sábado, 20 de abril de 2013

"FUNK CARIOCA", CIA E A "URUBOLOGIA" INTELECTUAL


Por Alexandre Figueiredo

Tempos atrás, figuras como a cantora Beth Carvalho e o historiador Sérgio Cabral (pai do governador fluminense) haviam acusado a Central Intelligence Agency, a agência CIA dos EUA, de usar o "funk carioca" para destruir a cultura brasileira.

A tese foi encarada com gracejos pela intelectualidade etnocêntrica brasileira, que achou "um absurdo". Os gracejos claramente "urubológicos", no sentido Merval Pereira e Miriam Leitão do termo, tomavam como pretexto uma interpretação simplória da influência da CIA na "cultura de massa" brasileira.

Para eles, é como se o diretor da CIA estivesse dando ordens diretas para destruir a cultura brasileira. Ele fazia um despacho, dizia o que deveria ser feito no Brasil e, pronto, a cultura brasileira seria primeiro empastelada e depois liquidada por ritmos estrangeiros. Simples assim, não é mesmo?

Mas não é bem assim que acontece. Nem mesmo o IBAD e o IPES, "institutos" que pregavam a queda de João Goulart há 50 anos, eram escritórios diretos da CIA. Nem mesmo o Instituto Millenium. A atuação da CIA é intermediada, porque é necessário que os EUA aparentemente "respeitem" as soberanias nacionais dos países subordinados a seu "império".

Se o "funk carioca", o brega, o "sertanejo", a axé-music e outros ritmos brega-popularescos são usados pela CIA para enfraquecer a verdadeira cultura brasileira - aquela que não se baseia necessariamente em sucesso de vendas, de execução e de plateias - de forma bastante indireta. E, na verdade, tais concepções de "cultura popular" não foram planejadas por técnicos da CIA, mas por brasileiros associados ao processo.

Há uma rede de relações entre a CIA e o consumidor subordinado à ditadura midiático-mercadológica. No Brasil, o que ocorre é que veículos da grande mídia e do mercado associados aos interesses capitalistas dos EUA difundem e promovem o sucesso de tendências popularescas trabalhadas ou retrabalhadas por especialistas e executivos do entretenimento.

A CIA apenas faz o pedido. O receituário é feito por brasileiros. Isso não elimina a participação da CIA, envolvida em objetivos estratégicos, mas o know-how é feito a partir da adaptação que especialistas brasileiros fazem das solicitações das autoridades estadunidenses.

"FUNK CARIOCA"

Faz sentido esses gracejos intelectualoides, que alimentam até mesmo o tendenciosismo do "funk carioca", carro-chefe desse complexo manipulativo do inconsciente popular, porque qualquer factoide ou alusão errônea é feita para promover o sucesso econômico do ritmo carioca e enriquecer seus empresários.

Por exemplo, no sítio Lab Cult, um texto de Gustavo Alonso, então estudante da Universidade Federal Fluminense e também discípulo de Leandro Narloch que Paulo César Araújo ajudou no livro sobre Simonal, Quem Não Tem Swing Morre Com a Boca Cheia de Formiga, havia comparado o "funk carioca" com a Bossa Nova, com direito a tiradas direitistas:

Ele havia perguntado se o que era pior para Sérgio Cabral pai, se era ser comunista, ter uma visão mais próxima de José Ramos Tinhorão - o historiador musical de esquerda espinafrado pela intelectualidade pró-brega "de esquerda" - ou acusar o "funk carioca" de imperialista.

Além disso, Alonso havia classificado de forma depreciativa a MPB autêntica de qualidade, usando aspas no termo "boa" atribuído à música brasileira. Sem detalhar muito, ele não deu qualquer prova contrária à denúncia de Sérgio Cabral, apenas usando a desculpa de que, só porque o samba e a Bossa Nova também eram acusados de "imperialistas", o "funk" é um ritmo "tão bom e brasileiro" quanto os demais.

