terça-feira, 12 de março de 2013

O USO LEVIANO E IRRESPONSÁVEL DO TERMO "BANDA"

GRAVADORA SONY MUSIC CHAMA DESTINY'S CHILD DE "BANDA" - Você viu alguma instrumentista nesse grupo?

Por Alexandre Figueiredo

Um jovem se inscreve numa escola de música para aprender algum instrumento musical. Digamos que seu curso é bancado por seus pais e ele se dedica ao treinamento de horas para tocar seu instrumento. É muita concentração para treinar acordes e memorizar melodias que nem sempre dá em acerto. As músicas são tocadas em muitas tentativas, e depois de tanto esforço ele consegue dedilhar uma canção toda sem errar.

Sempre foi assim entre os músicos ou entre os aprendizes que tentaram tocar música apenas como hobby, sem seguir carreira. Mas, nos últimos anos, a ditadura midiática criou um outro problema que acaba desrespeitando seriamente todo o esforço daqueles que se dedicam preciosas horas de sua vida para aprender instrumentos musicais.

É o cacoete terrível de classificar qualquer grupo de "banda". "Banda" agora não é mais um coletivo de músicos, mas um amontoado de pessoas executando algum número musical. A corrupção semântica desta palavra, sobretudo no chamado pop dançante, é um processo feito com insistência pela velha grande mídia e seus seguidores, que transforma a música num verdadeiro fisiologismo político.

O rapaz que dedica horas tocando um instrumento musical realiza um árduo trabalho, e mesmo diante da flexibilidade técnica do punk rock, onde basta "fazer um som", também requer algum treinamento, já que será o mesmo som a ser tocado mais de uma vez, sem errar. Em muitos casos, deixa de ir ao cinema, sair com os amigos, procurar uma namorada, para ver se torna, pelo menos, um músico razoável.

Só que, graças à estupidez midiática de hoje, se esse jovem quiser formar um conjunto musical com instrumentistas - que é o que conhecíamos, numa época de um Brasil menos kafkiano e bem menos febeapeano, como "banda" - , terá que ter uma incômoda concorrência.

Afinal, o que os viscondes da grande mídia (sobretudo Luciano Huck) definem como "banda" são grupos de cantores-dançarinos onde, quando muito, basta apenas saber cantar. Compor, nem tanto, já que muitas vezes o máximo que um integrante dessa "banda" (sic) consegue fazer é acrescentar algumas letras em no máximo quatro canções de seu álbum em CD.

Em certos casos, nem cantar é preciso, já que o vocoder (técnica de "robotizar" o som da voz humana) é um recurso muito usado no pop dançante atual. E o que é mais constrangedor é que, nessas "bandas" (sic), em certas músicas o vocalista canta (ou parece cantar) enquanto os outros membros ficam de braços cruzados, alguns contando formiguinhas pelo chão.

BURRICE: ERRO DE TRADUÇÃO DO TERMO "BAND"

O mercado de entretenimento brasileiro mostrou sua capacidade de cometer grandes burrices, sobretudo pela tradução em inglês. Afinal, mesmo seus "ezecutivos" possuem um "fluente" inglês da linha "the book is on the table" feita para receber um astro pop estrangeiro, aprendido às pressas em algum cursinho de segunda categoria.

E aí, os viscondes midiáticos acabam fazendo uma tradução errada do termo band, palavra em inglês que pode significar "banda", mas em outros casos significa tão somente "grupo", "conjunto". A minissérie de TV Band of Brothers, por exemplo, não é sobre música e seu título poderia ser muito bem traduzido como "Grupo de Irmãos". A minissérie ganhou título em português como "Irmãos em Armas".

O termo boy band, de fato, existe no pop estrangeiro, mas ele de nenhum modo pode significar "banda de garotos", mas "grupos de garotos". Até porque nem todo "grupo de garoto" é composto por instrumentistas. Os exemplos de grupos do tipo que são realmente bandas são Hanson, McFly e Jonas Brothers.

