quarta-feira, 3 de abril de 2013

O ESTEREÓTIPO "ROQUEIRO" E OS EVENTOS INTERNACIONAIS


Por Alexandre Figueiredo

"Existe um erro clássico nas grandes empresas quando se metem com Rock, que é fazer uma coisa festiva, engraçada, de patricinhas bonitinhas, quando na verdade Rock é Zappa, Rock é Renato Russo, Rock é Beck e Jeff Beck, e Filosofia, Política, Economia, Estudos Sociais, existência, nada a ver com esse mundo perfeito de mulheres deliciosas e chocolates alucinantes que estão associados ao Rock pela mídia convencional".

A frase em questão pode parecer de um simples internauta desses que, mesmo com uma visão mais coerente das coisas, é facilmente atacado por troleiros que se julgam "donos da verdade" e defendem o "estabelecido" com unhas e dentes.

Sim, foi um internauta que escreveu isso, mas não é qualquer um. Luiz Antônio Mello é blogueiro, responsável pela Coluna do LAM que se dedica a vários assuntos, mas com ênfase na cultura rock, mas também é um jornalista e radialista com larga experiência em vários setores da mídia.

Para quem não sabe, Luiz Antônio criou a Rádio Fluminense FM, uma das poucas emissoras de rádio que trabalhou a cultura rock de forma não-estereotipada no Brasil, e que nunca se preocupou em usar o nome "rock" em logotipos de impacto ou em vinhetas em que um cara parece pronunciar a "palavrinha mágica" como se estivesse soluçando, mais parecendo "wrock" que "rock".

Infelizmente, a Fluminense FM não está mais no ar, apesar de ter ganho, no ano passado, um evento comemorativo de ponta que ensinou às gerações recentes como funcionava uma rádio realmente de rock. Mas nem sequer rádios similares se encontra hoje em dia, para substituir a saudosa emissora niteroiense.

Em vez disso, o que se tem são tentativas pontuais de compensar sua ausência, ou então oportunismos de emissoras comerciais de donos politiqueiros, como é o caso da paulista UOL 89 FM e como foi, em meados dos anos 90, a mudança de perfil da Rádio Cidade, no Rio de Janeiro.

Rádios assim trabalham a imagem do jovem roqueiro como se fosse um cruzamento de um delinquente com um débil-mental, com alguns aspectos infantilizados e domesticados. A 89 FM, em que pese os ataques forçados ao segmento de pop dançante, sempre trabalhou sua linguagem neste mesmo perfil, em vez de fazer um diferencial como o que marca, até hoje, a saudosa Fluminense.

Mas as distorções não se limitam a uma locução debiloide que contagia até o suposto punk Tatola e a programas tolos como "Esquenta" - que mais parece uma genérico do Pânico da Jovem Pan 2 (o mesmo que tem versão televisiva na TV Bandeirantes) - , mas aos aspectos ideológicos determinados de forma "descompromissada" pela 89 e suas congêneres.

Seus aspectos ideológicos incluem um simulacro de rebeldia que envolve uma índole temperamental e um niilismo político que, embora supostamente averso aos clichês do direitismo, adota uma postura golpista principalmente quando prefere reivindicar a extinção do Poder Legislativo a pretexto de combater a corrupção.

"ROQUEIRO" DE MERCADO

O perfil, ao mesmo tempo delinquente e domesticado, do jovem "roqueiro", é moldado para atender aos interesses de mercado e expressa o poderio midiático que está por trás dessa "saudável cultura rock". A UOL 89 FM tem seu pano de fundo empresarial historicamente associado à ditadura militar e ainda por cima conta com Otávio Frias Filho como atual parceiro da empreitada.

Afinal, é um perfil mais próximo das finalidades de consumo que os estereótipos garantem do que de uma valorização de um tipo natural de jovem rebelde. O rebelde natural pode até ser influenciado pela mídia e pelo mercado, mas possui uma relação autônoma e crítica com os mesmos.

O que não é o caso dos "roqueirinhos" da 89. Eles mantém uma relação subserviente com os valores da mídia e do mercado, assumindo ícones de rebeldia de maneira superficial e hipócrita, como na suposta admiração de Che Guevara, facilitada pelo fato dele estar morto há muito tempo. No entanto, eles são capazes de idolatrar uma Yoani Sanchez com muito gosto.

O simulacro de rebeldia não exclui um reacionarismo doentio, o que faz com que esse público seja uma espécie de versão "punk" de Reinaldo Azevedo e Eliane Cantanhede. Submissos à mídia, são capazes no entanto de fazer trolagem, o que pode ficar complicado hoje depois de sancionada a lei contra crimes na Internet.

Em todo caso, é um reacionarismo suficiente para que esses jovens supostamente rebeldes sirvam de blindagem para os abusos do poder midiático, mesmo quando tentam dar a impressão contrária. Afinal, por mais que digam que odeiam Luciano Huck, se inspiram justamente nele para montar seu vocabulário, cheio de "baladas", "galeras", "véios", "brous", "irados" e "shows de bola".

Até mesmo os hábitos desses "roqueiros" são muito estranhos para o perfil verdadeiramente roqueiro, como o fanatismo por futebol, devido às parcerias que as ditas "rádios rock" e os dirigentes esportivos - sobretudo pelo DNA malufista que envolve o dono da 89, José Camargo, e o presidente da CBF, José Maria Marín - feitas para chamar mais gente para os estádios.

Os eventos internacionais veem nesse perfil caricato do jovem roqueiro uma mina de ouro. Cria-se uma rebeldia de fachada, uma rebeldia sem causa mas bastante temperamental, compensando a falta de inconformismo e senso crítico com um pavio curtíssimo. Ótimo para sair às ruas defendendo os interesses dos barões da grande mídia e para torrar dinheiro com muito consumismo.

Trata-se de uma rebeldia de mercadoria, em que o visual torna-se o mais arrojado possível, para compensar uma mentalidade retrógrada que somente o decorrer da vida adulta poderá evidenciar. Mas esse estereótipo "roqueiro", ótimo para as empresas que promovem shows internacionais no Brasil, nada representam de transformador em valores sociais nem na superação de ideias retrógradas.

Antes esses "rebeldes" de fachada, completamente cordeirinhos ao poder midiático, representassem apenas uma nova maneira de se expressar ideias retrógradas e comportamento reacionário, com as devidas adaptações que o clichê rebelde pode permitir.

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