terça-feira, 2 de abril de 2013

A INTELECTUALIDADE QUER A MPB SÓ PARA SI


Por Alexandre Figueiredo

A intelectualidade que, até pouco tempo atrás, exercia sua hegemonia nos debates sobre cultura brasileira, e que defendia a "cultura de massa" que rolava solta na grande mídia, já não consegue mais convencer as pessoas do caráter "social" e pretensamente progressista de seus pontos de vista.

Pelo contrário, a cada vez mais nomes como Hermano Vianna e Paulo César Araújo precisam se contentar em falar para as plateias de O Globo, Folha de São Paulo, Veja e Estadão, já que as contradições de seus discursos foram desmascaradas nos círculos esquerdistas onde eles pensavam fazer tranquilamente seu proselitismo.

Não dava mais para defender os aparelhos portáteis de rádio e TV, que veiculavam um conteúdo popularesco bem ao gosto dos barões da grande mídia, como se fosse o "moderno folclore brasileiro". Como não dava mais para botar culpa nas classes populares por causa do que programadores e produtores de rádio e TV, controladas por oligarquias, veiculavam sob o rótulo de "popular".

Também não deu para inverter as reputações de Waldick Soriano, que era direitista, moralista, machista e defensor da ditadura militar, e um Chico Buarque progressista, humanista, humilde mas sensato, capaz de aliar sua formação de elite com sua natural solidariedade às classes populares e sua cultura, sem se confundir a elas.

A intelectualidade festiva, que julgava-se detentora de uma aura de unanimidade e divinismo - vide a maioria dos artigos até hoje publicados sobre Paulo César Araújo, o "historiador dos bregas" - , acusava Chico Buarque de querer se confundir com as classes populares, chamando-o de "elitista metido", mas com gosto se empenharam em confundir o empresariado brega-popularesco com o povo das periferias.

Mas nós sabemos o que essa "maravilhosa" intelectualidade quis com esse discurso que prevaleceu quase imune na opinião pública dominante, por cerca de dez anos, quis com a cultura popular. E que põem em xeque sua suposta solidariedade com a cultura do povo pobre.

TIRANDO DO POVO SEUS TESOUROS

Em seu discurso "dócil" e "solidário", com um quê de retórica "triunfante", esses intelectuais, na medida em que exaltavam a mediocridade cultural do povo pobre, não só musical, mas também comportamental, profissional, moral etc, julgando que o tal lixo cultural escondia "novos valores que não (sic) compreendemos", expressavam seu cruel e nocivo elitismo em palavras doces e atraentes.

Agindo de forma não muito diferente de uma Danuza Leão, nomes como Hermano, Paulo César e Pedro Alexandre Sanches ficavam assustados com a hipótese do povo pobre passar a curtir uma cultura de qualidade e adotar valores morais mais evoluídos. Saltava de suas almas seus instintos elitistas e higienistas cruéis.

Graças a eles, a mediocridade cultural, que quase foi derrotada por uma outra geração de intelectuais, mais consistentes - como Ruy Castro, José Ramos Tinhorão e Dioclécio Luz - , foi prolongada a ponto de fortalecer, da música brega, não só uma geração pseudo-sofisticada dos neo-bregas dos anos 90, mas a geração posterior e "descolada" dos pós-bregas.

Por trás dessa retórica intelectual a favor dos bregas, havia interesses de ampliação e consolidação de seu mercado, que nenhuma retórica "anti-mercado", como a que Pedro Alexandre Sanches tanto pregava, conseguiu desmentir.

Mas, enquanto se defendia o brega e seus derivados para mantê-los no mercado que enriquece seus ídolos, mas também seus empresários, patrocinadores, investidores e até mesmo os barões da grande mídia, a intelectualidade tomava para si todo o patrimônio da música popular brasileira de qualidade, dos primeiros legados folclóricos à sofisticação bossanovista.

A intelectualidade etnocêntrica queria a MPB para si, guardada e apreciada de forma fechada e privativa. Daí que seus intelectuais não queriam mais que o povo pobre fizesse sambas, baiões, maracatus, xaxados, modinhas, catiras, ranchos, toadas etc. O povo que se virasse fazendo engodos como o forró-brega, o "pagode romântico", o "sertanejo" e principalmente o "funk".

Não se reprova que a classe média faça ritmos populares, vide o próprio caso de Chico Buarque bastante talentoso e informado com seus sambas. Mas fica estranho que somente as classes mais abastadas tenham condições de fazer hoje ritmos populares que em outros tempos qualquer pobretão fazia com muita habilidade.

Até mesmo quando a mídia permite que o samba autêntico seja apreciado pelas periferias a situação não é positiva. Afinal, a divulgação limita-se a uns poucos sambistas, e as limitações em torno do samba impedem que o povo conheça sua essência, diversidade e sabedoria.

Infelizmente, o povo pobre acaba não sabendo direito as diferenças entre as várias vertentes do samba, como os lundus, cocos, caxambus, jongos, gafieiras, chorinhos etc. Os poucos sambistas que aparecem nas rádios precisam fazer uma síntese de tudo isso, para apresentar o samba em sua totalidade, mas diante desse ecletismo todo o povo das periferias dificilmente saberá a diferença entre um chorinho e um caxambu.

A elitização do patrimônio cultural brasileiro, privilégio exclusivo de especialistas, acaba criando injustiças para o povo pobre. Essa é que é a verdadeira discriminação. Muitos acham bonito que as elites apreciem o lixo cultural veiculado pela mídia como se fosse "cultura popular", mas essas mesmas pessoas entram em pânico quando alguém diz que o povo pobre merece uma cultura melhor.

Quando se fala em "melhorias culturais", a coisa só é considerada quando os ídolos medíocres da música brega e seus derivados são convidados a fazer uma MPB pasteurizada, algo falsamente "solidário", mas feito somente para alimentar as vaidades intelectuais: "Somos nós que colocaremos os bregas no primeiro time da MPB", dizem.

Acham que o lixo cultural se dá porque "é isso que o povo sabe fazer e é o que o povo mais gosta". Mas, dentro de um contexto de ditadura midiática e pressões da publicidade, quem é que gosta realmente de alguma coisa?

Gosta-se de brega como gosta-se de um automóvel ou sabão em pó, tudo é condicionado midiaticamente, nada é espontâneo, por mais que haja estímulos psicológicos e instintivos para atrair a demanda. Em contrapartida, a cultura de qualidade, mesmo a mais assobiável, torna-se "difícil", marginalizada pela mídia e pelo mercado, para a apreciação privativa das elites intelectuais e seus interesses particulares.

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