terça-feira, 12 de março de 2013

"CAROS AMIGOS" DEMITE TODOS OS FUNCIONÁRIOS EM GREVE


COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Bomba na mídia esquerdista. A Caros Amigos decidiu demitir os funcionários que estavam em greve no último dia 08, em protesto contra a precarização do trabalho adotada de forma arbitrária pelos editores do jornal.

É verdade que a revista Caros Amigos, apesar de se intitular "A primeira à esquerda" e ser conhecida como principal veículo da mídia progressista no Brasil, adotava posturas estranhas, como uma linha editorial de cultura de centro-direita, abrigando um funqueiro apadrinhado por um cineasta do Instituto Millenium e um jornalista cultural cuja formação vem da fase neoliberal da Folha de São Paulo (o "Projeto Folha").

Mesmo assim, é um choque que Caros Amigos adote decisões de tal arbitrariedade, dentro de um mercado de mídia impressa tão concentrado que a publicação dependia até mesmo de uma distribuidora, a DINAP, ligada ao Grupo Abril para atingir as bancas de todo país.

Fica a nossa solidariedade aos funcionários demitidos e nosso pesar pelos rumos que a imprensa de esquerda tem no país, já que também a revista Fórum está se tornando cada vez mais rara nas bancas e a tiragem de Brasil de Fato continua sendo das mais modestas.

"Caros Amigos" demite todos os funcionários em greve

Da Aldeia Gaulesa - Reproduzido também no blogue Contexto Livre

Fiquei sabendo com espanto desta notícia. Primeiramente achei estranho a redação da revista Caros Amigos, uma das principais revistas destinadas a um jornalismo crítico no Brasil, ter seus funcionários em greve. Pior do que a revista permitir que a situação chegasse a este extremo é a decisão tomada pela redação para sanar o problema: a demissão sumária de todos os grevistas.

Uma decisão trágica que coloca em contradição o que a revista, supostamente, defendia. Fica aqui a nossa total solidariedade a todas e todos os trabalhadores demitidos desta forma arbitrária pela revista, Lamentável vermos uma revista que foi outrora uma referência para muitos leitores do Brasil caminhar, a passos largos, para o seu fim.

Abaixo segue a nota da equipe da redação em greve sobre este desfecho.

DIRETOR DA CAROS AMIGOS DEMITE EQUIPE DA REDAÇÃO EM GREVE

O diretor-geral da revista Caros Amigos, Wagner Nabuco, chamou hoje (11/03/2013) a equipe de redação e anunciou que a empresa está demitindo todos os trabalhadores que se encontravam em greve desde sexta-feira, dia 08/03, alegando "quebra de confiança".

Nós, integrantes da equipe de redação da revista Caros Amigos - responsáveis diretos pela publicação da edição mensal, o site Caros Amigos, as edições especiais e encartes da Editora Casa Amarela - lamentamos a decisão da Direção. Consideramos a precarização do trabalho e a atitude unilateral como passos para trás no fortalecimento do projeto editorial da revista, que sempre se colocou como uma publicação independente, de jornalismo crítico e de qualidade, apoiando por diversas vezes, inclusive, a luta de trabalhadores de outras áreas contra a precarização no mercado de trabalho.

A greve é um instrumento legal, previsto na Constituição brasileira e direito de todos os trabalhadores. Foi adotada como medida para tentar melhorar as condições de trabalho na revista e foi precedida por uma série de incansáveis diálogos por parte desta equipe, desde que ela começou a ser montada em 2009. As tentativas foram sempre no sentido de atingir o piso salarial para todos os profissionais, encerrar os atrasos no pagamento dos salários e direitos como férias e 13º, que nos atingiram por mais de uma vez, de conquistar o registro dos funcionários fixos e uma melhor relação com colaboradores freelancers, que também convivem e conviveram com baixas remunerações e atrasos nos pagamentos.

Diante de alegações por parte da direção sobre dificuldades financeiras vividas pela empresa por se tratar de uma publicação alternativa, convivemos com salários mais baixos que os pisos e os praticados pelo mercado, e também com a inexistência de muitos direitos trabalhistas. Aceitamos negociar gradativamente a correção desses problemas de forma a fazer com que a Caros Amigos, "a primeira à esquerda", não se tornasse agente de exploração de seus funcionários e avançasse nessa frente conforme suas possibilidades.

Trabalhamos para ampliar a receita da empresa, seja pelo prestígio do trabalho realizado, muitas vezes premiado, seja pelo aumento do trabalho em forma de outras publicações como especiais e encartes.
Em todos os anos entre 2009 e 2013, mantivemos o diálogo salutar com a Direção, buscando negociar melhores condições para desenvolvermos o trabalho com o qual estávamos comprometidos. Isso foi feito por meio de cartas de toda a redação à direção, conversas de comissões da redação com a direção e inúmeras negociações entre o editor-chefe e diretor-geral.

Apesar de todos nossos esforços em construir uma boa relação interna, fomos pegos de surpresa com o anúncio de corte da folha salarial em 50%, com a demissão de boa parte da equipe ou redução do salário dos 11 funcionários de 32 mil pra 16 mil ao todo, conforme relatado em nota divulgada na data de anúncio da greve e que segue novamente ao final desta.

O anúncio de medida drástica que atinge diretamente os trabalhadores foi feito em forma de comunicado pelo diretor-geral, sem margem para negociação. Ainda buscamos pelo diálogo reverter o problema junto à direção por uma semana. Sem margem para conversa, recorremos à paralisação como forma de ampliarmos nossas vozes, mas fomos surpreendidos mais uma vez com o comunicado da demissão coletiva.

Nossa luta não é - e nunca foi - contra a revista Caros Amigos. Pelo contrario, reforçamos a importância de publicações contra-hegemônicas e críticas em um cenário difícil para a democratização da comunicação no Brasil, que cerceia a variedade de vozes. Nossa luta é, portanto, para o fortalecimento e a coerência de um veículo fundamental do qual sempre tivemos o maior orgulho de participar.

Vimos a público lamentar profundamente que essa crise provocada pela direção venha causar sérios prejuízos ao projeto editorial da Caros Amigos, que contou por todos esses anos com nossa dedicação.
Saímos desse espaço de forma digna diante de uma situação que tornou a greve inevitável, na esperança que nossos apelos sirvam de acúmulo para o futuro da Caros Amigos de modo que ela se torne exemplo não só no campo editorial, mas nas relações que mantém com seus funcionários e colaboradores. Esperamos que o compromisso assumido com colaboradores durante a gestão dessa equipe seja louvado e que eles recebam seus pagamentos sem atrasos. Também que sejam honrados nossos diretos trabalhistas.

Agradecemos todos que se solidarizaram com nossa situação e os que seguirão nos apoiando nessa nova etapa. Esperamos que esta experiência sirva de acúmulo e motivo de debate sobre a precarização, o achatamento de salários, a piora nas condições de trabalho e atitudes patronais - que existem tanto em empresas da grande imprensa quanto nas da contra-hegemônica - no sentido de buscarmos melhores condições para todos exercerem suas profissões. Por fim, esperamos que o exemplo comece pela imprensa contra-hegemônica com a correção de práticas como esta.

São Paulo, 11 de março de 2013.

01 - Alexandre Bazzan
02 - Caio Zinet
03 - Cecília Luedemann
04 - Débora Prado
05 - Eliane Parmezani
06 - Gabriela Moncau
07 - Gilberto Breyne
08 - Hamilton Octavio de Souza
09 - Otávio Nagoya
10 - Paula Salati
11 - Ricardo Palamartchuk

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