quarta-feira, 24 de abril de 2013

O MERCADO QUER CASTRAR O PENSAMENTO ACADÊMICO


Por Alexandre Figueiredo

O capitalismo estrangeiro estaria investindo na castração do pensamento acadêmico, impedindo que surjam, no Brasil, abordagens críticas como as que se vê, no Primeiro Mundo, através de pensadores como Noam Chomsky e Umberto Eco.

Não bastasse a vaidade das elites acadêmicas em recusar-se a competir em inteligência com aspirantes a Mestrado e Doutorado, há a condição imposta pelas instituições estrangeiras "filantrópicas", como Fundação Ford e Soros Open Society, de que os projetos acadêmicos evitem ser os mais contestatórios na medida do possível.

Tais entidades estrangeiras estariam financiando toda uma blindagem intelectual que se compromete tão somente a fazer apologia da pobreza e da ignorância populares, dentro de teses já conhecidas nos meios acadêmicos através da Teoria da Dependência do sociólogo e ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Segundo essa teoria, o Brasil só deve ser politicamente emancipado e economicamente dotado de uma relativa prosperidade, que não possa fazer frente às grandes potências, e ainda por cima sua cultura deva ser enfraquecida, submetida às regras de mercado e desprovida de qualquer produção efetiva de conhecimentos e valores sociais, além de romper com vínculos sociais comunitários.

Hoje, as "comunidades" são convidadas pela grande mídia e pelo mercado a romperem seus vínculos sociais e substituir os antigos processos pelo compartilhado consumo de "valores culturais" difundidos pela grande mídia "popular", seja ela de caráter nacional ou regional.

De bandeja, a intelectualidade precisa adotar um discurso falsamente progressista, dentro de clichês de um ativismo internacional neoliberal, em que até mesmo conceitos de "novas mídias digitais" difundidos em nada diferem essencialmente da propaganda das grandes multinacionais da telefonia atuantes no Brasil.

GLAMOURIZAÇÃO DA POBREZA

Os projetos acadêmicos precisam seguir um modelo de abordagem social que se limite a estudar, de caráter descritivo e quase nunca contestatório, os fenômenos diversos relacionados às classes populares em curso no Brasil.

Há as manifestações remanescentes de antigas expressões folclóricas, divulgadas para que investidores estrangeiros estudem um meio de "modernizá-las" sob o pretexto de "perpetuá-las". Mas há também as chamadas manifestações da "cultura de massa", como o "funk carioca", que se tornou a prioridade dessas entidades estrangeiras.

Afinal, ao lado de tradicionais elementos da cultura popular a serem tendenciosamente explorados e pasteurizados pela intelectualidade comprometida com o neoliberalismo, o "funk carioca" encaixa perfeitamente no modelo ideológico de George Soros, da Fundação Ford e outras entidades do tipo, pelo discurso dúbio e pelos simulacros de "ativismo", "rebeldia" e "modernidade" que o ritmo carioca trabalha.

O "funk carioca" em nada causa incômodo ao mercado nem ao poder midiático dominante. Em nada, vale lembrar. Ele apenas cria simulacros de elementos supostamente arrojados e polêmicos, mas que não causam ruptura alguma com o status quo e ainda por cima favorecem o próprio mercado.

O "funk carioca" representa, para a intelectualidade, uma forma politicamente correta de glamourização da pobreza, como um meio de evitar as tensões do conflito de classes, criando um pseudo-ativismo que se carateriza simplesmente pelo consumo de seus produtos "culturais", dentro de uma retórica sofisticada que, embora confusa e contraditória nos argumentos, é ricamente construída.

"PROBLEMÁTICA" SEM PROBLEMAS

Seja para evocar a religiosidade de áreas rurais, seja para evocar valores culturais autênticos, mas inofensivos ao "sistema", seja para exaltar fenômenos da "cultura de massa" dentro de narrativas "plagiadas" do New Journalism de Tom Wolfe e da mentallité de Marc Bloch, a intelectualidade brasileira é, em maioria, "aconselhada" a evitar qualquer abordagem contestatória nas produções acadêmicas.

A ideia é trabalhar "problemáticas" que não apresentem problemas, que permitam até mesmo um enunciado que prometa uma "reflexão crítica", um ponto de vista "provocador" ou um "estímulo ao debate e à reflexão", mas que não passam apenas de promessas vãs que na verdade ocultam a verdadeira intenção de exaltar o "estabelecido".

As instituições universitárias que produzem tais teses, diante dessa condição, acabam determinando o "embelezamento" pretensamente científico de suas teses, ocultando um conteúdo nada científico que apenas analise, em caráter descritivo, a fenomenologia sócio-cultural dos diversos agentes da sociedade brasileira.

AJUDINHA DA REDE GLOBO

Nesta "problemática sem problemas", as Organizações Globo, sobretudo através da Rede Globo de Televisão, contribuem com as elites acadêmicas na elaboração de um perfil de "cultura popular" que seja corroborado pela intelectualidade dominante, dentro de um projeto de glamourização da pobreza e na promoção de um "inconsciente coletivo" que possa disfarçar o poderio midiático dominante.

Afinal, a Globo tornou-se capaz de lançar hábitos, ideias, conceitos e estereótipos que o público assimila sem se dar conta de que foi a grande mídia "global" que o fez pensar assim. E, em se tratando de uma "cultura popular" estereotipada e pasteurizada, a atuação da Globo em promover esse "inconsciente" se torna bastante eficaz, já que até psicólogos são contratados para a Globo para fazer consultoria.

Através desse "inconsciente", a classe acadêmica sustentada pelo capitalismo estrangeiro - mas tentando fazer proselitismo nos setores medianos das esquerdas - cria um paradigma de "cultura popular" bastante inócuo que, mesmo não correspondendo à realidade concreta em primeira instância, torna-se um modelo de compreensão "verossímil" e "eficiente" no respaldo da sociedade.

Desse modo, o poder midiático que castra o pensamento crítico acadêmico, barrando da pós-graduação mentes "incômodas", tenta legitimar seu modelo de "cultura popular" através de uma construção da "realidade" que encontre sustentação na grande mídia de forma que a maioria da sociedade dificilmente possa perceber. Mesmo as esquerdas médias.

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