segunda-feira, 1 de abril de 2013

GRANDE MÍDIA E CONSTRUÇÃO DE UM "IMAGINÁRIO" JUVENIL


Por Alexandre Figueiredo

O que a "rádio rock" UOL 89 FM, o apresentador Luciano Huck e o programa humorístico CQC (TV Bandeirantes) têm em comum? São fenômenos da grande mídia monopolista que, no Brasil, buscam desenvolver um "imaginário" juvenil de verniz "rebelde", "arrojado" e "consciente", mas altamente conservador.

A grande mídia e seus barões não vivem somente de jornalistas políticos, e eles são considerados muito "acadêmicos" para exercer sua influência no grande público, seja entre jovens ou entre pobres. Afinal, uma figura como Merval Pereira, com a aparência de um antigo barão do começo do século XX, ou de Miriam Leitão, com seu jeitão de anciã, não iriam atrair de forma alguma esses públicos.

A grande mídia precisa desenvolver outros setores para exercer sua dominação com mais eficiência. E, além do mais, mesmo com as vitórias que um Ali Kamel e uma Folha de São Paulo conseguem ter na Justiça, em processos violentos contra blogueiros influentes, a grande mídia têm o preço de se desgastar diante da opinião pública, já que acaba expondo sua truculência jurídica de uma maneira ou de outra.

A decisão da Folha de São Paulo em criar um programa numa emissora de TV educativa não é um acaso de uma natural vocação multimidiática, mas uma forma de compensar o desgaste de reputação devido à pressão da blogosfera, que é combatida através dos citados processos judiciais contra gente influente como Paulo Henrique Amorim, Rodrigo Vianna e Luiz Carlos Azenha.

Do mesmo modo, a Folha de São Paulo cria um polo de influência sobre o público juvenil não só de São Paulo, mas do Brasil, através da participação acionária da rádio 89 FM, agora UOL 89 FM, que sempre tratou a cultura rock de maneira estereotipada, bem ao gosto dos reacionários associados a interesses das classes dominantes.

PROCESSO HIPNÓTICO

Imagine o reboliço que se deu quando a 89 FM anunciou sua volta como "rádio rock", com a "ajuda" de Otávio Frias Filho? O rótulo "rock" é capaz de exercer um processo hipnótico em parte da juventude brasileira, capaz de se escravizar a qualquer veículo de mídia que usasse a palavra "rock" como bandeira de causa.

A situação é tão grave quanto Luciano Huck determinar, sozinho, o padrão de comportamento e de consciência social que deve exercer os jovens brasileiros, assim como a forma com que programas como CQC e Zorra Total trabalham o humor e a sátira política, onde preconceitos sociais e valores ideológicos conservadores se dissolvem dentro de piadas cínicas e supostamente engraçadas.

O CQC, pelo seu humor "arrojado", que revelou o "talento" de Rafinha Bastos - um bully humorístico, machista e falsamente nerd - , tenta desnortear com suas piadas o senso crítico da política e do mundo das celebridades, da maneira que o público acabe, por fim, cortejando ídolos popularescos, mulheres popozudas e políticos neoliberais.

Algo semelhante é visto na UOL 89 FM, onde um astral por demais "engraçado" para os parâmetros de uma rádio de rock é trabalhado para criar no jovem brasileiro uma consciência social restrita a medidas banais de cidadania toleradas pelo poder midiático e um niilismo político que carrega no cinismo e na arrogância, ao mesmo tempo que cria uma mentalidade golpista contra a corrupção político-partidária.

Desenvolve-se, assim, um inconsciente coletivo nos jovens brasileiros que, na aparência, não elimina o caráter de rebeldia ou de engajamento. Os jovens até reforçam a aparência rebelde ou arrojada, com um vestuário o mais informal possível ou, em certos casos, com algumas "excentricidades", além de uma linguagem que abusa da coloquialidade e chega ao nível de palavrões e agressividade verbal.

Geralmente o conservadorismo ideológico não é muito definido através desses jovens. Há quem acredite, mesmo na blogosfera esquerdista, que são poucos os jovens reacionários. Talvez até sejam, mas o poder aglutinador que eles exercem nas redes sociais, com sua "irreverência", é capaz de atrair amigos e simpatizantes a defender causas reacionárias ou abordagens retrógradas de certos fenômenos na vida.

São jovens que, na forma, procuram dar a falsa impressão de que são "progressistas". Dizem "abominar" o imperialismo econômico e figuras como George W. Bush e José Serra, mas seu discurso soa bastante forçado e oportunista. Dizem gostar de Che Guevara, mas isso é muito fácil para quem é morto e não oferece mais perigo para a sociedade reacionária.

No entanto, acabam sentindo simpatia também de Yoani Sanchez, o contraponto ultraconservador do castrismo cubano do qual Che, de origem argentina, fez parte. Contraditórios, esses jovens precisam de ícones juvenis antagônicos entre si, mas que dão sempre um aparato de "coisa moderna" entre eles, protegidos pela "questão de idade" cantada por Renato Russo na música "A Dança" da Legião Urbana.

Até no "funk carioca" essas contradições aparecem, num simulacro de consciência social que não questiona a hegemonia midiática. E, no caso do "rock da 89 FM", foi simbolizado pelo Charlie Brown Jr. do falecido Chorão, cuja "consciência social" não apresentava um discurso claro e, sob o pretexto de obter visibilidade, se apresentava confortavelmente nos palcos de Xuxa, Luciano Huck e Fausto Silva.

Portanto, o desenvolvimento desse inconsciente juvenil, que no fundo só abomina direitistas como José Serra mais por verem nele um "palhaço" do que uma figura reacionária, também rejeita causas como a regulação da mídia, vista por eles como um "processo ditatorial estatista-partidário".

São jovens rebeldes na forma, conservadores no conteúdo, futuristas na aparência mas na essência são medievais. Eles serão os Reinaldo Azevedo, Miriam Leitão e Ali Kamel do futuro, com suas ameaças ao interesse público, defendendo os interesses das elites dominantes. Hoje eles convencem com sua pouca idade e retórica rebelde, mas, "passando dessa fase", se tornarão abertamente conservadores.

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