sábado, 27 de abril de 2013

O MODELO "INTELECTUALOIDE" DE REGULAÇÃO DA MÍDIA


Por Alexandre Figueiredo

Aparentemente, toda a sociedade que se diz democrática está à favor da regulação da mídia, fora uns reacionários histéricos que acham que isso é censurar a "liberdade de informação". Mas diante de uma adesão superficial de segmentos nem tão progressistas assim, a desconfiança é inevitável. Afinal, a aparente adesão muitas vezes esconde cobranças e imposições condicionadas pelo suposto apoio a uma causa.

O que as esquerdas médias, condescendentes à "cultura de massa" por influência de uns pseudo-esquerdistas originários do tucanato acadêmico e midiático, entendem por regulação da mídia? Como elas têm que se manter na pauta progressista, elas não iriam se dizer contra a causa, nem abrir o jogo sobre que condições exigem para defender a causa, elas normalmente silenciam sobre o que realmente querem.

Mas, vendo as agendas discursivas da intelectualidade dominante que guia as esquerdas médias quase como um vaqueiro conduzindo um gado de ovelhas, já dá para inferir como será a regulação da mídia que essa intelectualidade e os esquerdistas médios tanto sonham. Tomemos como modelo de mídia a televisão, que é o principal meio de comunicação e um dos mais influentes no mercado e na sociedade:

1) Sua programação terá que exaltar a pobreza não como um problema, mas como um estado de espírito. As favelas não são vistas como construções problemáticas, mas como arquitetura pós-moderna. Deve-se exaltar a pobreza e acreditar na facilidade no assistencialismo paliativo como "solução definitiva" para os problemas sociais.

2) Os noticiários deveriam ser um cruzamento entre o Cidade Alerta da TV Record (foto) e os noticiários da TV Brasil. Entre uma notícia sensacionalista - tipo "seu Zé colocou seu 'pinto' no seguro" - e outra criminal, veicula-se notícias sobre sucessos na Economia, projetos educacionais para as escolas públicas e matérias com pessoas trabalhadoras sorridentes de uma periferia "feliz".

3) Os comentaristas políticos e econômicos dos jornalistas deveriam, além de informar objetivamente dados do governo petista, fazer uma abordagem quase sempre elogiosa, apenas permitindo críticas menores se houver alguma descompostura, como por exemplo o apoio a pessoas moralmente preconceituosas como Jair Bolsonaro e Marcos Feliciano.

4) As atrações musicais devem enfatizar os estilos popularescos, desses que aparecem facilmente nas rádios FM. A MPB autêntica ou mesmo o antigo folclore popular devem ser exibidos apenas de noite, a partir de 21 horas, para não assustar ou confundir o "povão", que não consegue mais entender os próprios legados culturais de seus antepassados. Portanto, deve-se mostrar o "funk carioca", o "pagode romântico", o "sertanejo", o "forró eletrônico" e os "clássicos do brega" porque o povo pobre não entende sua própria cultura, só entende o pop e os sucessos radiofônicos. A música brasileira de qualidade, mesmo os sambas de roda, os baiões etc, só mesmo no fim de noite, para quem "se interessar".

5) Não meça problemas para exibir glúteos de mulheres "turbinadas" na televisão. Sendo isso um fenômeno "popular", exibe-se à vontade, sem moderação. Se a criançada se assustar, os adultos devem lhes dizer que aquelas mulheres-objetos são "feministas" porque não dependem de homem para fazer sucesso e que elas mostram seus "dotes" para sustentar a mãe doente, os irmãos e os afilhados, e que várias daquelas "boazudas" haviam trabalhado como babás, frentistas, domésticas, diaristas etc.

6) A programação esportiva pode ser dotada de muito ufanismo, muito bairrismo e muito fanatismo esportivo, com direito a transformar jogadores de futebol em "apolos" modernos. No entanto, tudo deve ser temperado por algum tipo de romantismo comparativo aos anos dourados da Copa de 1958 e, antes de mais nada, algum assistencialismo que exalte o esporte como salvação na vida de crianças carentes. Quanto aos esportes olímpicos, deve se enfatizar o bom mocismo de atletas com aquele jeito asséptico de heróis da produtora de desenhos animados Filmation falando para seus espectadores: "Você já escovou os dentes hoje?".

7) Os programas de entrevistas deveriam mostrar líderes comunitários ou ativistas dentro de uma perspectiva de elogiar a pobreza e desenvolver uma imagem por demais positiva da miséria. Nada de discutir problemas sérios, apenas enunciá-los o tempo suficiente para que o apresentador  possa apontar alguma solução paliativa do Estado.

8) Reality shows estão liberados assim como insinuações "eróticas" nos humorísticos. Só existe a proibição de fazer piadas homofóbicas ou de qualquer discriminação social, mas mostrar glúteos femininos e fazer piadas "sensuais" de duplo sentido está bastante permitido. Também é permitido mostrar atrações popularescas como convidados, geralmente de forma elogiosa ou divertida e dando espaço para números musicais.

Com isso, a "regulação da mídia" sonhada pelas esquerdas médias e pela intelectualidade dominante só representará mudanças pontuais para a grande mídia. Mas ela não é muito diferente da condescendência que Dilma Rousseff e seu ministro das Comunicações Paulo Bernardo já fazem pela grande mídia, embora se posicionem contrários à Lei dos Meios.

A grande diferença está na falsa adesão à causa do marco regulatório, desde que seja apenas para aparar algumas sujeiras dos meios de comunicação, criando apenas uma pálida alternância entre um ativismo social pasteurizado e a manutenção das baixarias de sempre.

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