sábado, 23 de março de 2013

RÁDIO FM E O "VOTO DE QUALIDADE"


Por Alexandre Figueiredo

Uma prática eleitoral da República Velha anda sendo ressuscitada pelo mercado radiofônico, para tentar forjar o sucesso de audiência de muitas emissoras FM que, na verdade, não conseguem decolar entre seu público.

Essa prática é a do "voto de qualidade", que é o valor que se dá a poucos indivíduos, atribuindo a eles uma equivalência artificial a mais pessoas. Era muito comum, na República Velha, que homens das elites dominantes tenham maior peso de votos do que a maioria da população pobre.

Era comum que um único fazendeiro tivesse mais capacidade de eleger um político do que um grupo de mil trabalhadores rurais. E isso numa época em que analfabetos e mulheres não tinham direito ao voto, e os políticos eram eleitos pela fraude eleitoral que completava o "serviço" do "voto de qualidade" de uns poucos "cidadãos".

No rádio, a sintonia de gerentes de estabelecimentos comerciais está sendo utilizada para "alavancar" artificialmente a audiência das FMs. Basta atribuir o número de fregueses atendidos no seu estabelecimento e eles automaticamente são tidos como "ouvintes" da rádio que somente interessa ao gerente ouvir no lugar.

DISCURSO INVERTIDO, ANTE A CRISE MIDIÁTICA, BENEFICIA O RÁDIO

Sabe-se que a grande mídia vive uma séria crise, e emissoras de TV aberta e jornais e revistas impressos estão sofrendo queda de público em índices como entre 10% e 15%, já considerados preocupantes pelo mercado.

O rádio FM segue o mesmo caminho, mas aparentemente ninguém diz a respeito. Pelo contrário, de vez em quando, nas colunas e fóruns sobre rádio na Internet, há quem "comemore" a aparente subida de emissoras de rádio FM no Ibope, em números surreais.

Diz até uma piada bastante ilustrativa do corporativismo que envolve profissionais e adeptos de rádio no Brasil. A de que determinados programas de rádio se tornam líderes de audiência antes mesmo de entrarem no ar, tal é a "importância" atribuída pelo colunista ou debatedor de rádio.

E o rádio acaba se beneficiando de sua postura de "vítima", superestimando sua posição "frágil" no mercado publicitário, já que é o setor que recebe menos verbas dos anunciantes. Isso dá uma inversão ideológica que faz com que o rádio passe a ocultar algumas posturas que claramente vemos na imprensa escrita ou na televisão

Afinal, o rádio "não" poderia sofrer a mesma crise sofrida pela televisão e pela imprensa escrita, porque supostamente não exerce o mesmo poder dessas outras modalidades midiáticas, maculadas por esse privilégio que o rádio também tem, mas finge não possuir.

PECADOS "ABSOLVIDOS"

Desse modo, o discurso que se vê em relação ao rádio é um discurso que o absolve dos pecados que a grande mídia, sem excluir o rádio, comete. Do pecado de edição de imagens na televisão, por exemplo, o rádio não desempenha porque não trabalha com imagens. Mas isso não faz o rádio mais "santo" e mais transparente, porque, se não pode manipular a imagem, pode escondê-la por motivos óbvios.

A intelectualidade etnocêntrica, aquela que defende a "cultura popular" midiática (de Waldick Soriano a Michel Teló, passando por zezés-filhos-de-francisco e tatis-que-quebram-barracos), até deu um jeito para tirar o rádio da ciranda grão-midiática, subestimando o poder midiático dos empresários regionais de rádios FM, mesmo com a herança histórica do apadrinhamento político de José Sarney e Antônio Carlos Magalhães.

Nesse discurso, as rádios, mesmo as mais comerciais, eram atribuídas à "vontade popular", enquanto a figura do programador ou produtor de FM tinha seu poder exageradamente valorizado, como se fosse um "guerrilheiro do rádio", um "revolucionário das ondas hertzianas", ignorando que tais profissionais seguem interesses ditados pelos proprietários das emissoras, muitos destes integrantes do "coronelismo" de suas regiões.

Assim, o rádio que pouco recebe de verbas publicitárias é "inocentado" de seus pecados, mesmo quando feitos por emissoras controladas por poderosos latifundiários ou deputados federais. E, só porque não edita mensagem, o rádio não é considerado mais honesto, até porque a falta de imagem permite um mascaramento discursivo, um tendenciosismo ainda maior.

É uma ironia que justamente a posição subalterna no mercado midiático garanta ao poder radiofônico regalias e consentimentos que permitem também afastar qualquer hipótese de que o rádio FM esteja sofrendo a mesma agonia que jornais impressos e emissoras de TV aberta estão sofrendo, apesar do contexto midiático unir aquele e estes.

