segunda-feira, 15 de abril de 2013

CULTURA POPULAR BRASILEIRA: O PRECONCEITO AUMENTOU


Por Alexandre Figueiredo

Quem fica imaginando que a valorização do brega e de seus derivados fez diminuir ou eliminar o preconceito dos jovens à Música Popular Brasileira, desista. A realidade comprova que isso mais fez aumentar do que diminuir o preconceito à MPB, até de forma bastante piorada.

Prevaleceu, durante dez anos, um discurso intelectual dominante, que, por influência da Teoria da Dependência de Fernando Henrique Cardoso, creditava a "cultura de massa" simbolizada pela música brega e seus derivados (como o "sertanejo", a axé-music e o "funk carioca", entre outros) como o "futuro" do folclore musical brasileiro.

Essa visão, embora dentro de alegações confusas, contraditórias e até falsamente esquerdistas, e fundamentada, além das fronteiras musicais, pela inclinação ao pornográfico, ao pitoresco, ao piegas, ao ridículo e ao patético, em nada contribuiu para a melhoria social das classes populares.

Pelo contrário, o preconceito, que se julgava superado e extinto com esse vislumbre a essa visão midiática do "popular", tornou-se cada vez pior, cada vez mais preconceituoso, mais elitista, mais higienista do que o preconceito, o elitismo e o higienismo que se julgava combater.

Primeiro, porque "perdeu-se" o preconceito contra o que é ruim e medíocre, mas o preconceito contra o que é bom aumentou. Tornou-se "bonito", oficialmente, ver as elites consumindo música brega e admirando celebridades cafonas e ridículas. Mas tornou-se "aberrante" ver um favelado tocando piano e compondo ricas melodias. A sociedade o vê como um ET que deve ser isolado nos círculos privados das elites.

O preconceito hoje cai para a MPB autêntica. A mesma intelectualidade que exalta Waldick Soriano e Tati Quebra-Barraco e vê rebelião social até em canções melosas de Alexandre Pires e Zezé di Camargo & Luciano expressou seu horror moralista contra Chico Buarque, logo ele que, apesar de pertencer a uma elite intelectual, mostrou-se sinceramente identificado com as classes populares.

Caímos na situação um tanto kafkiana, outro tanto febeapiana, de ver uma intelectualidade que se diz de esquerda apoiando direitistas como Waldick Soriano e Odair José (o mais fiel equivalente brasileiro do norte-americano Pat Boone) e espinafrando, até com certa raiva, um progressista sincero como Chico Buarque.

FICAMOS RIDÍCULOS?

A tentativa de dissociar essa intelectualidade pró-brega do tucanato acadêmico tornou-se em vão. Até hoje alguns desses intelectuais ensaiam ataques forçados a direitistas midiáticos como Marcelo Madureira, Marcelo Tas, Eliane Cantanhede e Ali Kamel, ignorando que um dia vão precisar deles mesmos quando voltarem a ter surtos direitistas futuros.

Na hora do aperto, acabamos vendo Paulo César Araújo feliz falando para os veículos das Organizações Globo e todo o discurso pró-brega fantasiado de "crítica cultural de esquerda" transitando solto, com as mesmas palavras, os mesmos acentos e as mesmas pontuações, nos mais reacionários veículos da mídia brasileira, até mesmo nas páginas de Veja. Coincidência?

Quanto à breguice cultural, na medida em que funcionou o discurso de sua apologia, ela não só se perpetuou como se ampliou. Pior: a campanha intelectual, apoiada por celebridades e artistas, acabou representando uma condenação ao futuro cultural brasileiro, e uma avacalhação ao patrimônio cultural popular que hoje se encontra, praticamente, privatizado por especialistas e outras elites apreciadoras.

A apologia à breguice, a pretexto da "ruptura dos preconceitos", na verdade fortaleceu uma visão preconceituosa de cultura popular, na qual o povo só é "melhor e mais autêntico" naquilo que ele faz de pior. O povo pobre só é "legal" quando rebola um "funk", quando se embriaga ao som de um brega, quando gruda seus olhos num jornal policialesco ou na imagem de uma "popozuda" na televisão.

"É o que o povo sabe, é o que o povo gosta", dizem os intelectuais, achando que isso lhes expressará uma "real consciência social" das classes populares. Na verdade, expressa um elitismo rabugento, uma "urubologia" não muito diferente daquela feita por Miriam Leitão e similares, mas servida nos banquetes esquerdistas como se fosse a "fina flor do pensamento cultural de esquerda".

A defesa do brega representou, portanto, a glamourização da pobreza e da ignorância popular. Representou, acima de tudo, a apologia à miséria e à transformação da ignorância e da precariedade sócio-cultural em mercadoria rentável. O ridículo, o piegas, o pitoresco e o grotesco, na medida em que passam a ser vistos como "inerentes" à cultura popular, acabam favorecendo mais ao mercado do que ao povo.

Pensar a melhoria da cultura popular tornou-se, aos olhos desse discurso intelectual, uma manifestação de "elitismo". E esse raciocínio nada tem de progressista, pois, pensando cautelosamente, isso soa o mesmo como dizer que alfabetizar a população é corrompê-la com eruditismo. Argumento hipócrita que só faz fortalecer os preconceitos sociais contra o povo, mesmo sob o falso pretexto da ruptura dos mesmos.

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