segunda-feira, 4 de março de 2013

UOL 89 FM E O ROQUEIRINHO DOMESTICADO


Por Alexandre Figueiredo

Há uma piada relacionada à crise educacional brasileira em que, enquanto os professores fingem que estão ensinando, os alunos fingem que estão aprendendo. É o caso da UOL 89 FM, que, como é de praxe quase sempre nos quase trinta anos da emissora, finge ser rádio de rock enquanto seus ouvintes fingem serem roqueiros.

A volta da 89 FM, sob a parceria do Universo On Line da famiglia Frias, mostrou a que veio. Não como uma "importante rádio de rock" tal como foi e continua sendo alardeado, mas como uma rádio que trata o rock de forma bastante caricata e estereotipada.

A rádio voltou até piorada, com um repertório musical previsível que mais parece uma rádio interna de um shopping center no interior do país. O estilo de locução é a mesma linguagem abobalhada de qualquer rádio de dance music, as vinhetas são iguais ao de qualquer emissora poperó e até mesmo as campanhas publicitárias mais "cidadãs" são absolutamente inócuas, inofensivas.

A fruta não cai longe da árvore. A UOL 89 FM tem como dona a famiglia Camargo, oligarquia conservadora do Estado de São Paulo, que aparece até na revista Caras. Além disso, os Camargo abriram parte das ações para o Universo On Line, portal da Internet vinculado à Folha de São Paulo.

A dita "rádio rock" encontra hoje um contexto muito diferente do de 2006, quando havia se tornado uma emissora de pop convencional. Naquela época, a grande mídia exercia influência quase absoluta na formação da opinião pública e a blogosfera era apenas iniciante e tímida, com muito medo de enfrentar os barões da grande mídia nacional e regional.

No auge da 89 FM, a Folha de São Paulo era tida como símbolo da imprensa moderna e considerado um totem quase inatingível. Hoje, com a Folha de São Paulo arranhando a sua reputação com o mais radical reacionarismo, só perdendo para a revista Veja, a UOL 89 começa também a sentir os efeitos da nova opinião pública.

ROQUEIRINHOS AMESTRADOS

A UOL 89 FM até voltou tentando jogar a cultura rock na devoção mais obscurantista, vide o entusiasmo cego de seus "fiéis", que exageraram nas classificações da rádio como "a melhor rádio rock do mundo" ou "a verdadeira rádio rock", ambas sem o menor fundamento.

No entanto, passada a ressaca da volta da "rádio rock", começou-se a questionar com muito mais frequência a rádio, a ponto de, tanto no Twitter quanto no Google, chamarem a atenção os textos que contestam o perfil da rádio, "pop demais" até mesmo para o mais comezinho perfil de uma rádio razoavelmente de rock.

Afinal, até o coordenador, José Carlos Godas, o Tatola, adota um estilo bastante pop de locução, e o Esquenta! (o da 89, não o da Globo) não faria feio na grade de uma Energia 97 FM - rádio de pop dançante surgida do "falecimento" da antiga 97 Rock, rádio autenticamente roqueira e pioneira em São Paulo - e as vinhetas forçam muito a barra com a palavra "rock", mas também soam extremamente pop.

A emissora paulista já está retomando gradualmente a mesma conduta e os mesmos exageros de 2006, e hoje há um "empate" entre os textos a favor ou contra a rádio, na Internet. Alguns erros e omissões da "rádio rock" fizeram com que os questionamentos hoje fizessem ainda mais sentido do que em 2006, embora aparentemente a UOL 89 afirme que "nunca mais sairá do ar".

A UOL 89 FM, além de tocar apenas o hit-parade roqueiro, discrimina o rock clássico, embora, de forma bem oportunista, publique notícias sobre o rock mais antigo conforme as conveniências, como no caso do guitarrista Jimi Hendrix, indigesto para os ouvintes da rádio. Além disso, o portal da UOL 89 FM não fez a menor menção dos 70 anos de nascimento do ex-beatle George Harrison, no último dia 25.

Os próprios ouvintes da UOL 89 FM seguem aquele tipo de roqueirinho estereotipado. Metido a rebelde, no entanto é um público domesticado, superficialmente politizado e dotado dos clichês mais banais do protótipo roqueiro médio no Brasil. Um tipo até meio cafona, bastante infantilizado, que até pouco tempo atrás era afeito a fazer trolagem para defender a 89 e sua congênere carioca, a Rádio Cidade.

Não era de esperar que, com um suporte empresarial bastante conservador, a UOL 89 FM representasse uma ruptura com os paradigmas viciados, reacionários e retrógrados da grande mídia em geral, que hoje provoca a decadência da imprensa escrita, da televisão e do rádio FM, que perdem amplas parcelas do público a cada dia.

EM BAIXA, O MERCADO ROQUEIRO VAI REAQUECER NO BRASIL?

Verificando os fóruns na Internet sobre a volta da 89 FM, as visões mais realistas começam a florescer, não mais fazendo elogios à emissora, mas reprovando vários de seus aspectos mais estranhos, como estilo de locução e repertório.

Mesmo em portais como o Whiplash, do Maranhão, antes especializado em rock em geral mas condescendente com o rock "farofa" (Guns N'Roses, Poison, Bon Jovi, Mötley Crüe etc) que firmou reserva de mercado no filão do rock pesado, vários internautas estão céticos sobre qualquer hipótese da UOL 89 FM virar uma rádio de rock de verdade.

A 89 FM ficou prisioneira do seu estilo, refém de suas fórmulas de sucesso. Parece mais sintonizar-se a si mesma e a seus viciados adeptos do que ao público roqueiro verdadeiro, que corre longe dos 89,1 mhz paulistanos e do seu sítio digital e preferem ouvir MP3. É um sintoma do rádio FM brasileiro em geral, isolado em si mesmo, só inclinado a mudanças quando elas tornam-se sempre para pior.

Aparentemente, a volta da UOL 89 FM causou um reboliço e uma injeção de ânimo na grande mídia. Mas que moral essa grande mídia, com seus Mervais e suas Cantanhedes, tem para dizer a nós o que é moderno ou o que está em alta? Nenhuma.

Uma "rádio rock" que se esquece da lembrança de nascimento de um ex-beatle como George Harrison, exímio guitarrista e compositor, que só nos Beatles já escreveu páginas preciosas na História do Rock, dificilmente representará algo moderno.

A caricata "rádio rock" que é a UOL 89 FM se mostra até mesmo em programas abobalhados como Esquenta!, em que um locutor engraçadinho e três patricinhas parecem estar falando para crianças de 12 anos, e o Pressão Total, um game show de cunho quase popularesco. E que todos se preparem, vem aí programa de entrevistas que terá até Neymar, Kleber Bam Bam,

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