sábado, 2 de março de 2013

MAMONAS ASSASSINAS E A IMBECILIZAÇÃO CULTURAL


Por Alexandre Figueiredo

Os Mamonas Assassinas, no fundo, nunca passaram de uma piada. E, de fato, era esse o propósito dos integrantes, falecidos há 17 anos atrás num acidente aéreo na Serra da Cantareira, em São Paulo, depois de um breve período de sucesso estrondoso.

No entanto, há o costume brasileiro de glamourizar quem morre e hoje os Mamonas Assassinas - que, a seu tempo, tinha uma reputação não muito positiva e variável entre o que hoje têm o Pânico da Band e o Restart - , hoje superestimados pelos seus fãs, que dão ao extinto grupo um valor que eles não tinham.

Afinal, como banda de rock, os Mamonas Assassinas eram medíocres. Surgiram como um mediano e inexpressivo grupo de Rock Brasil chamado Utopia, e depois, descobrindo sua vocação piadista, se transformaram nos Mamonas Assassinas.

A trajetória dos Mamonas já foi fartamente divulgada pela mídia e existem vários sítios dedicados ao falecido grupo. Até mesmo a UOL 89 FM, a dita "rádio rock" que ignora o aniversário de George Harrison e só se lembra de Renato Russo com oportunistas lágrimas de crocodilo, se derrete em lágrimas em relação aos Mamonas.

Só que os Mamonas não foram tão geniais assim. Era apenas um grupo de humoristas razoável, mas musicalmente inexpressivos. Mesmo o lado musical servia mais para gancho às piadas do grupo do que para alguma expressão sonora inovadora no âmbito do rock. E não havia expectativa que o grupo fosse mais adiante nas aventuras "roqueiras".

Portanto, o melhor seria que o grupo fosse entendido como um conjunto de humoristas corretos e honestos. Mas mesmo assim que nada tinham de "contundentes". Suas paródias não correspondiam a um humorismo crítico, mas à chamada "paródia cordial", feita por homenagem, não por depreciação.

É só observar o caso da música "Lá Vem o Alemão", que nem de longe corresponde às críticas ao "pagode romântico" que os roqueiros, autênticos ou bastardos (estes de uma forma exagerada), faziam naquela época. Tanto que, para acompanhar os Mamonas, dois grupos do gênero participaram: Negritude Júnior (do hoje político Netinho de Paula) e Art Popular (do pseudo-injustiçado Leandro Lehart).

CAIXA DE PANDORA?

O sucesso estrondoso do grupo, que não chegou a durar um ano por causa da tragédia de 1996, fez com que o público jovem de classes mais abastadas conhecesse o humor trash pela primeira vez no Brasil. Só que da forma que ela foi veiculada pela grande mídia - então exercendo supremacia sobre a opinião pública - , isso significou cada vez mais uma inclinação do grande público à imbecilização cultural dos dias de hoje.

 Isso porque os Mamonas Assassinas, na verdade, eram uma síntese das diversas tendências comerciais que a dita "cultura popular" da grande mídia difundiu nos últimos anos. É só perceber os nomes do próximo parágrafo que, de uma forma ou de outra, herdaram algum aspecto dos Mamonas, seja pelo suposto ranço roqueiro, seja pelo aparente apelo popular.

Nomes como Charlie Brown Jr., Claudinho & Buchecha, É O Tchan, Tiririca, Fincabaute, Ostheobaldo, Baba Cósmica, Bruno & Marrone, Leva Noiz, João Lucas & Marcelo, Copacabana Beat, Tchakabum, Michel Teló, Grupo Molejo, CPM 22, Restart e outros de uma forma ou de outra passaram a seguir a herança dos Mamonas Assassinas ao longo do tempo posterior de sua morte.

Isso não foi bom. Afinal, os Mamonas Assassinas foram levados musicalmente a sério demais, e o ridículo na música brasileira passou a ser tratado como "coisa séria e respeitável". A música brega-popularesca se expandiu até não poder mais, numa hegemonia quase totalitária de tolices musicais e intérpretes cafonas ou piegas, que sufocaram as demais expressões culturais no Brasil.

A influência dos Mamonas retrabalhada pela grande mídia e seu impulso sensacionalista abriu caminho para que a juventude urbana aceitasse a choradeira em torno dos ídolos bregas do passado, pregadas sobretudo por Paulo César Araújo, e para saudosismos grosseiramente caricatos como os eventos Ploc 80, que deturpam completamente o significado dos anos 80 no Brasil.

O grande problema, portanto, que se observa no fenômeno Mamonas Assassinas é que eles foram levados a sério demais. Falecidos, seus integrantes viraram "semideuses", portadores de virtudes que seus fãs mais exaltados imaginam que eles tivessem, mas que nunca tiveram.

Os Mamonas Assassinas eram apenas figuras humanas. Não tinham superpoderes de renovar a cultura brasileira nem de fortalecer a cultura rock. Eram apenas simpáticos humoristas. Mas a tragédia causou mais estragos do que a perda de seis jovens: ela fez a grande mídia atribuir aos falecidos qualidades e responsabilidades que eles nunca se interessaram em desenvolver.

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