sexta-feira, 29 de março de 2013

EDUARDO CAMPOS E O CARNAVAL "EX-QUERDISTA"


Por Alexandre Figueiredo

Um assunto bastante corrente nos círculos esquerdistas é a possível guinada ideológica do governador pernambucano Eduardo Campos, do PSB, preparando as coligações para sua possível campanha presidencial para 2014.

Para quem não sabe, Eduardo Campos é neto do falecido político pernambucano Miguel Arraes, que havia governado Pernambuco naqueles períodos turbulentos entre a renúncia de Jânio Quadros, em 1961, e o golpe militar de 1964.

Miguel Arraes estava presente no comício da Central do Brasil, em 13 de março de 1964, que despertou a fúria direitista que permitiu às Forças Armadas tirar Jango do poder e governar o Brasil por 21 anos. Ironicamente, uma figura que estava no comício migrou justamente para o outro lado.

Afinal, o jovem paulista José Serra, presidente da UNE naquele 1964, foi o símbolo da esquerda que mudou de lado, pois, do antigo líder estudantil que havia estado ao lado de Miguel Arraes e Leonel Brizola no apoio a Jango, converteu-se num direitista que, na última campanha eleitoral de 2010, se entrosou com membros ultradireitistas da Opus Dei e do (ainda existente) Comando de Caça aos Comunistas.

Há muito Serra representa o obscurantismo político, havendo muito mais semelhanças entre ele e o personagem de desenho animado de Matt Groening, o sinistro Sr. Burns do seriado Os Simpsons, do que o desenho facial.

Serra tornou-se, ao lado de Geraldo Alckmin, símbolo do que há de mais retrógrado no PSDB. Neste sentido, Aécio Neves pelo menos nos diverte por ser um figurão um tanto "festivo", misto de boêmio com "pegador".

Mas Serra também representa o símbolo do "ex-querdismo" que surpreende as esquerdas menos prevenidas, traídas pelos entulhos abandonados pela memória curta - como no caso de Mário Kertèsz, o filhote da ditadura baiano que tenta a todo custo cooptar as esquerdas locais para seu domínio - ou pela mudança repentina de posturas, como no caso de Fernando Gabeira.

Dos pseudo-esquerdistas - até mesmo pouco convincentes, como o mineiro Eugênio Arantes Raggi - aos direitistas "zangados", as armadilhas dispostas a derrubar as forças progressistas de esquerda estão armadas. E quando o então presidente Lula representava o paradigma da "gente simples", entre 2003 e 2006, o número de falsos esquerdistas no Brasil era bem maior.

Tinha gente que nunca leu um livro de Karl Marx e bastava gostar de Lula para se dizer "marxista". E muitos falsos esquerdistas pegavam carona em símbolos e fenômenos ligados ao esquerdismo, assinando Carta Capital e seguindo Emir Sader no Twitter.

Tinham uma perspectiva de compreensão da cultura popular e das classes populares digna de adidos do PSDB, mas tinham que reagir com gracejos quando alguém os chama de "tucanos enrustidos". O gracejo é uma forma de um acusado ridicularizar o acusador, sem desmentir as acusações que este lhe faz, não obstante verídicas.

E agora o circo se arma dos dois lados, com o PSD "ressuscitado" por Gilberto Kassab para diminuir a ferocidade demotucana da direita associada, e a "Rede" de Marina Silva ideologicamente vaga, mas repleta de demotucanos dissidentes e esquerdistas "indignados". Mas agora vemos o governador de Pernambuco ser cortejado acima da medida pela grande mídia e pela direita política.

Eduardo Campos governava como um peemedebista, mas recentemente é cortejado pela mídia dominante, de tendência demotucana, como a "terceira via" da corrida presidencial, provavelmente a ser dedicida entre Dilma Rousseff, que sinaliza querer a reeleição, e um político tucano, do qual Aécio Neves parece ser a aposta mais "moderna".

O problema é que o assédio da grande mídia a Eduardo Campos, feito sobretudo pela Folha de São Paulo, além do assédio político dos demotucanos. Roberto Freire, também pernambucano e ex-comunista que preside o PPS, já era amigo dos "caciques" do PSDB e recentemente se reuniu com Eduardo Campos para tratar de rumos de sua carreira política.

Portanto, o "socialista" Eduardo Campos parece promover uma euforia maior do que a festa, na grande mídia e na política direitista entre si associadas. Ele se lança como se fosse uma celebridade política, sem qualquer programa definido, a não ser pelas propostas vagas e assépticas de "cidadania" e "progresso" que a ninguém empolga nas propagandas partidárias.

Trata-se, portanto, de um carnaval "ex-querdista", que pode se tornar um aglutinador de pseudo-esquerdistas que não conseguiram enganar as esquerdas e de direitistas "indignados" que agora abraçam causas sociais que, no fundo, nunca se interessariam em assumir pra valer. E vamos ver como se dará essa "folia política" nos próximos meses, perto de se desenhar o quadro sucessório para 2014.

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