sábado, 13 de abril de 2013

NICOLE BAHLS, GERALD THOMAS E O MACHISMO CONTEMPORÂNEO


Por Alexandre Figueiredo

O incidente entre Gerald Thomas e a paniquete Nicole Bahls, ocorrido na noite de anteontem na Livraria da Travessa, no Rio de Janeiro, não requer maniqueísmos. Mas há uma tentação em parte da opinião pública em criar esse maniqueísmo, até mesmo nas esquerdas médias, embora aparentemente não havia um texto sistemático nisso.

Antes de detalharmos isso, avisamos, para quem chegou da viagem, que no incidente Gerald Thomas, conhecido diretor e autor teatral, afeito a uma polêmica bem nos matizes chamados "pós-modernos" de banalização da vanguarda e do escândalo, num sensacionalismo pretensamente cult, estava lançando um livro, Arranhando a Superfície, quando a equipe do programa Pânico na Band se aproximou dele.

Gerald Thomas parecia contraditório, no seu misto de revolta e rendição. Ele quis agarrar Nicole Bahls como um valentão queria agarrar uma menina pequena pelo qual se sentia sexualmente atraído. A atitude de Gerald Thomas foi extremamente machista, pretensamente provocativa e cínica, e apenas resultou, como em toda atitude "polêmica" e "pós-moderna", a uma controvérsia sem muito sentido.

Mas quem imagina que Nicole Bahls representava, dentro desse teatrinho maniqueísta, a imagem do "feminismo oprimido", se enganou. O conflito não era entre machismo e feminismo, mas entre dois lados de uma cultura machista que só causa problemas, quando há um grande choque de interesses, já que o único problema estava mesmo é que Gerald Thomas queria forçar o assédio à moça, que não o queria.

Nicole Bahls também é uma musa da mídia machista, e naquele evento ela, como sempre, vestia roupas sumárias. Consta-se que ela só se veste discretamente em dias de muito frio, mas naquela ocasião, o de um lançamento de um livro numa livraria conceituada como a Livraria da Travessa, não era para ela estar vestida assim, mesmo quando fazia o papel de "repórter sensual" de um humorístico.

Os partidários de Nicole Bahls e de Gerald Thomas tentam dar suas respectivas rotulações aos respectivos ídolos. Os de Nicole a definem como uma "feminista dotada de liberdade do corpo" e os de Gerald o definem como um "intelectual vanguardista arrojado e polêmico". Nem um, nem outro.

No machismo contemporâneo, associado a um contexto pós-tropicalista tanto da parte do "erudito" Gerald quanto da parte da "popular" Nicole, os dois lados tentaram disputar para ver quem é que ganha uma imagem de "transgressor" na opinião pública, e na opinião pública média, a vitória aparentemente é da paniquete, que "enfrentou" o assédio de um diretor teatral prolixo e arrogante.

No entanto, o que se viu foi um empate. Nicole errou feio, porque mesmo naquele contexto "sensual", vestiu de forma apelativa demais, não bastasse o corpo siliconado e anabolizado que ela exibe que a faz "cheinha" demais. E errou Gerald Thomas, porque foi mais um ato de "provocação gratuita" que ele fez.

Vale aqui dizer que Gerald Thomas tornou-se a banalização, desde os anos 90, do vanguardismo cultural dos anos 60, levando ao extremo a atitude de provocar e chocar o público. Chega a um ponto que essa provocação, quando se torna gratuita, perde o seu sentido expressivo, pois a provocação como um fim em si mesmo elimina o sentido da arte e transforma a polêmica num mero produto.

Deve-se tomar cautela com o episódio. Não houve maniqueísmos. Nicole não foi a mocinha inocente assediada sexualmente por um diretor teatral decadente, mas uma mulher a serviço da imagem mercadológica da sensualidade, que reduz o corpo feminino a um objeto de consumo.

Se Gerald Thomas agiu feito um machista assanhado, Nicole também fez por onde para se envolver nesse escândalo. Ela acaba pagando o preço caro das mulheres que "sensualizam demais", como tantas outras que não foram assediadas por diretores teatrais, mas tiveram fotos reproduzidas em propagandas de prostíbulos europeus. É o espetáculo do machismo contemporâneo.

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