenas temperam a habitual tragicomédia de um país ainda conservador e provinciano como o Brasil, sem deixar algum rastro de reflexão definitiva no grande público e mesmo na chamada "opinião pública" mais influente.

Banalizam-se erros, maldades, crimes. E, por conseguinte, banaliza-se também o ato de provocar. Fazemos Contracultura num copo d'água, em factoides tolos tidos como "subversivos" pela intelectualidade dominante cheia de tanto discurso, vazia de realismo. Nada de transformador ou transgressor acontece, apesar das promessas de uma delirante intelligentzia de superestimar certos incidentes momentâneos.

A "CULTURA DA VAIA" E A MERCANTILIZAÇÃO DA POLÊMICA

De repente, ser vaiado ficou "genial". Ser "polêmico" tornou-se mais vantajoso do que ganhar o Oscar, o Grammy ou o Nobel da Paz. Isso produz uma "cultura da vaia" em que escandalizar por nada virou o princípio maior, na verdade não gerando escândalo algum, mas apenas falsas polêmicas em que o grotesco se aproveita disso para vender uma imagem de algo "transgressor" ou "revolucionário".

Muitos querem ser Oswald de Andrade, agindo como Lady Gaga. Ou então querem ser Noam Chomsky, agindo como Gerald Thomas. A polêmica como um fim em si mesmo cresce de forma avassaladora que ameaça até mesmo o potencial crítico do tropicalista Tom Zé, um dos remanescentes do pensamento crítico na música brasileira.

Tom Zé lança seu novo disco cercado de jovens artistas "performáticos", de uma "EMoPB" dita "fora do eixo" que está dentro do eixo da indústria cultural e da mídia. A veia crítica de Tom Zé, acusado de "vendido" por participar de um comercial da Coca-Cola, começa a se esvaziar quando assimila influências de "funk carioca" e dá um tom crítico mais ameno, por influência de gente como Emicida e companhia.

O problema é ver as "problemáticas" deixando de serem problemas, até virando "soluções" ou "salvações da lavoura". Num contexto de glamourização da pobreza através da "cultura de massa" brega-popularesca, o que se vê é que muita gente resolveu "escandalizar por escandalizar", sem saber que isso não transforma a sociedade e apenas banaliza o processo de provocação e transforma a polêmica em mercadoria.

Todo o discurso do brega-popularesco se baseia nessa glamourização da pobreza, da ignorância e da mediocridade sócio-cultural das classes populares, em que "ser vaiado" e "levar pau da crítica" tornam-se pretensos atestados de genialidade. De Waldick Soriano a Tati Quebra-Barraco, passando por Amado Batista, Zezé di Camargo & Luciano e Mr. Catra, todo mundo explorou essa imagem de "coitadinho".

INTELECTUALIDADE DOMINANTE NÃO QUER MELHORIAS CULTURAIS

De repente, o povo passou a ser visto como "melhor do que tem de ruim". A intelectualidade dominante passou a combater todo tipo de proposta de melhoria cultural através do questionamento da breguice hegemônica na mídia.

Criou-se uma linha de pensamento em que a Bossa Nova, os Centros Populares de Cultura e mesmo o Movimento de Cultura Popular de Paulo Freire são vistos pejorativamente por uma elite de pensadores dotados de visibilidade e prestígio, mas herdados de uma perspectiva lançada por acadêmicos como Fernando Henrique Cardoso e Roberto Campos aplicada à cultura popular.

Segundo essa linha de pensamento, qualquer defesa de melhoria cultural é vista como "preconceituosa", "purista" e "elitista", que supostamente iria eliminar a "pureza inocente" das classes pobres. A intelectualidade associada a esse padrão de pensamento acredita que as baixarias e breguices "fazem parte" da "inocente criatividade" das populações pobres, expressão de uma "felicidade popular" de uma concepção idealizada das periferias.

Por isso há essa inquietude de intelectuais acusarem de "preconceituosas" as abordagens contrárias à breguice dominante. Os intelectuais só admitem "melhorias" quando elas não rompem com o status quo popularesco, de preferência dando evidência do apoio das elites intelectuais ao "coitado" brega-popularesco, "ensinando-o" a tornar sua "cultura" mais "sofisticada" e "relevante".

Através dessa ótica, a intelectualidade defende e "relativiza" a degradação social e moral das populações pobres, através dessa visão de "inocência" e "pureza" das tais periferias. Com isso, valores associados naturalmente ao machismo são associados supostamente ao "feminismo" através de mil artifícios, da mesma forma que as baixarias são vistas como "transgressoras", por elas serem vistas como "sem culpa".

O poder midiático é absolvido, apesar de claramente influenciador do processo. Ele "não existe" na dita "cultura" popularesca. Com isso, se cria um discurso em que se evocam pretextos modernistas e tropicalistas para justificar a breguice dominante. Daí o "pós-modernismo" de resultados ou o "tropicalismo" de resultados.

CONCLUSÃO

Isso nada contribui para transformar a cultura brasileira. Apenas cria um verniz "transgressor" para a mesmice midiática. O ato de provocação torna-se mercadoria, produto de consumo, esvaziando seu sentido social, até porque as "causas" em questão são puramente inócuas e nada transgressoras.

O que é a vulgaridade machista de Nicole Bahls e o pretensiosismo machista de Gerald Thomas senão dois lados de uma mesma mercadoria, a "polêmica" feita produto de consumo? Se Gerald foi bastante machista, Nicole veio com o traje especializado, ela que há muito cultua essa imagem de mulher-objeto que deprecia tanto a mulher brasileira quanto as taras do diretor teatral.

Portanto, tudo isso acaba sendo apenas mero espetáculo consumista. Algo que os pensadores mais conceituados do exterior já questionam, dentro de seus contextos na Europa e nos EUA. Mas aqui tudo é glorificado e exaltado, porque é "popular e polêmico", quando tudo se torna apenas um desfile de factoides inúteis que causam até mesmo desperdício de teses acadêmicas, movidas por delírios retóricos-metodológicos.

No fim, tudo isso só alimenta a grande mídia, feliz com essa falsa "diversidade cultural" e seu circo de falsos escândalos, falsas polêmicas, falsos debates e falsas provocações. Tudo fica na mesma, e as elites dominantes se enriquecem ainda mais com esse espetáculo todo que envergonharia Guy Debord se ele fosse brasileiro e vivesse nos dias de hoje.

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