quinta-feira, 11 de abril de 2013

A GRANDE MÍDIA E A "COITADIZAÇÃO" DA CULTURA BRASILEIRA


Por Alexandre Figueiredo

Viramos o "país dos coitados". O poder midiático e o mercado deitam e rolam com o culto aos "coitadinhos" que vencem na vida mas se fazem de vítimas de supostos preconceitos, sobretudo usando e abusando desta palavra, como se isso pudesse lhes conferir um suposto "ativismo".

Só no programa de Marília Gabriela, transmitido dias atrás pelo SBT, pelo menos três celebridades se destacaram pelas suas posturas de "vítimas": MC Naldo, Andressa Urach e Léo Santana (foto). Todos justificando seu sucesso por algum sofrimento na vida, um sofrimento que, em vez de ser esquecido em prol do fortalecimento da autoestima, é lembrado como propaganda de seu próprio sucesso.

Desde que programas como Domingão do Faustão e Domingo Legal (de Gugu Liberato) usavam e abusavam da exploração sensacionalista do passado humilde e sofredor dos ídolos popularescos, e desde que Paulo César Araújo elevou esse sensacionalismo aos paradigmas intelectuais dominantes, virou moda ídolos de grande sucesso alimentarem suas vaidades com um passado "sofredor".

Não se trata mais de reconhecer o sucesso com um orgulho comedido, com a consciência de que se tornou popular por alguma vantagem na vida, mas de usar algum momento de sofrimento para fortalecer o sucesso comercial e garantir mais evidência na mídia e no mundo das celebridades.

A mídia trabalha essa "coitadização" da cultura brasileira, que vai desde o já falecido Waldick Soriano até MC Naldo, passando por "mulheres-frutas" e integrantes do Big Brother Brasil. É "popular", então foi "sofredor". E há quem mal consiga disfarçar um sorriso ao ver que seus sofrimentos agora viraram estratégia de marketing.

É o cantor brega que dormiu durante vários dias numa estação de trem, usando a mala de bagagem como travesseiro e algumas roupas como cobertor. É a funqueira que foi diarista, babá, doméstica, faxineira etc. É o ídolo sambrega que passou fome e teve que se virar com pastel de vento e água com açúcar no almoço. É o cara do BBB que perdeu pai, mãe, irmãos. É a "mulher-fruta" que foi estuprada todo dia na infância.

Só que a coisa é mais antiga que se imagina. O esquecido cantor brega Orlando Dias, um dos primeiros sucessos do gênero em 1961, quando não existia os nomes "brega" (difundido em 1972) e "cafona" (lançado em 1962), já havia contado seu dramalhão pessoal quando iniciou sua carreira, em 1958.

Apadrinhado pelo empresário Abrahão Medina - pai do organizador do Rock In Rio, Roberto Medina - , da loja de aparelhos eletrônicos O Rei da Voz, Orlando na verdade era José Adauto Michiles, e seu nome artístico talvez teria sido feito para confundir com o seresteiro Orlando Silva, que naquelas alturas estava voltando às rádios, depois de um tempo fora de atividade.

Conhecido pelos sucessos "Perdoa-me Pelo Bem Que Te Quero" e "Tenho Ciúme de Tudo", Orlando Dias era um ídolo popularesco tal qual Michel Teló no ano passado. Gravou discos com regularidade até pelo menos meados dos anos 70. Morreu em 2001, sem usufruir dos efeitos que a blindagem de Paulo César Araújo havia feito na época em prol da música brega.

Orlando Dias havia dito, em entrevistas, que perdeu vários parentes e uma namorada, e que havia sonhado com o espírito dela dizendo para ele se lançar como cantor. A choradeira garantiu sucesso estrondoso na época, e André Medina, na sua boa-fé, pensou que o sucesso era espontâneo, porque a princípio poucas rádios tocavam as músicas dele.

Mas as filiais de O Rei da Voz tocavam muito seus discos, para quem imagina que brega faz sucesso sem o apoio da grande mídia. Hoje os empresários de ídolos bregas põem seus sucessos primeiro no YouTube e divulgam no Facebook e Twitter, para depois tocarem nas rádios. Mas mesmo assim esses empresários, em si, já são integrantes e aliados da grande mídia.

Pois com o discurso de Paulo César Araújo no livro Eu Não Sou Cachorro Não - editado pela mesma Editora Record que publica livros de Merval Pereira e Reinaldo Azevedo - , a choradeira virou uma campanha dominante que tentou evitar o desgaste da música brega e de seus derivados, graças ao uso banalizado da palavra "preconceito" que prolongou a hegemonia por mais dez anos.

A choradeira envolveu até mesmo o próprio Paulo César Araújo, que disse não ter recebido verbas acadêmicas para o projeto de pós-graduação que gerou o tal livro dos bregas. Mas descobriu-se que ele recebeu verbas da Fundação Ford (então aliada assumida do então presidente Fernando Henrique Cardoso) intermediada por instituições acadêmicas brasileiras.

Mas Paulo insistiu na choradeira dizendo-se ele mesmo vítima de "preconceitos", principalmente quando ele lançou o livro Roberto Carlos em Detalhes, sofrendo problemas judiciais em processos movidos pelo próprio cantor capixaba, que não autorizou a biografia. PC Araújo, queridinho da intelectualidade etnocêntrica, virou o "herói" da ocasião, enquanto o antes superestimado Roberto Carlos virou "vilão".

Mas a choradeira se multiplicou. Envolveu ídolos bregas antigos, breganejos de grande sucesso, funqueiros emergentes, "popozudas" em ascensão. Até mesmo a imprensa policialesca, cujos editores gracejam do povo pobre nos bastidores, se beneficiou disso, já que a "coitadização" da cultura popular resultava diretamente na apologia à pobreza e na glamourização da miséria e da ignorância popular.

Isso provocou um grande retrocesso na cultura brasileira, refém de um discurso intelectualoide dominante e que se fingia não estar vinculado ao poder midiático e ao mercado dominante. Mas estava. Afinal, seus interesses eram claros, de deixar travar a cultura na hegemonia da mediocridade, da imbecilização e da baixa auto-estima, com sua multidão de "coitadinhos" que fazem propaganda de seus antigos sofrimentos.

Essa postura de "coitadinho", no fundo, nada tem a ver com a verdadeira humildade, já que se trata tão somente de uma vaidade às avessas. E ela em nada contribui para a valorização da verdadeira cultura popular nem para a evolução social das classes mais pobres.

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