sexta-feira, 22 de março de 2013

MC FEDERADO, LELEKES E AS FRAUDES NO "FUNK CARIOCA"


Por Alexandre Figueiredo

Depois que um grupo farsante que usava o nome de MC Federado e os Lelekes foi detido depois de se apresentar em Juiz de Fora e revelar que recebeu R$ 500 mil adiantados para futuras apresentações, a briga judicial em torno do grupo mostra o cenário de fraudes e corrupção que cerca o "funk carioca".

O episódio derruba definitivamente toda aquela retórica linda e sonhadora que cientistas sociais, jornalistas culturais, celebridades e artistas faziam do gênero, que não passava de uma retórica paternalista e dócil que investia na glamourização da pobreza e na apologia à mediocridade cultural dominante.

Desde que o grupo começou a fazer sucesso com o "Passinho do Volante", sucesso funqueiro que contou até mesmo com a propaganda do craque Neymar - a exemplo do que o português Cristiano Ronaldo fez com o "Ai Se Eu Te Pego", sucesso do breganejo Michel Teló - , vieram as ações fraudulentas e até mesmo outros incidentes que mostram o lado sombrio da "alegre cultura popular" defendida pelos intelectuais "mais bacanas'.

Além das suspeitas de que o grupo farsante seria uma forma de garantir lucro para os empresários originais - inclusive o ex-funqueiro Dieddy Santana - , que disputam o passe do grupo com o mega-empresário do gênero, Rômulo Costa, da Furacão 2000, agora existe as disputas sobre quem é o verdadeiro autor do "Passinho do Volante".

Infelizmente, no brega-popularesco, questões como quem é o autor de uma música não são levados em conta. Na burrice musical de hoje, em que meros agrupamentos de cantores e dançarinos são denominados, pela própria mídia, de "bandas", muitos acreditam que o intérprete é necessariamente o "autor" das músicas que interpreta, mesmo quando ele nunca compõe tais músicas.

Há casos até de cantores de "pagode romântico" que, se aproveitando dessa ignorância em torno do processo artístico ou dos bastidores dos sucessos popularescos envolvidos, contrata um arranjador para fazer todo o trabalho de seus discos.

Em cada caso, o arranjador faz todo o trabalho, mas o "pagodeiro" mais ambicioso pede para ser creditado como co-arranjador, quando o máximo que ele fez foi o pedido de como deveria ser esse arranjo, conforme a tendência do momento.

No "funk carioca", tomado pela ruindade artística, a coisa é pior ainda. Afinal, não se faz arranjos num "funk". E, além do mais, apesar de ser muito fácil "fazer um funk", há casos de funqueiras que não compõem coisa alguma mas assumem crédito solitário nas autorias dos sucessos que, na verdade, foram compostos pelos seus empresários.

Daí os processos judiciais que, no caso do "Passinho do Volante", o repasse de verbas do ECAD foi bloqueado até que haja uma decisão judicial sobre quem deve assumir a autoria do sucesso. E isso mostra o quanto o "funk carioca" é um mundo de fraudes e de mentiras, como no caso das "falsas solteiras" cujos maridos são muito "viris" para fazerem sombra ao sucesso delas.

E não dá para comparar com o samba, como faz a intelectualidade badalada em momentos de desespero. Pois no samba, em que pesem eventuais disputas de autoria entre vários compositores, havia um processo artístico mais criativo e um pouco mais transparente.

Em muitos casos os sambistas eram vítimas de sub-seresteiros que, tentando fazer sambas, compravam composições dos morros e tomavam elas para si, adulterando o crédito de autoria para eles e não para seus autores originais.

Afinal, o "funk carioca" nem de longe reflete essa criatividade que o paternalismo intelectual tanto alardeia "bondosamente". O ritmo é a imbecilidade cultural levada às últimas consequências, e sempre esteve, desde o começo, apoiado pela grande mídia, pelas Organizações Globo e pelo Grupo Folha.

Foram os veículos dos Frias e dos Marinho que primeiro esboçaram essa retórica "socializante" do "funk carioca" que fez o pessoal acreditar que se trata do "supra-sumo da diversidade cultural" ou "genuína expressão das periferias". E há quem acredite que Globo e Folha não participaram desse projeto, tomado sempre da habitual memória curta. "Funk é o Caldeirão", que o diga Luciano Huck.

Pois o caso de MC Federado e os Lelekes - que uma reportagem do G1 definiu equivocadamente como "banda" - mostra o quanto há de sujeira no "funk carioca", dentro de um mercado milionário que engana até mesmo turistas estrangeiros. E que faz uma Valesca Popozuda forjar um falso sucesso na Europa só para fazer propaganda em seu documentário. Faz parte do negócio, o "pancadão" é puro jabaculê.

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