Aparentemente, alguns grupos cujos integrantes só cantam e dançam só se tornam "bandas" em última hora, como o britânico Take That, cujos integrantes se tornaram instrumentistas depois do primeiro fim do grupo, nos anos 90.

Os integrantes do Menudo, por sua vez, só se tornam músicos de fato depois de saírem do grupo portorriquenho, no qual nem eram responsáveis pelas músicas. Alguns integrantes do One Direction, a mais recente sensação britânica dos ídolos adolescentes, aparentemente são vistos tocando violão nos bastidores ou em alguns números acústicos.

Só que isso não é suficiente para fornecer algum critério para nossa mídia tão estúpida. Para eles, basta juntar um monte de gente para virar "banda". Se a moda pega, até mesmo grupos de ginástica fitness serão chamados de "bandas" só porque fazem algum número sob um fundo musical. Afinal, no pop dançante já existe o playback, não é mesmo?

E A CLASSE DOS MÚSICOS COM ISSO?

Tempos atrás, eu havia escrito um texto, no sítio Preserve o Rádio AM, sobre o fato de que as Pussycat Dolls são tão ou mais perigosas para a classe dos músicos do que Wilson Sândoli, o então presidente da Ordem dos Músicos do Brasil que, nomeado durante a ditadura militar, ainda permanecia no poder.

O aviso parecia ter um tom de provocação, diante da revolta dos músicos em relação às gestões arbitrárias e ineficientes de Sândoli, mas tem uma razão de ser. Afinal, se as Pussycat Dolls - grupo que revelou a cantora Nicole Scherzinger, namorada do corredor inglês Lewis Hamilton - são conhecidas aqui no Brasil como uma "banda", isso é uma avacalhação com todo o trabalho dos instrumentistas no país.

Isso porque existe uma grande diferença entre um músico que aprende um instrumento, memoriza melodias e arranjos e faz muitos ensaios para diminuir a chance de erros, e um "músico" que só aprende a cantar e dançar e tem todas as canções praticamente prontas pelo empresário e seus produtores e músicos, bastando, quando muito, o "músico" da "banda" assinar seu nome na co-autoria, inserindo uns versos.

Definir como "banda" um grupo cujos integrantes só cantam e dançam acaba se tornando um vício irresponsável pela nossa mídia e pelo mercado associado. É como se chamasse de "legislador" um senador ou deputado que nunca comparece ao plenário mas só está presente quando há necessidade de quorum para as votações do interesse desse parlamentar.

Isso torna a música um trabalho irresponsável e faz com que o mercado dominante expresse um desprezo muito grande ao trabalho dos grandes músicos. Para que perder horas e horas aprendendo a tocar um instrumento musical, se basta apenas cantar e dançar? Isso acaba desmoralizando toda a história da música, e a mídia do entretenimento acaba tratando a figura do instrumentista como se fosse um palhaço.

E isso mostra o quanto a velha grande mídia é desinformada. A baixa qualidade do nosso jornalismo não está apenas nos cronistas políticos que condenam os movimentos sociais ou esnobam os progressos sócio-econômicos trazidos pelo governo. Ela está em todos os aspectos, até mesmo no entretenimento quando a ignorância coletiva faz chamar de "banda" qualquer amontoado de gente que interpreta um número musical.

Se isso é malandragem do segmento pop dançante brasileiro, de tomar para si jargões roqueiros - no pop em geral, costumava-se generalizar os intérpretes chamando-os de "cantores", mesmo se referindo a instrumentistas, mas no rock todo mundo é "banda", até cantores solo - , isso é verdade. Mas a burrice midiática fez propagar essa atitude tornando-a viciada e constante até em propagandas de gravadoras.

Por isso, seria hora dos músicos brasileiros agirem em protesto contra essa mídia irresponsável, que desvaloriza todo o trabalho dos instrumentistas na medida em que tenta equipará-los a pessoas que só cantam ou dançam. Para dar mais vantagem para eles e maior desvantagem para quem realmente dá seu sangue para a música através de um instrumento.

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