quinta-feira, 14 de março de 2013

CAROS AMIGOS, GRANDE MÍDIA E PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO


Por Alexandre Figueiredo

A demissão de funcionários da Caros Amigos que haviam entrado em greve na última sexta-feira mostra uma situação muito delicada na imprensa alternativa brasileira. Afinal, as pressões do mercado, inevitavelmente, acabam estrangulando até mesmo as finanças de veículos que se dedicam à defesa do interesse público, numa realidade onde papéis e máquinas rotativas custam muito, muito caro.

É verdade que, num mercado selvagem como esse, Caros Amigos teve que aderir ao jabaculê para atrair mais dinheiro. Para distribuição em território nacional, recorreu ao "inimigo", negociando a tarefa com a DINAP (Distribuidora Nacional de Publicações), de propriedade do Grupo Abril, de ideologia simetricamente oposta à de Caros Amigos.

Para dar um contrapeso às denúncias de cunho sócio-político e econômico publicadas na revista, em feito então inédito na imprensa escrita, Caros Amigos tinha uma editoria de cultura que, no começo, parecia indefinida e, depois, migrou para a centro-direita, descontando a sessão de fotos e um e outro texto contra a espetacularização da sociedade pela grande mídia.

Isso porque, nos últimos anos, a sessão cultural, além das resenhas de lançamentos de livros, CDs, filmes etc, contou com a colaboração de um dirigente do "funk carioca", MC Leonardo, apadrinhado por um cineasta ligado ao Instituto Millenium e um crítico musical, Pedro Alexandre Sanches, ideologicamente formado ideologicamente pelo "Projeto Folha" que gerou as atuais diretrizes da Folha de São Paulo.

Atualmente, só MC Leonardo está em Caros Amigos, mas ele na maioria das vezes evita fazer lobby do "funk carioca", falando apenas de assuntos políticos relacionados às favelas. Até porque, nos bastidores e na Internet, as apologias ao "funk" que ele e os demais jornalistas de Caros Amigos fizeram em várias edições repercutiram mal, não bastasse o fato do próprio editor José Arbex Jr. reprovar o gênero.

As reclamações vinham até mesmo da desinformação de repórteres da CA diante da associação, mais do que explícita, do "funk carioca" com a grande mídia, sobretudo Folha de São Paulo e Organizações Globo. A desinformação lhes fazia crer que o "funk carioca", por mais que aparecesse facilmente na grande mídia, era tido "oficialmente" como "discriminado" pela mesma.

Caros Amigos, com essa linha editorial que adotava uma estranha defesa ao brega-popularesco, à hegemonia do "mau gosto" que deturpa a cultura popular no Brasil, adotava uma atitude estranha de fazer coro ao que a grande mídia, principalmente a Rede Globo de Mervais, Bonners e Mirians, já pregava em torno do que ela entende como "cultura popular".

Isso fazia com que minimizasse todo o desejo e empenho para a regulação da mídia. Afinal, a declinação de Caros Amigos para um parâmetro "mediano" de jornalismo de esquerda pode ser comercialmente viável para conquistar o público aos poucos. CA e a revista Fórum adotaram essa postura visando atrair um público insatisfeito com demais veículos de imprensa como Isto É e a própria Folha de São Paulo.

Essa postura pode ter sido economicamente viável para conquistar ex-leitores da FSP sem susto, mas muito arriscada em termos ideológicos. Afinal, chegou-se a um ponto em que as questões sócio-políticas se restringiam apenas a uma agenda de agrado às classes mais abastadas, como a supervalorização dos assuntos do Oriente Médio e a tímida mobilização contra a mídia machista.

Por outro lado, o apreço à mediocridade cultural, baseado numa visão de que a ignorância das classes populares é irreversível e se deve "proteger" as expressões culturais do "mau gosto", criou na intelectualidade associada uma identificação com o neoliberalismo cultural que os colocava em contradição com sua aparente (ora confusa, ora falsa) posição esquerdista.

É essa postura tímida que acaba influindo no governo federal, com a complacência de Dilma Rousseff com o poderio da grande mídia. A intelectualidade, mesmo a dita "progressista", acaba também ficando complacente com os valores culturais difundidos pela Globo, Folha e similares, de forma "imparcial".

Ora, se os intelectuais desse porte preferem defender as baixarias do "funk" porque "não existe pecado" fora da "casa grande", em vez de lutarmos por uma cultura melhor, enquanto o exercício da crítica cultural se reduz a ataques e acusações levianas de "elitismo cultural" contra Chico Buarque, então torna-se inútil lutar por uma regulação da mídia de verdade.

Enquanto isso, Globo, Folha, Caras e outros veículos saem mais fortalecidos. A visão que eles trabalham e propagam sobre "cultura popular" é corroborada pelas esquerdas médias, e isso anula o sentido da luta cultural da mídia alternativa. Acaba-se pensando igual ao "inimigo", justamente num setor tão delicado quanto o da cultura.

E isso faz com que as próprias esquerdas fiquem enfraquecidas nas lutas da cultura. E isso acaba pesando negativamente na mídia alternativa. Ela não tem uma agenda cultural alternativa aos interesses da grande mídia. Pior: as esquerdas, preferindo defender um direitista como Waldick Soriano do que um esquerdista como Chico Buarque, assinam seu atestado de complacência com o poder midiático.

E isso reflete no governo Dilma agir dentro dos mesmos receituários das esquerdas médias, o que significa que, no âmbito midiático, em vez do poder dos barões da grande mídia ser sequer contestado, como na Argentina, ele é estimulado e premiado, com verbas publicitárias do governo bastante generosas e até mesmo com paliativos tipo a "Bolsa Novela" para atrair mais audiência para as grandes redes de TV.

Sem regulação da mídia por parte do governo, a mídia alternativa sai enfraquecida. E sem uma intelectualidade que combata a imbecilização cultural, preferindo aceitá-la e, sob o rótulo de "popular", jogar as sujeiras das periferias para debaixo dos tapetes das elites ilustradas, a mídia alternativa sai cada vez mais enfraquecida.

E isso acaba não atraindo o dinheiro esperado, mesmo quando se adotam posturas editoriais brandas para atrair leitores desiludidos com a Folha. Porque chega a um tempo em que os princípios falam mais alto, e isso acaba manchando as manobras editoriais anteriores, que faziam a imprensa de esquerda ser "digestível" para leitores não-esquerdistas, na medida que tal postura só fortalece o poder midiático vigente.

Por isso um Big Brother Brasil não consegue sair do ar. Não há um combate organizado contra a mediocrização cultural, porque o "popular" vira justificativa para certos intelectuais apoiarem tais aberrações, sob a desculpa de que "é isso que o povo gosta".

Mas a mídia alternativa vive no vermelho (não se fala do ideológico, mas do financeiro), e até mesmo a Folha de São Paulo está se divertindo muito com a crise de Caros Amigos. Sinal de que as "paçocas" sanchezianas-apafunqueiras acabaram causando uma baita disenteria...

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...