domingo, 31 de março de 2013

O "RARDICÓR" DA 89 FM

CPM 22: VERSÃO DOMESTICADA DO PUNK HARDCORE, FOI O PRIMEIRO GRUPO A ASSUMIR O RÓTULO "EMO".

Por Alexandre Figueiredo

A 89 FM sempre trabalhou um modelo de "punk hardcore" desprovido de qualquer consciência crítica definida, o que evita o máximo manter a essência que caraterizou essa vertente do punk rock surgida no final dos anos 70, depois que o punk original, da linha Sex Pistols, se desdobrou em tendências e abordagens mais comportadas e ligadas ao mundo da moda.

O punk hardcore foi difundido a partir do grupo californiano Dead Kennedys, originalmente liderado por Jello Biafra e hoje reduzido, sem ele, a um cover de si mesmo, enquanto o ex-vocalista segue carreira solo como cantor e atua também como ativista político e social.

A tendência surgiu não somente para recuperar a raiva punk perdida, mas de radicalizar sua revolta juvenil através de uma politização que era muito rara na primeira fase do punk rock de 1976-1977. Enquanto a raiva dos Sex Pistols era apenas comportamental e grupos como Buzzcocks, Ramones e Undertones falavam de assuntos da juventude, poucos dessa safra, como o Clash, adotavam uma postura politizada.

É verdade que o radicalismo hardcore chegou a gerar tipos de intolerância social como os skinheads e os neo-nazistas, mas no geral essa variação do punk rock, curtida sobretudo por skatistas, segue o caminho da solidarização com as causas populares e com os movimentos sociais em prol das minorias.

Existe até mesmo uma variação do hardcore que abomina o consumo de álcool e drogas e as baixarias sexuais, que é o straight edge, cujo principal expoente é a banda norte-americana Fugazi, conhecida no cenário independente e que surgiu na própria capital dos EUA, Washington.

No Brasil o hardcore é mundialmente conhecido através da banda Ratos do Porão, que por conta de seu entrosamento com grupos de heavy metal - o que não é novidade, vide a camaradagem conhecida entre grupos como Motorhead, de metal, e o punk Ramones - , passou a adotar elementos do estilo, o que causou muita polêmica.

Os Ratos do Porão (ou RDP ou RxDxPx) são liderados por João Francisco Benedan, o João Gordo, e são musicalmente íntegros, em que pese o fato de seu vocalista seguir uma carreira paralela de apresentador de TV e ser popularizado fora do âmbito roqueiro.

DO HARDCORE AO "RARDICÓR"

No entanto, a 89 FM, depois que seus donos receberam injeções de dinheiro do Estado pelo apoio político a Fernando Collor, resolveu apostar num arremedo de punk hardcore mais inofensivo, mais voltado a um humorismo mais grosseiro e uma rebeldia limitada a poses, gestos, roupas e sons que só fazem sentido na forma, mas deixam o conteúdo completamente vazio.

É o tal "rardicór" de Raimundos e companhia, que se convencionou, em casos extremos, a ser chamado de "rock engraçadinho", feito mais para fazer graça do que para representar um som que conduza o instinto de rebeldia juvenil. Pois é justamente a "rebeldia sem causa" lembrada pelo Ultraje a Rigor nos anos 80.

Ironicamente, os grupos de "rardicór" até evocavam o Ultraje, tocavam com o grupo de Roger Rocha Moreira e tudo. Mas o Ultraje havia feito uma postura bem mais crítica em suas músicas, mesmo num som new wave e numa postura mais próxima da abordagem comportamental de Buzzcocks e Undertones já "nil-ueivizados", do que o suposto hardcore brasileiro dos anos 90, de postura bem mais "cordeirinha".

Depois dos Raimundos, veio a adoção "roqueira" dos humoristas dos Mamonas Assassinas, e o narcisismo de Charlie Brown Jr. e seu projeto um tanto confuso e vago de "conscientização social". E, em seguida, vieram Ostheobaldo / Tijuana, Virguloides, CPM 22, Detonautas Roque Clube, até descambar nos "emos" do Fresno, NX Zero e Restart.

CPM 22, NÃO RELIGIÃO E RESTART

Hoje a UOL 89 FM se recusa a tocar Restart, mas na prática o grupo de "emo colorido" liderado por Pe Lanza, já que o grupo levou até as últimas consequências toda a domesticação estabelecida para o punk brasileiro a partir dos anos 90, através de grupos como Raimundos e Baba Cósmica, que "traduz" a filosofia "rardicór" aos moldes infantilescos tipo Trem da Alegria. Mas não somente por meio deles.

Afinal, o próprio radialista Tatola, também coordenador da UOL 89 FM e um conhecido figurão da 89, havia integrado o grupo paulista Não Religião, que tentava uma releitura do punk brasileiro com uma postura mais domesticada. E que lançou um paradigma de "atitude crítica" que fazia o pretenso "novo punk" brasileiro parecer mais comportado e inofensivo sem que seus fãs deem conta disso.

A rebeldia é mantida em aspectos formais e até reforçada na aparência, com músicos fazendo caretas e poses de malvados nas fotos. O som capricha nas guitarras distorcidas e no vocal gritado, enquanto é usada uma bateria de qualidade ruim, que faz um som de lata de Neston ou Nescau, para forjar um "som sujo" compensando a mixagem "limpinha".

Essa sonoridade é feita também pelo Restart, um herdeiro incômodo para os pretensos "punks" da 89, uma vez que a imagem do grupo está sempre associada a um público similar àquele que aprecia gente como Justin Bieber e One Direction.

Só que ninguém deve se esquecer que o próprio CPM 22 havia lançado a expressão "emo" para definir o seu som, na medida em que seu "rardicór" começava a incomodar os verdadeiros fãs de punk hardcore na medida em que o repertório do grupo carecia de politização e indignação social.

Quando muito, via-se nesse "rardicór" de apelo radiofônico letras de vagas contestações sociais, que não determinavam problemas nem a quem se deveria criticar. Quando muito, falava-se mal de "playboys" e "políticos corruptos", sem "dar nome aos bois", só para aquecer uma pseudo-rebeldia necessária para manter as aparências.

Dessa maneira, mantém-se todo o verniz de rebeldia que garante até mesmo o pavio curtíssimo dos adeptos da 89 FM e congêneres. Esse aparato de rebeldia é um álibi para esconder o caráter ultrarreacionário desses jovens, dando a impressão de que a rebeldia juvenil se expressa intata.

Mas as letras de vagas contestações sociais, não apresentando questões nem culpados definidos, não trazem qualquer impacto, não ameaçam o "sistema", não mostra uma causa, não traz incômodo, e ao mesmo tempo em que imobiliza a juventude para causas realmente importantes, pode por outro lado desviar os jovens a embarcar em causas reacionárias defendidas em falsas militâncias.

A 89 está mais próxima da viva Yoani Sanchez do que do morto Che Guevara, no que se diz ao "modelo" de rebeldia que promove em sua programação, a partir de sua catarse roqueira alimentada sobretudo pelo seu "rardicór" que só garante o sono das classes dominantes.

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