quarta-feira, 20 de março de 2013

VEJA, MC NALDO E "ESSE TAL DE 'HIT-PARADE'"


Por Alexandre Figueiredo

Reconhece-se que as edições regionais de Veja costumam "arejar melhor" do que a edição principal, mas isso não quer dizer que adotem posturas mais progressistas. Como a revista mãe, elas precisam estar vinculadas aos valores ultra-conservadores lançados pela publicação que tem no grotesco Reinaldo Azevedo seu astro principal.

E a Veja Rio do último fim de semana não poderia estar diferente, colocando como matéria de capa o hype do momento, o cantor de "funk melody" MC Naldo, um ídolo que é símbolo do comercialismo voraz que ameaça soterrar a música brasileira.

Afinal, a reportagem mostra todo o processo publicitário que promoveu o cantor, queridinho da Rede Globo e, assim como o cantor de sambrega Thiaguinho, foi brindado com apresentações promocionais cercadas de celebridades "globais".

MC Naldo é o típico ídolo comercial adaptado ao mercado brasileiro, esse mercado estranho onde cantores e grupos lançam sucessivos DVDs ao vivo com os mesmos sucessos e alguma "variação" no detalhe, em vez de trabalhar uma carreira regular de álbuns de estúdio.

Surgido num subúrbio carioca, MC Naldo é brindado com um sucesso que o transformou num dos cantores que mais faturaram em shows no Brasil, faturandoum cachê de 80 mil reais, cerca de 45% do que um Michel Teló fatura por cada apresentação. Mas não há muita diferença entre um e outro, já que a qualidade musical, dentro da mediocridade necessária do nosso "ritipareide", é exatamente a mesma.

Como todo ídolo brega-popularesco, MC Naldo usa a Internet como "ponto de partida" para o sucesso, a partir da sua famosa música, "Amor de Chocolate". O cantor já é milionário, devido ao faturamento que realiza por mês, e Naldo está com mais um sucesso nas rádios, "Meu Corpo Quer Você", na trilha da novela da Rede Globo Salve Jorge, e o funqueiro é contratado pela Som Livre.

A Veja Rio adota todos os ingredientes de uma reportagem sobre um ídolo pop comercial. Fazendo comparções de Naldo com ídolos norte-americanos como Usher, Flo Rida e Chris Brown. Faz um contrabalanço entre a origem humilde do cantor e os bens luxuosos que possui, inclusive um carrão.

Até mesmo o ex-baterista dos Titãs e hoje pesquisador musical, Charles Gavin, admite o caráter comercial do cantor, contrariando a apologia surreal de gente de seu meio, que recusa-se a ver qualquer comercialismo nos ídolos brega-popularescos, tratados como "alternativos" ou "folclóricos" mesmo depois da décima aparição num Domingão do Faustão da vida. Disse Gavin, a respeito de MC Naldo:

"A música dele mistura ritmo dançante, melodia fácil e letras sensuais, elementos da cultura pop que agradam a todos os públicos. É coisa como a Macarena ou o Gangnam Style, do rapper sul-coreano Psy."

Portanto, o "fenômeno" MC Naldo não representa novidade alguma, fora um visual mais arrojado no penteado, na barbicha, nos casacos, coletes e adereços. Musicalmente, não difere de outros funqueiros "melodiosos" como MC Buchecha e MC Coringa. Quanto ao visual, ele apenas traduz no Brasil uma "estética pop" que os EUA já estão cansados de produzir no seu pop comercial.

MC Naldo é uma prova de que o mercadão brasileiro quer investir pesado no hit-parade. Quer cada vez mais marginalizar a cultura brasileira, sobretudo a MPB autêntica, com uma hegemonia cada vez maior dos ídolos brega-popularescos. A blindagem intelectual tentou fazer vista grossa, mas a vontade do mercadão tornou-se mais evidente. Ele não quer cultura, quer consumo.

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