FALSOS "REIS DO IBOPE"

Essa inversão discursiva acaba criando um discurso unânime nos fóruns e colunas de rádio, em que deve-se acreditar que o rádio possui uma audiência gigantesca em todo o país e que todo indivíduo possui um aparelho de rádio acoplado no seu organismo, como um marca-passo no seu coração.

Mesmo não sendo verdade, essa visão fictícia e um tanto fabulosa deve ser encarada como uma realidade nos fóruns de discussão sobre rádio, para o bem de interesses corporativos e sob pena do contestador ser humilhado da pior maneira pelos principais debatedores ou mesmo pelos âncoras desses fóruns ou colunas.

A partir dessa norma "social", deve-se acreditar também nos números registrados pelo IBOPE, em que até mesmo rádios FM surgidas do nada e ouvidas em lugar nenhum apresentam índices "satisfatórios" de audiência.

Muitas vezes criam-se falsos estereótipos que consagram qualquer figurão no rádio. Não obstante, surgem do nada locutores esportivos ou broncos que viram "Reis do Ibope" só porque são paparicados em colunas de rádio e correspondem a um filão "popular" que precisa ser "obrigatoriamente bem sucedido", sobretudo no chamado "Aemão de FM", ou seja, programação tipo rádio AM transmitida nas ondas de FM.

E aí é que entra o "voto de qualidade". Quando uma FM não consegue ter a audiência esperada, de repente, na semana ou no mês seguinte, há uma "multiplicação" de estabelecimentos comerciais sintonizados na emissora. Do barbeiro da esquina e da banca de jornais até à papelaria e loja de eletrodomésticos existentes num shopping center, de repente a FM parece estar "em alta" da noite para o dia.

Até mesmo a poluição sonora é feita, sobretudo durante as transmissões de futebol, para "anabolizar" a audiência. E aí o "voto de qualidade" ganha ainda maior impulso, já que seu alcance não é apenas na presença física de outras pessoas, mas em aspectos geográficos de possibilidade de recepção de um som.

COMO ISSO SE DÁ?

No caso de estabelecimentos comerciais - equipara-se a eles a sintonia individual de porteiros de prédio ou o rádio ligado de cada veículo de táxi, por exemplo - , calcula-se a presença de pessoas no local onde uma única pessoa sintoniza uma emissora de rádio e atribui-se a ela a audiência, ainda que involuntária, dessa mesma emissora.

Se uma loja de material de construção, por exemplo, atende diariamente 30 mil pessoas e possui 50 funcionários, e seu gerente é que sintoniza a emissora de rádio ouvida no seu recinto, então, para os olhos do IBOPE e outros institutos e para alegria dos colunistas de rádio e seus séquitos, são 30.050 pessoas que involuntariamente somam à audiência pessoal do gerente a sintonia da rádio.

Você pode odiar a rádio X que toca na loja em que você compra ou pesquisa seu produto, mas oficialmente você acaba sendo atribuído à audiência da emissora. É a mesma tática do fumante. Quem está por perto, fuma junto.

Se a rádio promove poluição sonora - sem medir escrúpulos em sintonizar transmissões esportivas até em fins de noite - , que o corporativismo midiático não entende como tal, se o som dessa rádio atinge 60 mil pessoas num raio de 50 m², então o dono de botequim que sintoniza essa emissora, não bastasse puxar para "compartilhar" forçosamente a sua sintonia funcionários e fregueses, faz o mesmo com 60 mil outros cidadãos.

Assim o jabaculê de FM se torna brincadeira de criança. Qualquer FM inexpressiva pode virar "campeã de audiência", qualquer radialista vindo do nada torna-se um falso Rei do Ibope. Mas a realidade mostra que isso tudo só influi na fama publicitária artificialmente trabalhada pela emissora, que só favorece a vaidade de alguns radiófilos, mas não traz efeito algum na sociedade.

Exemplo disso é a Rádio Metrópole FM, de Salvador. Liderada pelo barão midiático Mário Kertèsz, ela trabalhava a falsa imagem de "campeã de audiência" a custa de audiências tendenciosas de estabelecimentos comerciais, porteiros de prédios, donos de botequins e até serviços de vans escolares. Tudo uma audiência individual de uma minoria inexpressiva de pessoas, mas sempre ligados em alto volume na rádio.

Só que o poder da Metrópole e de seu "astro-rei" foi testado quando Kertèsz virou garoto-propaganda do candidato ao segundo turno para a Prefeitura de Salvador, Nelson Pelegrino. O "jornalista" e "radialista", tido como "grande comunicador" e "combatente midiático", viu sua máscara cair quando não conseguiu influir a opinião pública para eleger o petista (num envolvimento tendencioso com o PT, por influência de amigos publicitários de Kertèsz, que é um direitista doentio mas enrustido).

A vitória eleitoral acabou sendo para Antônio Carlos Magalhães Neto, o ACM Neto, que hoje é prefeito de Salvador. Sinal que nem sempre o "voto de qualidade" adotado por emissoras de rádio representa votos reais para as vitórias nas urnas.

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