sexta-feira, 12 de abril de 2013

A BANALIZAÇÃO DO "MAU GOSTO" E DA POLÊMICA


Por Alexandre Figueiredo

A tal "ditabranda do mau gosto", incapaz de trazer algo relevante para a cultura popular, tenta se promover através de falsas polêmicas, como se quisesse fazer Contracultura num copo d'água.

Dois episódios marcaram o brega-popularesco e a vulgaridade feminina, num confronto entre os contextos da intelectualidade e da chamada "cultura de massa", onde os pretextos de "provocação" e "polêmica" são usados para defender a cafonice como algo "triunfantemente vanguardista".

Um é a escolha de uma turma de estudantes da Universidade Federal Fluminense, de Niterói, que decidiram ter a funqueira Valesca Popozuda como patronesse de sua formatura. Normalmente, nas formaturas, se escolhe um patrono ou patronesse de uma turma a partir de celebridades acadêmicas. A turma escolheu Valesca Popozuda por representar a "baixa cultura" e a "cultura de massa".

O grupo fez o curso de Estudos de Mídia da UFF cuja caraterística, em tese, é de "estudar novas tendências, mídias e movimentos culturais". Os professores não se opuseram a iniciativa e até apoiaram. E, pelo jeito, a Fundação Ford, que investe na instituição e é historicamente ligada à parceria com intelectuais neoliberais como Fernando Henrique Cardoso, adorou mais ainda. 

Para piorar, a própria funqueira começou a exibir pretensiosismo ao declarar-se surpresa com a homenagem": "Acredito que dará um ótimo estudo! Tenho certeza que eles irão explorar o fato de eu ser mulher, trabalhar com funk, falar de forma liberal sobre o sexo e ser feminista".

Que "feminismo" defende a tal Valesca Popozuda é um mistério, uma vez que ela, na verdade, está associada a um universo machista enrustido, marcado pelas mulheres-objetos e que, associado ao "funk carioca", investe num simulacro de ativismo que não possui qualquer fundamento.

Outro episódio foi o "encontro" entre o diretor teatral Gerald Thomas - conhecido por suas temáticas "pós-modernas" -  e a recém-regressa integrante do Pânico da Band, Nicole Bahls, outro símbolo das mulheres-objetos.

Gerald estava na sessão de autógrafos de seu livro Arranhando a Superfície, quando Nicole chegou para entrevistar o diretor. Devido ao "generoso" vestido azul da moça, Gerald agarrou a moça e enfiou a mão por baixo do vestido. Nicole tentou resistir, mas só depois Gerald parou o assédio. Enquanto Nicole declarou, depois, que ficou "muito triste" com o episódio, o diretor afirmou que gostaria de gerar um filho com ela.

ESGOTAMENTO POP

Assim como no caso da patronesse funqueira, o "mau gosto" tenta forjar polêmicas para dizer que é avançado. Não é. No Brasil soterrado pela breguice cultural que é apoiada até por intelectuais dominantes a serviço (por eles não-assumido) da ditadura midiática, os valores da cultura pop são bastante desgastados.

A impressão que o brasileiro médio tem do brega-popularesco é que ele é a última definição do pop mundial, que inclui elementos pós-modernos associados à polêmica e ao liberalismo comportamental. Só que, numa observação mais cautelosa, esse repertório de comportamentos e atitudes "modernas", que se alternam com outros mais "tradicionais", são coisas muito gastas pelo pop lá de fora.

Se o Brasil se acha numa posição "de ponta" na cultura pop e nas vanguardas pós-modernas, então lhe falta discernir melhor as coisas. Afinal, a banalização do "mau gosto" e da polêmica esvaziam qualquer sentido de rebelião realmente provocativa, já que no nosso país as diferenças entre o "novo" e o "velho" não se encontram muito claras, sobretudo em expressões derivadas do brega.

O "sexismo pós-moderno" de Gerald Thomas sobre o falso feminismo "indefeso" de Nicole Bahls nada traz de realmente revolucionário. É apenas um exagero machista de um diretor "pós-moderno" e um exagero machista de uma paniquete exibir o corpo a toda hora, "sensualizando" na marra. Tinha que dar nesse resultado todo, mesmo.

Da mesma forma, nada existe de revolucionário ou transgressor estudantes universitários escolherem uma funqueira (que por sinal sintetiza a grosseria de Tati Quebra-Barraco e a vulgaridade de Carla Perez dos primórdios do É O Tchan) como patronesse de sua formatura.

O status quo acadêmico não foi abalado e o "funk carioca" nunca incomodou o "sistema", sendo um ritmo que cresceu com o apoio das Organizações Globo, que juntamente com o Grupo Folha construiu esse discurso falsamente ativista para o gênero.

Portanto, que "estudos de mídia" são esses que tão somente reafirmam o estabelecido? A atitude de escolher Valesca Popozuda como patronesse, na verdade, nada tem de anti-convencional. O "sistema" adora essas falsas transgressões, bem mais inócuas do que se imagina.

Num país em que antigos símbolos de modernismo cultural hoje remanescentes, de Ferreira Gullar a Marcelo Tas, descambaram para o direitismo ideológico, é bom desconfiar desses episódios falsamente transgressores. O mercado está rindo daqueles que viram alguma rebelião popular surgir nesses dois episódios, o da UFF e o do Gerald thomas, mas ela não aconteceu.

Em compensação, o "deus mercado" e os barões da grande mídia estão felizes, com essas duas manifestações de puro sensacionalismo, que mantém a imbecilização cultural intata e inabalável.

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