quarta-feira, 24 de abril de 2013

A "BOA SOCIEDADE", A POLÍCIA E OS "BAILES FUNK"


Por Alexandre Figueiredo

A "boa sociedade" adora o "funk carioca". Ou, se não gosta, acaba favorecendo sua hegemonia de qualquer forma. Até porque as questões de "gosto" ou "mau gosto" tornam-se bastante inúteis, se percebermos que, na "cultura" midiática de hoje, gostar ou não gostar não tem importância, porque "se gosta" ou "não se gosta" por influência da persuasão midiática.

Daí os protestos da "boa sociedade" em relação ao projeto de lei nº 01-00002/2013, de autoria do vereador Conte Lopes (PTB) em parceria com o coronel da PM Álvaro Camilo (PSD). Irônica essa parceria PTB-PSD, mas nada dos tempos de JK e Jango, os contextos são outros e os dois são ligados à polícia (Conte é oriundo da Rota) e ambos fazem parte da "Bancada da Bala" na Câmara de Vereadores paulistana.

A questão é muito delicada. A proposta proíbe a realização de "bailes funk" nas ruas e em lugares públicos da cidade de São Paulo, ou de qualquer outra atividade não-musical, permitindo que providências legais fossem feitas no caso de descumprimento de tais proibições. Estima-se que cerca de 300 "bailes funk" ocorrem na capital paulista e cerca de 9 mil PMs estão previstos para entrar em ação, se aprovada a lei.

A lei precisa ainda de aprovação numa segunda votação na Câmara. A princípio, a maioria dos vereadores aprovou a medida, mas há quem reclame da medida, por causa do "preconceito" contra as populações pobres. No entanto, Conte nem reprova o estilo "funk", mas outras questões que estão por trás.

Daí o aspecto delicado. Afinal, os "bailes funk" são redutos de consumo de álcool e drogas, além de produzirem poluição sonora nas altas horas da noite e da madrugada. O projeto de lei foi elaborado mediante reclamações da vizinhança da barulheira dos "bailes funk", e pelo fato de que qualquer queixa era respondida com ameaças dos envolvidos em tais eventos.

CHORADEIRA

É verdade que, da parte dos autores do projeto, há um certo ranço moralista pelo fato deles terem sido policiais, havendo a perspectiva de repressão da população pobre a pretexto de combater os "bailes funk". Mas, por outro lado, os defensores do "funk carioca", a pretexto de ampliarem seus mercados, se fazem de vítimas e exageram no tom da repressão policial que ocorre nas periferias.

“Eu me revolto porque estão querendo tirar [o funk] de todos os locais, nós também temos direitos e pagamos impostos”, disse uma mensagem enviada pela Internet à Câmara dos Vereadores, com a clara manifestação do desespero dos funqueiros que precisam ampliar suas reservas de mercado.

Evidentemente, a proibição de "bailes funk" poderia ser compensada se tais eventos fossem realizados em casas noturnas com algum esquema acústico que reduzisse a poluição sonora. O projeto de lei é bem vindo, desde que não estimule o abuso da autoridade policial e a repressão caia contra quem não tem a ver com tais "diversões".

MORALISMO EXTREMO FAVORECE O "FUNK CARIOCA"

O "funk carioca" nunca passou de um pop comercial dançante sem qualquer importância. Sua retórica "ativista" e seu pseudo-vanguardismo não foram resultantes de qualquer manifestação de ONGs ou de outros movimentos sociais. Elas vieram com uma "ajudinha" do moralismo da sociedade conservadora.

É bom deixar claro que a sociedade conservadora se divide em duas posições a respeito do "funk". Os conservadores mais ortodoxos rejeitam o gênero, por associarem a ele às classes populares induzidas a consumir o gênero.

Já os conservadores mais heterodoxos, dos quais faz parte a intelectualidade cultural dominante no Brasil, veem no "funk carioca" uma forma de controle social para domesticar as classes populares potencialmente revoltosas. Evidentemente, tentam disfarçar essa intenção com discursos confusamente sofisticados, camuflados de alegações etnográfico-ativistas, mas tal intenção elitista transparece de algum modo.

Com tantas matérias policiais na imprensa, nos anos 90, os empresários do "funk carioca" recorreram a essa campanha apologética dentro de setores conservadores heterodoxos (ou moderados) para promover um discurso "socializante" dotado de um engenhoso suporte midiático e acadêmico que pudesse dar uma imagem "positiva" ao gênero, aliciando os vários segmentos da sociedade.

Portanto, a proibição de "bailes funk" pode ser uma atitude útil à sociedade, mas sempre há o risco do moralismo excessivo alimentar o marketing do "funk carioca", que sempre trabalha sua falsa imagem de vítima para tentar comover a opinião pública. Essa choradeira toda só serve para o "funk carioca", que aposta na apologia à miséria e à ignorância, ampliar seus mercados.

Com os "bailes funk", as elites ortodoxas continuarão dormindo tranquilas. Até porque elas vivem isoladas em suas mansões e seus apartamentos fechados a prova de som. A "boa sociedade" mais flexível também fica feliz com o "funk carioca" por ver o povo pobre aderindo ao seu modelo paternalista de "felicidade popular".

Já a sociedade em geral, o povo no sentido progressista do termo, continuará incomodada com o "funk carioca" se não houver leis proibindo "bailes funk" a céu aberto. E até mesmo as periferias, com pessoas querendo dormir cedo para o trabalho do dia seguinte, também repudiam os "bailes funk", do contrário que os queridinhos da intelligentzia brasileira pensam e pregam.

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