segunda-feira, 18 de março de 2013

UOL 89 FM E A RELAÇÃO DE SEUS DONOS COM A DITADURA MILITAR

JOSÉ CAMARGO - O  empresário da "rádio rock" tem um passado de ligações com a ditadura militar e com o político Paulo Maluf.

Por Alexandre Figueiredo

A ditadura midiática mostra suas sutilezas que vão muito além do noticiário político. Elas promovem um clima de sonho e fantasia, escondendo verdadeiras armadilhas para atrair novas demandas e manter seu poder de domínio na sociedade.

É o caso da UOL 89 FM, lançada como se fosse uma "Disneylândia" radiofônica - não, não se fala na Rádio Disney, apesar das afinidades político-ideológicas - , através do retorno nos 89,1 mhz do FM paulistano daquilo que oficialmente se conhece como "89 FM A Rádio Rock".

A volta, celebrada com comentários exageradamente deslumbrados e sem fundamento, da referida emissora, já começa a sinalizar que a 89 não aprendeu com seus erros, voltando exatamente igual ao que era quando, em crise de reputação e audiência, deu lugar a uma programação pop convencional que durou seis anos.

Quem conhece o histórico de rádios de rock e entende profundamente de cultura rock sabe muito bem que a 89 FM sempre adotou uma postura bastante duvidosa para o segmento rock, inclusive adotando uma linguagem compatível que o logotipo impactuante não justifica, sobretudo com uma locução pop e uma abordagem bastante restritiva ao rock, restrita ao hit-parade e ancorada no comercialismo dos anos 90.

Apesar disso, é hegemônica a visão oficial, sobretudo vinda de pessoas que não entendem de rock ou que são muito novas para entender o que realmente é a cultura rock, de que a 89 FM foi a "melhor rádio rock de todos os tempos". É como se dissesse que o Big Brother Brasil é o "melhor programa da história da televisão brasileira" e achar que Geisy Arruda é a "mulher mais linda do mundo".

Dentro de uma "fauna" de paniquetes, caldeirões, domingões, em que um pastor tipo Marcos Feliciano se acha no direito de presidir a Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara Federal e um Merval Pereira pode entrar na Academia Brasileira de Letras lançando só pálidas coletâneas de artigos, é claro que tem gente que vai superestimar a 89 FM.

Já falei da qualidade da programação da emissora, cuja volta pude conferir em audições pacientes da transmissão da UOL 89 pela Internet, que é muito aquém para o que se alardeia tanto da tal "rádio rock". Eu, que ouvi a rádio Fluminense FM nos seus primórdios, posso garantir que a 89 sempre ficou a dever para uma histórica rádio de rock.

Mas o que me surpreende é que, no fundo, a 89 FM nunca passou de uma rádio provinciana disfarçada de moderna, e pesquisando a respeito de seus proprietários - sejam a família Camargo, sejam agora os Frias da Folha de São Paulo/UOL - , fiquei pasmo ao saber que a coisa é mais grave que se imagina.

E eu que pensava que provinciana e politiqueira era uma rádio baiana chamada 96 FM, que entre o final de 1989 e meados de 1993, também tentou ser "rádio rock" nos moldes caricatos da paulista 89. A baiana 96 FM (Rádio Aratu 96 FM) era um projeto político de um "coronel" chamado Nilo Coelho para atrair um público jovem através de uma abordagem do rock que nada tinha a ver com a realidade do segmento.

Afinal, o poderio do dono da 89 FM, José Camargo, dono também da brega-popularesca Nativa FM - irradiada no Rio de Janeiro por uma franquia dos Diários Associados - , é de fazer qualquer roqueiro autêntico, inclinado à rebeldia com causa, ficar bastante assustado.

RELAÇÕES COM A DITADURA MILITAR

Quem pesquisa sobre imprensa e política em busca dos bastidores da política paulista, sabe que José Camargo foi um político ligado à ARENA, intimamente associado ao então governador paulista Paulo Maluf. Camargo, de 85 anos, havia passado também pelo PDS e pelo PFL.

José Camargo havia até mesmo participado de uma reunião, registrada no Jornal da República de 02 de janeiro de 1980, com o próprio Paulo Maluf, do qual o empresário da 89 era definido como "adesista" (seguidor). A reunião também contou com o atual presidente da CBF, José Maria Marín, então vice de Maluf.

Quando veio a 89 FM, Camargo não estava mais ligado a Maluf, mas nem por isso deixou de ser um político conservador. Daí sua ligação com o pefelismo que o fez também apoiar Fernando Collor de Mello no seu governo como presidente da República, em 1992.

Foi durante a Era Collor que a 89 FM foi economicamente favorecida, enquanto rádios autenticamente rock como Fluminense (RJ) e 97 Rock (SP) viviam sérios problemas financeiros. Os donos também deram todo o apoio aos governos Fernando Henrique Cardoso, o que permitiu também fortalecer as finanças do Grupo Camargo de Comunicação.

Com isso, a 89 e a popularesca Nativa FM foram favorecidas e cresceram. Uma trabalhando o rock de forma estereotipada, outra trabalhando a cultura brasileira da maneira mais caricata possível. Ambas representando um processo de dominação e manipulação do público, evitando a rebeldia dos jovens e das classes populares através da exploração de seus estereótipos.

José Camargo é bem relacionado com os Civita e os Frias, estes presenteados com uma participação acionária na 89 FM. É um dos barões da mídia regionais de São Paulo, que quem vive fora dele pouco conhece. Um figurão conservador, nada progressista, com passado ligado à ditadura militar e à figura desagradável de Paulo Maluf.

Já deu para perceber por que, na Internet, os ouvintes e adeptos da 89 FM eram tão reacionários (os da antiga Rádio Cidade de 1995-2006 chegaram a ser escancarados no seu extremo-direitismo e um produtor da rádio depois se vinculou ao PSDB), adeptos de uma falsa rebeldia que pregava até mesmo o fechamento do Congresso Nacional.

O que se nota é que a UOL 89 FM seria uma forma do demotucanato paulista reciclar seu esquema midiático - bastante abalado pelas denúncias da blogosfera - e criar uma base de apoio juvenil para criar um futuro núcleo conservador no Brasil a partir de São Paulo, que possa barrar e enfraquecer as forças progressistas no país.

A fruta não cai longe da árvore e o passado dos donos da 89 - sem falar do envolvimento dos Frias com o DOI-CODI - mostra o quanto as coisas não são tão simples do que se imagina. E que os jovens brasileiros, em sua memória curta e pouca idade, acabam desinformados sobre coisas bastante piores e que seu deslumbramento juvenil não consegue perceber. É bom despertar.

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