segunda-feira, 25 de março de 2013

O RÁDIO "POPULAR": POLITICAGEM E CORONELISMO


Por Alexandre Figueiredo

A intelectualidade etnocêntrica, supondo estar apoiando as classes populares, costuma defender o que aparece no rádio e televisão portáteis de suas empregadas domésticas ou dos porteiros de seus prédios. Acham que o entretenimento que eles curtem passivamente é a legítima demonstração da "cultura das periferias" que tanto pregaram em milhares de páginas, fitas, vídeos, arquivos HTM etc.

Tomados de uma campanha retórica sofisticada, em que até Marc Bloch e Tom Wolfe - para não dizer Antônio Conselheiro, Oswald de Andrade, Itamar Assumpção e Sérgio Ricardo - são usados para justificar a imbecilidade cultural dominante no país, eles tentam inocentar o poder midiático da manipulação popularesca do povo pobre.

Em compensação, é o povo pobre responsabilizado pelas barbaridades que aparecem na televisão, no rádio e na imprensa, e agora nas chamadas redes sociais da Internet. E o rádio, então, o "primo pobre" da mídia eletrônica, inverte sua situação subalterna com um discurso bem mais pretensioso do que as demais modalidades dos meios de comunicação.

E, no caso da politicagem, o rádio, sobretudo FM, vai fundo nesse discurso. A intelectualidade etnocêntrica, "sem preconceitos" mas muito, muito preconceituosa, tenta inocentar as rádios da breguice reinante, ou, pior, supervalorizam o suposto poder revolucionário dos programadores e gerentes das rádios, ocultando a realidade política e econômica que está por trás.

Sabemos que boa parte dessa "cultura popular" que vemos, glorificada por gente como Hermano Vianna e Paulo César Araújo, é resultante dos interesses de divulgação das rádios controladas por latifundiários e políticos ultraconservadores.

Elas veiculam valores retrógrados, juntando extremos como o moralismo rígido e a baixaria grotesca, o luxo exagerado e a falta de elegância, e criam um ideário da "cultura" brega feito para enganar o povo pobre, se aproveitando de sua ignorância.

Assim, a péssima digestão do moderno e do arcaico, do nacional e do estrangeiro, do rural e do urbano, do moral e do imoral e do provinciano e do global criam um sistema de valores sócio-culturais que criam uma "cultura popular" que não é aquela que faz parte da vida do povo, mas aquela idealizada por executivos de rádio, barões regionais da grande mídia e empresários do ramo do entretenimento.

A mídia que formatou essa "cultura popular" que os intelectuais badalados, de forma populista e paternalista, exaltam - com direito ao urubológico hábito de chamar quem reprova essas tendências popularescas de "elitista e preconceituoso" - foi impulsionada, de forma decisiva, pela politicagem feita por dois coronéis midiáticos, José Sarney e Antônio Carlos Magalhães.

Foi entre 1985 e 1987, quando Sarney era presidente e Magalhães o ministro das Comunicações. Eles deram de presente, a políticos e empresários "idôneos" que os apoiaram, concessões de rádio (sobretudo FM) e televisão feitas sem qualquer tipo de critério técnico, puramente a base do clientelismo.

Isso gerou efeitos nefastos para a cultura popular e para a transmissão de informações e prestação de serviço. Barões regionais da mídia se fortaleceram sem que os analistas da grande mídia tomassem real conhecimento, sendo pegos de surpresa quando alguns analistas de coração mole tentam apoiar algum barão da mídia "menos" reacionário e em posições secundárias do poderio midiático.

Isso criou problemas para a cultura popular, porque privilegiou aquelas músicas popularizadas pelo jabaculê e cuja permanência do sucesso fez até mesmo os públicos mais qualificados se acostumarem com a falsa MPB a que foram empurrados alguns ídolos neo-bregas veteranos, tendenciosamente "melhorados" pelos artifícios que incluem vestuário, publicidade, técnica e tecnologia.

Por outro lado, vieram sub-celebridades que nada têm a dizer que se mantém famosos a qualquer preço. Há também mulheres-objetos que só vivem para mostrar o corpo mas que, de vez em quando, precisam usar algum pretexto "nobre" para se autopromoverem.

A verdadeira cultura popular não veio na durabilidade dessas sub-celebridades, desses sub-artistas, dessas sub-musas. Pelo contrário, eles fortaleceram o poderio de donos de rádios, TVs e outros empresários do entretenimento e da mídia, enquanto víamos intelectuais invadindo até mesmo a mídia de esquerda para dizer que essa futilidade "não existe".

Existe, sim, e sobretudo pela influência das emissoras de rádio "populares", que conceberam uma visão caricata e preconceituosa do povo pobre, e que tudo fizeram, sobretudo nos últimos 25 anos, para transformar as classes populares em caricaturas de si mesmas.

Certo, não temos que ser preconceituosos em relação à cultura das classes populares. Mas o problema é que as rádios "populares" e a TV aberta é que desenharam, elas mesmas, uma visão preconceituosa do povo pobre. São elas é que difundem esse preconceito. E perder o preconceito não é apoiar essa mídia, mas questioná-la, nem que seja preciso questionar também os intelectuais mais badalados.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...