sexta-feira, 8 de março de 2013

MULHER E CULTURA POPULAR: O MACHISMO AINDA FAZ AS REGRAS


Por Alexandre Figueiredo

Infelizmente, a mídia "popular" insiste em promover uma imagem sexista da mulher brasileira. E mais triste ainda é imaginar que mesmo parte da intelectualidade que se horroriza quando a exploração da mulher de classe média alta sucumbe à caricatura ou à depreciação é capaz de aplaudir os mesmos procedimentos, quando eles se protegem sob o rótulo de "popular".

A mulher brasileira das classes populares não tem uma auto-estima incentivada pela mídia. Ou a grande mídia explora uma imagem piegas da mulher trabalhadora, ou então trabalha a imagem "divertida" da mulher vulgar, que tão inutilmente segue sua carreira às custas da exibição de suas formas físicas, não obstante anabolizadas ou acrescidas de doses de silicones.

É um mercado bastante poderoso, o que mostra que o rótulo "popular" que, associado ao brega-popularesco, tanto encanta os cientistas sociais e jornalistas culturais "de nome", nada tem de pobre. Sabemos que há um mercado editorial influente e os sítios de celebridades não medem escrúpulos para lançar ao mesmo até mesmo trinta musas "boazudas" fazendo a mesma coisa com o corpo.

A situação chegou ao ponto de gafes repercutirem muito mal para essas musas, o que complica a situação desse entretenimento "popular". Mesmo a trolagem que tentou defender essas "musas" fazendo acusações de "homossexualismo" àqueles que as repudiam, também não convenceu.

Afinal, esse machismo "emo" - que eu classifiquei como "machismo uia", porque seus adeptos gritam "Uia!" quando são acusados de machistas, sobretudo por outros homens - chegou ao cúmulo de dizer que "mulher gostosa não precisa ser inteligente", dando a crer que a burrice de muitas delas era um "charme". Um comentário tipicamente "urubológico", mais ou menos como um Reinaldo Azevedo pornô.

E como a sociedade pode superar esse triste espetáculo, que deprecia a chamada "mulher popular" a partir de pobres coitadas que poderiam muito bem viver um ostracismo mais digno, mas preferem "sensualizar" na marra, pouco atentas ao risco que sofrem quando cometem gafes constrangedoras.

Afinal, o pretexto de que elas "também são polêmicas" não tem o menor fundamento. Ninguém é feliz porque causa polêmica, ou, neste caso, falsas polêmicas. Porque a questão é uma só: elas não têm validade porque fazem o papel de "mulheres-objeto", a "polêmica" está na mente de quem quer forçar a barra fazendo prevalecer esse lamentável espetáculo de depreciação da beleza feminina.

Vemos "boazudas" assim cometendo gafes, expressando pavio curto, mostrando corpos anabolizados que as fazem serem quase como versões femininas dos pit-boys, não bastasse a personalidade grotesca e por vezes apalermada. Ou então, na melhor das hipóteses, elas apenas "mostram o corpo", sem arrumar um tempo sequer para poupar tanto "sensualismo" com roupas discretas de vez em quando.

LIBERDADE DO CORPO? NÃO! É DESRESPEITO AO CORPO

As alegações de que essas moças "sensualizam" pela "liberdade do corpo" também não têm fundamento. Isso é tanto a "liberdade do corpo" quanto é "liberdade de imprensa" o que os articulistas da grande imprensa fazem condenando os movimentos sociais.

Se para os chamados "urubólogos" ou "hidrófobos" (apelidos dados a jornalistas reacionários), existe "liberdade" para eles defenderem o capitalismo selvagem e não existe liberdade da sociedade organizar-se em sindicatos, entidades estudantis e organizações ativistas, para a mídia popularesca as mulheres "sensuais" têm liberdade até para deixar o sutiã cair na frente de todo mundo, mas não têm liberdade de pensar.

E como essas "musas" são o que a mídia dita "popular" impõe como "símbolos de sucesso e emancipação (sic) femininos", as mulheres das classes populares acabam sendo divididas entre uma vida profissional subalterna e oprimida pelas pressões do capitalismo e uma "vida de moleza" de famosas que só mostram seus corpos e mais nada.

A mulher das classes populares é simbolicamente jogada num dilema, mesmo numa época em que os progressos econômicos nas classes populares ocorrem, ainda que de forma limitada. Isso porque ou ela se torna uma proletária que dificilmente se ascende socialmente, ou ela, se tiver a sorte de parecer "atraente", pelo menos pelos padrões suburbanos, se torna uma ociosa "musa" que "sensualiza demais".

E como a intelectualidade etnocêntrica não quer que a regulação da mídia mexa no que seus "pensadores" definem como a "pureza da cultura das periferias", a mulher das classes populares não é estimulada a desenvolver o intelecto nem a apreciar cultura de verdade, o que poderia, sim, ser um salto de qualidade expressivo.

Mas esse salto de qualidade ameaça os interesses dos barões midiáticos, que financiam essa intelectualidade que veste a capa de "progressista", sendo carneirinhos neoliberais travestidos de coiotes socialistas. E por isso não há esse estímulo de oferecer às moças das classes populares exemplos comparáveis aos de atrizes e jornalistas de televisão capazes de ter opinião própria e ter acesso à cultura de qualidade.

Por isso tem-se que discutir o papel da mulher das classes populares. É muito bom que se lute para que a mulher abastada dos comerciais de televisão seja menos caricata e mais próxima à realidade. Mas isso é só uma parte do problema.

Se limitarmos a defender a dignidade social somente para as mulheres abastadas, enquanto vários intelectuais insistem em acreditar que a vulgaridade feminina é "um outro sistema de valores", permitindo todo tipo de baixaria, o trabalho será completamente inútil. Isso fará com que tenhamos patroas mais dignas, inteligentes e humanistas, mas as empregadas continuarão grosseiras, exibicionistas e irresponsáveis.

Cabe portanto romper com essa atitude viciada. A mulher das classes populares também merece o respeito que a sorridente mídia machista popularesca finge que dá, mas não oferece.

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