O "esquerdista" Alonso havia encerrado o artigo com uma pérola quando sonha com um controle da agência norte-americana que ele acredita não existir: "A CIA faria o mundo melhor se tivesse tamanho poder...".

INTELECTUALIDADE COMPROMETIDA

A CIA tenta desenvolver o máximo de sutileza quando o assunto é a deturpação da cultura popular brasileira pela cafonice. Sua atuação, além de ser bastante indireta, dentro de uma complexa rede de relações que uma investigação mais apurada pode esclarecer melhor, tenta ocultar suas manobras em muitas situações.

É o caso da presença de George Soros, o especulador financeiro ligado ao neoliberalismo mais conservador, mas que no momento tenta amestrar os movimentos sociais de esquerda ao redor do mundo (incluindo o Brasil), atuando ao lado de entidades como a Fundação Ford, a Fundação Rockefeller, a Fundação Kellog's, entre outras.

Só que poucos conseguem assumir essa influência, e até agora o que eu notei é que somente o advogado e professor universitário Ronaldo Lemos, propagandista do tecnobrega, e o antropólogo Hermano Vianna, assumem que são financiados por essas instituições.

Numa pesquisa apurada, eu constatei que, muito provavelmente, o historiador Paulo César Araújo, ideólogo da música brega "de raiz" e a antropóloga Mônica Neves Leme, autora de um livro sobre o É O Tchan, teriam sido também financiados por tais instituições, pelo menos a Fundação Ford, através da intermediação da UNIRIO, da parte do primeiro, e Faperj, da parte da última, ambas financiadas pela fundação.

A APAFUNK talvez seja financiada também pelo capital estrangeiro da Fundação Ford, intermediada por organizações não-governamentais. O que se sabe de concreto é que a Central Única das Favelas (CUFA), que estabelece parcerias com a associação funqueira, é assumidamente financiada pela fundação.

Eu tentei pesquisar quem é que financiou ou patrocinou o documentário Sou Feia Mas Tô Na Moda, de Denise Garcia, sobre o "funk carioca". Aparentemente, é uma produção "independente", feita "sem qualquer tipo de patrocínio". Então o leitor, acreditando nessa tese, deve imaginar que o financiamento foi captado por doações ou mesadas dentro de um sistema modesto de arrecadação. Mas isso seria sonhar demais.

Pesquisando sobre o documentário, o que se constata é que o documentário, a princípio, é uma parceria entre as produtoras Imovision e Toscographics, esta empresa da cineasta em parceria com o desenhista Allan Sieber. Houve financiamento do Estado por conta da Lei Rouanet.

O que pode se inferir é a influência das Organizações Globo na promoção do filme (depois exibido no canal pago GNT), uma vez que o documentário seguia a mesma agenda de "cultura popular" em moda na grande mídia, a Toscographics já havia realizado parcerias com a Rede Globo e Denise ter trabalhado na Rede Brasil Sul (RBS), parceira da Rede Globo na Região Sul do Brasil.

As Organizações Globo, sabe-se, são uma corporação nacional de mídia aliada dos interesses norte-americanos, como ocorre em outros países. A corporação foi a maior incentivadora do "funk carioca" e a principal responsável pelo crescimento.

As OG são o grupo empresarial que mais empenha na pasteurização da cultura brasileira, sobretudo contribuindo na "cosmética" da música brega, fazendo-a parecer uma pretensa MPB mais inofensiva e "digestível".

Sabendo dos papéis que as OG fizeram no jornalismo político, dá para perceber que essa pasteurização da música brega, do qual o "funk" faz parte, não é um processo inocente que apenas faz a cultura popular ficar "mais bonitinha".

Afinal, além de ser uma pretensa cultura "asséptica" e estereotipada, a "cultura" brega e seus derivados contribuem para a domesticação das classes populares, para a desqualificação estética da cultura brasileira, incluindo a redução do teor identitário (não ser "brasileira demais") e para o fortalecimento de um mercado dominante que se alimenta do conformismo social.

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